CICLO
Double Bill


O pretexto para os pares que compõem o Double Bill nada tem de original, mas será eventualmente bem achado. Será o “espírito do lugar” onde decorre a ação determinante para as narrativas de cada uma das duplas de filmes propostas? No primeiro Double Bill de outubro reunimos dois “filmes de prisão” de temperamentos e fama muito distintos. LE TROU será um dos melhores filmes alguma vez feitos sobre a instituição carceral e o comportamento humano em confinamento forçado. Filmado em grande parte na prisão de San Quentin, MY SIX CONVICTS é uma preciosidade de um cineasta, Hugo Fregonese, a merecer plenamente a reavaliação com que este ano o festival Il Cinema Ritrovato apresentou a sua retrospetiva como um dos grandes cineastas americanos desconhecidos. O segundo Double Bill leva­nos até aos palcos dos teatros num jogo que oscila entre o ligeiro e o grave do lugar da comédia e da vida em dois filmes dos mestres Jean Renoir e James Whale: do primeiro, mostramos o celebérrimo LE CARROSSE D’OR, do segundo o inspiradíssimo mas bem menos visto (por aqui só foi exibido em duas ocasiões) THE GREAT GARRICK.  O retrato das comunidades mineiras de HOW GREEN WAS MY VALLEY e DANS LA NUIT não poderiam ser mais distintos. O primeiro é um dos mais amados e calorosos filmes de John Ford. DANS LA NUIT, único filme realizado pelo grande ator Charles Vanel, é uma história delirante e febril sobre um mineiro desfigurado por um acidente (Jean Douchet era um dos grandes defensores da genialidade do filme).
 
 
01/10/2022, 15h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

My Six Convicts | Le Trou
duração total da projeção: 224 min
 
22/10/2022, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

The Great Garrick | Le Carrosse d’Or / La Carrozza d’Oro / The Golden Coach
duração total da projeção: 189 min | M/12
29/10/2022, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

Dans la Nuit | How Green Was My Valley
duração total da projeção: 193 min | M/12
01/10/2022, 15h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
My Six Convicts | Le Trou
duração total da projeção: 224 min
legendados eletronicamente em português | M/12
entre os dois filmes há um intervalo de 20 minutos
MY SIX CONVICTS
Os Meus Seis Criminosos
de Hugo Fregonese
com Millard Mitchell, Gilbert Roland, John Beal
Estados Unidos, 1952 – 104 min

LE TROU
de Jacques Becker
com Michel Constantin, Jean Kéraudy, Raymond Meunier
França, 1960 – 120 min

Sendo talvez o mais convencional filme de Hugo Fregonese (realizador ainda insuficientemente conhecido e autor de mais de um par de obras-primas), MY SIX CONVICTS revela o fascínio habitual do realizador pela figura da prisão e do aprisionamento, literal e figurativo. Um jovem psicólogo idealista chega em serviço a uma prisão e, sendo acolhido de forma hostil por guardas e presos, tenta obter a simpatia dos prisioneiros mais carismáticos para o seu projeto de reabilitação. Na esteira do cinema liberal do seu produtor, Stanley Kramer, o filme mostra a realidade do mundo prisional de forma bastante crua (grande parte do filme foi rodado na lendária prisão de San Quentin), mas acreditando sempre na possibilidade de redenção dos homens (guardas e prisioneiros) que estão dentro dos seus muros. LE TROU, último filme de Jacques Becker, é uma das obras­primas do moderno cinema francês. De uma austeridade total, de onde está ausente qualquer efeito supérfluo, LE TROU é um filme “negro” sobre um grupo de prisioneiros que prepara uma evasão que estará condenada ao fracasso por causa de um denunciante. Sobre ele disse Melville: “Considero este filme – e peso as palavras com toda a atenção – como o maior filme francês de todos os tempos”. “Como diz um dos personagens do filme: ‘C’est ça qui va nous sauver. C’est le bruit’. E o que os perdeu foi o silêncio, esse silêncio absoluto que se segue à traição, antes da melodia ao piano nos fazer pensar em que acordes se pode sustentar esta comunicação subterrânea” (João Bénard da Costa). MY SIX CONVICTS é uma primeira apresentação na Cinemateca.
 
22/10/2022, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
The Great Garrick | Le Carrosse d’Or / La Carrozza d’Oro / The Golden Coach
duração total da projeção: 189 min | M/12
entre os dois filmes há um intervalo de 20 minutos
THE GREAT GARRICK
O Grande Garrick
de James Whale
com Brian Aherne, Olivia de Havilland, Edward Everett Horton, Lana Turner
Estados Unidos, 1937 – 89 min / legendado eletronicamente em português

LE CARROSSE D’OR / LA CARROZZA D’ORO / THE GOLDEN COACH
A Comédia e a Vida
de Jean Renoir
com Anna Magnani, Duncan Lamont, Odoardo Spadar
França, Itália, 1952 – 100 min / legendado em francês e eletronicamente em português

Pouco conhecida comédia histórica surpreendente pela sua dimensão autorreflexiva, THE GREAT GARRICK foi um dos poucos filmes que James Whale realizou fora da Universal e o seu único para a Warner Bros. Propondo uma incursão livre na biografia do reputado ator britânico David Garrick (1717­1779) no momento em que é convidado a integrar o elenco da Comédie Française em Paris para “aprender a ser ator”. “Uma alegre fantasia” assente em dois dados biográficos conhecidos – o génio e a vaidade de Garrick, escreveu Frederico Lourenço. LE CARROSSE D’OR é a mais bela homenagem ao teatro feita por um homem do cinema, Jean Renoir. Anna Magnani é a vedeta de uma companhia itinerante na América espanhola do século XVIII, disputada por três homens, mas cujo amor maior é o teatro. Uma encenação construída como um bailado e uma das grandes experiências de cor no cinema dos anos cinquenta. A exibir na versão inglesa, em cópia restaurada, da coleção da Cinemateca Francesa. 
 
29/10/2022, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
Dans la Nuit | How Green Was My Valley
duração total da projeção: 193 min | M/12
entre os dois filmes há um intervalo de 20 minutos
DANS LA NUIT
de Charles Vanel
com Charles Vanel, Sandra Milovanoff
França, 1930 – 75 min / mudo, com intertítulos em francêse legendado eletronicamente em português

HOW GREEN WAS MY VALLEY
O Vale Era Verde
de John Ford
com Maureen O’Hara, Walter Pidgeon, Donald Crisp
Estados Unidos, 1941 – 118 min / legendado em português

Realizado e interpretado por Charles Vanel (naquela que é a sua única passagem para a cadeira de realizador), DANS LA NUIT é um incrível last hurrah da estética e do imaginário do cinema mudo. Vanel é um mineiro casado e feliz, que vê a vida destruída quando um acidente na mina o deixa desfigurado, forçando­o a usar uma máscara. Tendo sido um dos últimos filmes mudos produzidos em França, a sua estreia já com a tecnologia sonora em plena ascensão terá ditado o seu fracasso junto do público da época e acabado com as ambições de Charles Vanel como realizador. DANS LA NUIT, a exibir numa recentíssima versão digital restaurada que faz novamente justiça à extraordinária fotografia a preto e branco, não é apresentado na Cinemateca desde 2005, quando Jean Douchet o escolheu para a sua carta branca. HOW GREEN WAS MY VALLEY é a história de uma família de mineiros do País de Gales, evocada por alguém que recorda a sua infância. Da nostalgia dos tempos da inocência à amargura da separação dos vários membros da família, quando a crise económica se abate sobre a região. Algumas das mais belas cenas do cinema de Ford encontram­se neste filme: o casamento da filha (Maureen O’Hara), a greve dos mineiros e o conflito com o pai. “Há quem diga que tudo o que vive é sagrado. Ford, que o não disse, filmou­o. E não há filme que faça mais saudades” (João Bénard da Costa).