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Guy Debord ou o Cinema Criticado por si Próprio


HURLEMENTS EN FAVEUR DE SADE, filme sem imagens datado de 1952 cuja primeira projeção pública seria interrompida com violência pelos espectadores, é a primeira obra cinematográfica do muito jovem Guy Debord (1931-1994), revelando como quem elegeu a revolução permanente como modo de vida cedo se serviu do cinema para levar o seu combate ao ecrã. Um filme letrista que sucede ao mítico TRAITÉ DE BAVE ET D'ÉTÉRNITÉ, manifesto por um "cinema discrepante" realizado por Isidore Isou em 1951, que teve uma influência determinante sobre Debord antes de este se afastar do movimento letrista para fundar a Internacional Situacionista em 1957.

No contexto da sua crítica ao "espetáculo" e ao seu "sistema geral de ilusões" que se insinuava em todas as esferas da sociedade e que conheceria o seu apogeu com a edição de La Société du Spectacle (1967) e com a posterior versão filmada (1973), o cinema é considerado por Guy Debord como uma “arte ultrapassada” e um produto das circunstâncias em que surgiu. Na Internacional Situacionista de junho de 1958 podia ler-se: "O atraso no cinema de sintomas modernos na arte (…) releva não apenas das suas ligações diretamente económicas ou disfarçadas de idealismo (censura moral), mas da importância da arte cinematográfica na sociedade moderna. (…) É então necessário lutar para nos apossarmos de um sector realmente experimental no cinema”. Este foi o grande projeto cinematográfico de Guy Debord pois ao adotar o cinema como meio primordial para levar a cabo uma estratégia crítica que estendia a todos os domínios da sua vida, não lhe restava senão procurar uma nova linguagem para esta arte assente em imagens eminentemente históricas.

É grande a coerência dos filmes de Debord, que aqui mostramos na íntegra, invariavelmente assentes no "desvio" e na "colagem" de citações de conhecidos filmes clássicos, atualidades, imagens de jornais, fotografias, imagens publicitárias, acompanhados por vozes que recitam excertos de textos de Debord e de outras proveniências, formando um palimpsesto.

Mas, como escrevia Debord a propósito do filme CRITIQUE DE LA SÉPARATION, a “relação entre as imagens, o comentário e as legendas não é meramente complementar, nem indiferente. Ele visa a sua própria crítica.” Uma crítica que é sempre feita a partir de dentro e não à margem da linguagem do "espetáculo", pelo que este é um cinema que a par da crítica ao tempo em que se inscreve contém a sua própria crítica. Um cinema que não se propõe como uma alternativa ao cinema dominante, mas procura produzir um deslocamento que altera o sentido das imagens de que se apropria.

Como tão bem clarificará Giorgio Agamben ao procurar definir as particularidades da "técnica composicional" do cinema de Debord, colocando a "repetição" e a "paragem" no centro dessa poética assente na montagem de imagens e sons heterogéneos, "Desde os seus primeiros filmes e de forma cada vez mais clara, Debord mostra-nos a imagem enquanto tal, isto é, e segundo um dos princípios teóricos fundamentais de A Sociedade do Espectáculo, enquanto zona de indecidibilidade entre o verdadeiro e o falso."

Esta é assim uma oportunidade única para uma integral dos filmes de Guy Debord na Cinemateca, um programa que resulta de um desafio do Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado por ocasião da sua exposição “Hugo Canoilas. Debaixo do Vulcão”, no âmbito da qual o MNAC promoverá uma mesa-redonda sobre Guy Debord que tem lugar no Museu do Chiado no dia 4 de março. Com exceção de SUR LE PASSAGE DE QUELQUES PERSONNES À TRAVERS UNE ASSEZ COURTE UNITÉ DE TEMPS todos os filmes são exibidos pela primeira vez na Cinemateca.

 
23/02/2017, 18h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Guy Debord ou o Cinema Criticado por si Próprio

La Société du Spectacle | Réfutation de Tous les Jugements, tant Élogieux qu’Hostiles, qui ont été Jusqu’ici Portés sur le Film “La Société du Spectacle”
duração total da sessão: 110 minutos | M/12
 
24/02/2017, 18h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Guy Debord ou o Cinema Criticado por si Próprio

Hurlements en Faveur de Sade | Sur le Passage de Quelques Personnes à Travers une Assez Courte Unité de Temps | Critique de la Séparation
duração total da sessão: 101 minutos | M/12
25/02/2017, 18h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Guy Debord ou o Cinema Criticado por si Próprio

In Girum Imus Nocte et Consumimur Igni
de Guy Debord
França, 1978 - 95 min
27/02/2017, 18h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Guy Debord ou o Cinema Criticado por si Próprio

Guy Debord, son Art et son Temps
de Brigitte Conrad, Guy Debord
França, 1994 - 60 min
23/02/2017, 18h30 | Sala Luís de Pina
Guy Debord ou o Cinema Criticado por si Próprio

Em colaboração com o Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado
La Société du Spectacle | Réfutation de Tous les Jugements, tant Élogieux qu’Hostiles, qui ont été Jusqu’ici Portés sur le Film “La Société du Spectacle”
duração total da sessão: 110 minutos | M/12

LA SOCIÉTÉ DU SPECTACLE

França, 1973 – 90 min / legendado eletronicamente em português

RÉFUTATION DE TOUS LES JUGEMENTS, TANT ÉLOGIEUX QU’HOSTILES, QUI ONT ÉTÉ JUSQU’ICI PORTÉS SUR LE FILM “LA SOCIÉTÉ DU SPECTACLE”

França, 1975 – 20 min / legendado eletronicamente em português

de Guy Debord

 

LA SOCIÉTÉ DU SPECTACLE adapta o livro homónimo de Debord. Excertos roubados a filmes de outros realizadores (John Ford, Nicholas Ray, Sternberg ou Eisenstein), atualidades documentais ou imagens publicitárias “interrompem e pontuam” o “texto do comentário” integralmente composto por excertos da primeira edição do livro lidos por Debord, numa obra que se pretendia revolucionária tanto na forma como no conteúdo. São assim muitas as teses comuns ao livro e a um filme de montagem em que Debord prossegue a sua crítica à redução da vida a uma representação ou à “imensa acumulação de espetáculos característica das sociedades nas quais reinam as condições modernas de produção”. Polémico, LA SOCIÉTÉ DU SPECTACLE é seguido por RÉFUTATION DE TOUS LES JUGEMENTS…, que exerce a função de "direito de resposta" face às muitas críticas de que foi alvo o primeiro filme. É novamente com violência que Debord se detém sobre essa crítica, mas também sobre as sociedades “assaltadas pelo espetáculo” através de um poderoso trabalho de colagem com os seus sons e imagens, entre os quais se incluem imagens da Revolução de abril de 1974. A apresentar em cópias digitais.

24/02/2017, 18h30 | Sala Luís de Pina
Guy Debord ou o Cinema Criticado por si Próprio

Em colaboração com o Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado
Hurlements en Faveur de Sade | Sur le Passage de Quelques Personnes à Travers une Assez Courte Unité de Temps | Critique de la Séparation
duração total da sessão: 101 minutos | M/12

HURLEMENTS EN FAVEUR DE SADE

França, 1952 – 63 min / legendado eletronicamente em português

SUR LE PASSAGE DE QUELQUES PERSONNES À TRAVERS UNE ASSEZ COURTE UNITÉ DE TEMPS

França, 1959 – 18 min / legendado eletronicamente em português

CRITIQUE DE LA SÉPARATION

com Caroline Rittener

França, 1959 – 20 min / legendado eletronicamente em português

de Guy Debord

 

Uma sessão que reúne os filmes de estreia de Debord. HURLEMENTS EN FAVEUR DE SADE, primeira obra cinematográfica assinada por Guy Debord é um filme sem imagens, assentando em variações entre um ecrã branco acompanhado por citações e “frases desviadas” de outros contextos (Joyce, Ford, jornais, Debord) cuja duração total não excede os vinte minutos; e um ecrã negro que corresponde a longos momentos de silêncio. SUR LE PASSAGE DE QUELQUES PERSONNES À TRAVERS UNE ASSEZ COURTE UNITÉ DE TEMPS evoca diretamente a prática da deriva para se desenvolver retrospetivamente reenviando para Paris de 1952, o momento do primeiro filme da sessão. Excertos de uma gravação sonora da 3ª Conferência da Internacional Situacionista, fotografias do grupo de Debord num café parisiense e um comentário que reúne frases retiradas de pensadores clássicos e dos “piores sociólogos da moda” (as palavras são de Debord) fazem parte de uma curta-metragem que se desenvolve como um conjunto de notas sobre as origens do movimento situacionista. CRITIQUE DE LA SÉPARATION é um filme que se interrompe, mas não se completa. Intercala excertos de uma ficção “mais convencional” protagonizada por Caroline Rittener, fragmentos de BD, imagens de atualidades e fotografias de jornais e de outros filmes a que se somam legendas e intertítulos, questionando o “espetáculo cinematográfico” nas suas várias vertentes e o “espetáculo” em geral. "Um dos maiores antifilmes de todos os tempos!", diz um cartão que pontua o filme.A apresentar em cópias digitais.

25/02/2017, 18h30 | Sala Luís de Pina
Guy Debord ou o Cinema Criticado por si Próprio

Em colaboração com o Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado
In Girum Imus Nocte et Consumimur Igni
de Guy Debord
França, 1978 - 95 min
legendado eletronicamente em português | M/12

O último filme de Guy Debord antes de este se remeter a um longo silêncio no cinema. A primeira imagem de IN GIRUM... confronta-nos com espectadores sentados numa sala de cinema, surgindo como um contracampo da realidade de projeção e invertendo o dispositivo ilusionista num filme que apresenta uma observação quase arqueológica da sociedade. Debord prolonga aqui as suas experiências dos trabalhos anteriores combinando imagens e sons "desviados" das mais diferentes proveniências, mas escreveu já um texto propositadamente para o filme. Correspondendo o seu título a um famoso palíndromo, "IN GIRUM IMUS NOCTE ET CONSUMIMUR IGNI" / "Movemo-nos na noite sem saída e somos devorados pelo fogo", esta é uma expressão que reenvia para um movimento circular que corresponde à circularidade do próprio filme. A apresentar em cópia digital.

27/02/2017, 18h30 | Sala Luís de Pina
Guy Debord ou o Cinema Criticado por si Próprio

Em colaboração com o Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado
Guy Debord, son Art et son Temps
de Brigitte Conrad, Guy Debord
França, 1994 - 60 min
legendado eletronicamente em português | M/12

Uma emissão histórica sobre a “arte e o tempo” de Guy Debord produzida para televisão e que contou com a sua colaboração enquanto autor e realização de Brigitte Conrad. Debord terá fornecido a Conrad todos os elementos visuais e sonoros necessários para a prossecução de tal intenção, escolhendo as sequências a utilizar e escrevendo o argumento de um documentário em que propunha ser "antitelevisivo na forma como foi no conteúdo". GUY DEBORD, SON ART ET SON TEMPS evoca as suas obras cinematográficas, homenageia os seus companheiros e envolve-se numa descrição e numa denúncia sistemática dos desaires do seu tempo, não tendo porém a força dos filmes anteriores.