CICLO
As Estranhas Viagens de Fernando Fernán-Gómez


Parece incrível, mas só dois filmes realizados por Fernando Fernán-Gómez conheceram estreia comercial em Portugal: foram os filmes do seu “díptico” do final dos anos 50, LA VIDA POR DELANTE e LA VIDA ALREDEDOR. Tudo o resto ficou longe da vista do público português, mais um exemplo de como a proximidade geográfica nunca teve correspondência num conhecimento detalhado, em Portugal, do cinema espanhol. Vale dizer que, mesmo em Espanha, e apesar de alguns grandes sucessos comerciais e de Fernán-Gómez, como ator, ser uma personalidade bastante conhecida, muitos dos seus filmes como realizador viveram bastante tempo em obscuridade, nalguns casos ditada pelos confrontos com a censura do franquismo. Mas o tempo põe as coisas no lugar, e obras como EL MUNDO SIGUE ou EL EXTRAÑO VIAJE são hoje, muito justamente, considerados momentos essenciais da cinematografia espanhola do século XX e, especialmente, da época do franquismo.
Fernán-Gómez (1921-2007), nascido em Lima, no Peru, porque a sua mãe, atriz de teatro, se encontrava em digressão pela América do Sul, foi um polivalente hiperativo – e como escreveu Miguel Marías, talvez por isso mesmo, e por uma certa aura de elegância diletante, tenha sido chamado de “preguiçoso”. Como ator foi uma das principais vedetas do cinema espanhol a partir dos anos 40  e praticamente até ao fim da vida. Encontramo-lo, para dar exemplos bem conhecidos, no ESA PAREJA FELIZ de Berlanga e Bardem, no ESPIRITU DE LA COLMENA de Victor Erice (que teve outros planos, não concretizados, para empregar Fernán-Gómez), ou no TODO SOBRE MI MADRE de Pedro Almodóvar. Teve intensa atividade teatral, como ator, encenador e diretor de companhia. Publicou livros de todo o tipo, romances, ensaios, poesia, memórias, literatura para crianças. Alguns destes interesses passaram para o seu trabalho como realizador de cinema, porque muitos dos seus filmes são variações sobre matrizes do teatro popular, farsas e sátiras, e porque também filmou adaptações de algumas das ficções que publicou. O mais marcante do seu trabalho como realizador, no entanto, encontra-se nos momentos em que Fernán-Gómez concentrou a relativa dispersão dos seus interesses numa crónica realista, severa, por vezes muito violenta (e muito perturbadora para a censura), da vida no franquismo, seja a vida urbana, seja a vida rural. EL MUNDO SIGUE ou EL EXTRAÑO VIAJE, ambos filmes “embargados” pela censura, são obras-primas de lucidez e vontade de olhar as coisas sem desvios, que abrem a Espanha do franquismo a golpes de bisturi – “sem pretensão de ‘fazer obra’ mas com muito mais personalidade do que muitos que se presumem ‘autores’”, para voltar a citar Miguel Marías.
Mostramos neste ciclo uma seleção dos filmes realizados por Fernán-Gómez, representativa de uma obra que se estendeu por meio-século, dos anos 50 ao princípio do século XXI. Para que, como é imperativo, as “estranhas viagens” de Fernán-Gómez nos sejam menos estranhas.
25/02/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo As Estranhas Viagens de Fernando Fernán-Gómez

SOLO PARA HOMBRES
de Fernando Fernán-Gómez
Espanha, 1960 - 85 min
26/02/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo As Estranhas Viagens de Fernando Fernán-Gómez

LA VIDA ALREDEDOR
Em Redor da Vida
de Fernando Fernán-Gómez
Espanha, 1959 - 102 min
27/02/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo As Estranhas Viagens de Fernando Fernán-Gómez

EL VIAJE A NINGUNA PARTE
de Fernando Fernán-Gómez
Espanha, 1986 - 134 min
27/02/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo As Estranhas Viagens de Fernando Fernán-Gómez

BRUJA, MÁS QUE BRUJA!
de Fernando Fernán-Gómez
Espanha, 1977 - 88 min
28/02/2026, 18h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo As Estranhas Viagens de Fernando Fernán-Gómez

EL MAR Y EL TIEMPO
de Fernando Fernán-Gómez
Espanha, 1989 - 100 min
25/02/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
As Estranhas Viagens de Fernando Fernán-Gómez
SOLO PARA HOMBRES
de Fernando Fernán-Gómez
com Fernando Fernán-Gómez, Analia Gadé, Manuel Alexandre
Espanha, 1960 - 85 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Baseado numa peça teatral de Miguel Mihura, leva-nos ao final do século XIX: é a história de uma mulher que causa escândalo ao decidir trabalhar, e pedir um emprego no Ministério do Fomento. Revela-se tão competente que isso é quase outro escândalo, que lança o caos nos meios ministeriais. A sátira é feroz, e ao mesmo tempo profundamente humanista na composição das personagens. E é um filme que realça a continuidade entre o trabalho de Fernán-Gómez no cinema e no teatro: muitos dos atores habituais nos seus filmes deste período (como a hispano-argentina Analia Gadé, protagonista do díptico de LA VIDA) integravam a sua “troupe” teatral. Primeira apresentação na Cinemateca.

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26/02/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
As Estranhas Viagens de Fernando Fernán-Gómez
LA VIDA ALREDEDOR
Em Redor da Vida
de Fernando Fernán-Gómez
com Fernando Fernán-Gómez, Anália Gadé, Rafaela Aparicio
Espanha, 1959 - 102 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Uma sequência para o sucesso de LA VIDA POR DELANTE, rodado logo a seguir e praticamente com a mesma equipa. Os temas continuam a ser os mesmos, mas um pouco mais intensificados – a tecla cómica é mais carregada, assim como a influência do neo-realismo italiano é mais evidente. O acréscimo de “evidência” trouxe problemas com a censura: depois de submeter o filme ao exame dos censores, foi-lhe dito que LA VIDA ALREDEDOR podia estrear desde que desaparecesse a última bobina. Para mostrar a sua “boa-fé”, o realizador sugeriu ao diretor da censura que montasse ele a última parte do filme (coisa que, parece, já tinha acontecido em casos anteriores). Acabou por estrear intacto, mas sem replicar o sucesso de LA VIDA POR DELANTE, apesar do aplauso da crítica – que continua a considerar este par de filmes um dos melhores dípticos do cinema espanhol. Primeira apresentação na Cinemateca, a exibir em cópia digital.

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27/02/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
As Estranhas Viagens de Fernando Fernán-Gómez
EL VIAJE A NINGUNA PARTE
de Fernando Fernán-Gómez
com José Sacristán, Laura del Sol, Juan Diego
Espanha, 1986 - 134 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Um dos filmes mais célebres do Fernán-Gómez “tardio”, adaptado de um romance que ele próprio escreveu. Há ecos curiosos de um filme como A VIAGEM DOS ARTISTAS de Angelopoulos, porque o ponto de partida é muito semelhante: acompanhar uma troupe de saltimbancos que andam de aldeia em aldeia na Espanha do imediato pós-Guerra Civil. Melancólico e divertido, é uma reflexão não isenta de nostalgia sobre o passado da sociedade da espanhola e sobre a transformação dos hábitos populares de cultura e diversão. EL VIAJE A NINGUNA PARTE foi o grande vencedor da primeira edição dos prémios Goya: melhor filme, melhor realização e melhor argumento. Primeira apresentação na Cinemateca.

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27/02/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
As Estranhas Viagens de Fernando Fernán-Gómez
BRUJA, MÁS QUE BRUJA!
de Fernando Fernán-Gómez
com Fernando Fernán-Gómez, Emma Cohen, Francisco Algora
Espanha, 1977 - 88 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Ambientado na região de Guadalajara, de cujas aldeias e paisagens tira o máximo partido, BRUJA, MÁS QUE BRUJA! é uma sátira divertida e delirante, refinadamente selvática (como escreveu um crítico espanhol, “Fernán-Gómez tentou fazer um filme feio e mal feito”). Um peculiar triângulo amoroso: uma jovem decide casar com o homem mais rico da aldeia, para despeito do rapaz que está apaixonado por ela, e este decide vingar-se com a ajuda de uma charlatã que se faz passar por bruxa. A história é contada em jeito de musical diabólico, cheio de canções e zarzuelas. Outro filme que esteve anos na obscuridade até ser recentemente descoberto e saudado pelos críticos espanhóis como uma formidável revelação. Primeira apresentação na Cinemateca, a exibir em 35mm.

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28/02/2026, 18h00 | Sala M. Félix Ribeiro
As Estranhas Viagens de Fernando Fernán-Gómez
EL MAR Y EL TIEMPO
de Fernando Fernán-Gómez
com Fernando Fernán-Gómez, José Soriano, Rafaela Aparicio
Espanha, 1989 - 100 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Uma das últimas realizações de Fernán-Gómez, de novo com argumento baseado num romance de sua autoria. Os anos finais do franquismo revistos vinte anos mais tarde: um homem exilado na Argentina desde a Guerra Civil regressa a Espanha em 1968, para matar saudades da família – mas já nem a família o reconhece nem ele reconhece a família, e esta tragédia do não-reconhecimento é o centro do filme e do seu olhar sobre a sociedade espanhola. Ao contrário de quase todos os outros filmes do autor, a melancolia e a gravidade levam a melhor sobre a tentação do humor e da sátira, elementos aqui praticamente ausentes. Primeira apresentação na Cinemateca, a exibir em cópia digital.

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