maio de 2020
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CICLO
Povos em Movimento – Migração, Exílio, Diáspora (III)


Como conclusão deste vasto Ciclo, que totalizou 65 programas diferentes e cujas duas primeiras partes foram exibidas em março e abril, apresentamos em maio um núcleo de filmes inteiramente consagrado à emigração portuguesa, e, dentro desta, muito especialmente à emigração para França nos anos sessenta e setenta. A escolha deve-se ao facto de, dentro desse tema mais geral, este ter sido de longe o fenómeno histórico que, pelo seu dramatismo único, se tornou objeto de maior investimento cinematográfico. Como é bem conhecido, contrariamente ao que se passara antes, quando a emigração era controlada pelo regime e era necessário passaporte e autorização de viagem para ir para o Brasil, as colónias, a Venezuela, a África do Sul ou os Estados Unidos, esta imensa leva de emigração para a Europa foi feita “a monte”, de modo clandestino, enquanto o regime fechava os olhos, ciente de que o êxodo também aliviava a miséria e garantia remessas não negligenciáveis para a economia interna. Centenas de milhares de pessoas partiram assim da maneira mais precária, de início para França e, depois, espalhando-se por diversos outros países. Nos anos oitenta, estimava-se que a população lusa em França ascendia a cerca de um milhão de pessoas, o equivalente a 10% da população de Portugal. Depois dos duríssimos “anos de lama”, em que populações sobretudo rurais viveram em bairros de lata, as décadas seguintes foram de integração progressiva, criando, também aí, uma relação particularíssima com os países de destino e com Portugal. Diferentemente dos que tinham emigrado para outros continentes e que, na sua imensa maioria, nunca aqui regressavam, aqueles que emigraram para a Europa passaram a vir regularmente de férias às suas terras e jamais cortaram por inteiro os laços com o país de origem. Se um fenómeno como a vastíssima emigração portuguesa para o Brasil no século XX não deixou traços cinematográficos, no caso da emigração para a França há então abundante material filmado, inclusive por imigrantes da primeira ou segunda geração. Neste subciclo, em que optámos por incluir apenas duas obras de ficção (O SALTO e GANHAR A VIDA), serão abordadas diferentes etapas e facetas do fenómeno: os “anos de lama”; a assimilação no país de adoção; as vindas regulares e temporárias a Portugal; a realização do sonho de ter uma casa na terra onde nasceram; o desencanto daqueles que regressam definitivamente e não conseguem reintegrar-se. A seleção de títulos não pretende ser exaustiva e tem de resto uma lacuna importante, involuntária, que não podemos deixar de referir: um dos títulos que consideramos incontornável, e que, aliás, a Cinemateca pôde apresentar no passado – NACIONALIDADE PORTUGUÊS, realizado em 1973 por Fernando Lopes e Nuno de Bragança junto das comunidades portuguesas em França – é hoje um título de que não conseguimos localizar qualquer cópia…e para o qual queremos justamente lançar um alerta sobre o perigo da sua sobrevivência. O próprio O SALTO, de Christian de Chalonge, é uma obra de que não são conhecidas cópias no formato original, e que – até que se possa concluir um restauro que, este, parece finalmente viável mercê da colaboração de várias entidades – apenas entra no Ciclo pela preciosa colaboração que nos foi prestada pelo Museu das Migrações e das Comunidades de Fafe. Quase todos os filmes programados são inéditos na Cinemateca, e chamamos a atenção para o debate final, em que, entre outros, estarão presentes vários realizadores que não só abordaram como viveram eles próprios esta realidade (participantes a anunciar).
 
 
14/05/2019, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Povos em Movimento – Migração, Exílio, Diáspora (III)

O Salto
de Christian de Chalonge
França, 1967 - 85 min
 
15/05/2019, 18h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Povos em Movimento – Migração, Exílio, Diáspora (III)

Festa dos Emigrantes | Um Abraço Português | Emigrantes Portugueses
duração total da projeção: 87 min | M/12
16/05/2019, 18h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Povos em Movimento – Migração, Exílio, Diáspora (III)

Emigr’antes… E Depois?
de António-Pedro Vasconcelos
Portugal, 1976 - 98 min | M/12
16/05/2019, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Povos em Movimento – Migração, Exílio, Diáspora (III)

Les Gens des Baraques
de Robert Bozzi
França, 1996 - 92 min
17/05/2019, 18h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Povos em Movimento – Migração, Exílio, Diáspora (III)

Inauguration de la Maison du Portugal à Plaisir | A Casa que Eu Quero
duração total da projeção: 91 min | M/12
14/05/2019, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Povos em Movimento – Migração, Exílio, Diáspora (III)
O Salto
de Christian de Chalonge
com Marco Pico, Antonio Passalia, Ludmilla Mikaël
França, 1967 - 85 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Obra de estreia do seu realizador, O SALTO foi o primeiro filme a ter como tema a imigração portuguesa em França. Trata-se de uma ficção, em que se misturam atores amadores e verdadeiros imigrantes, e que mostra as condições em que era feita a emigração “a salto”. Uma vez chegado a Paris, um jovem marceneiro tem a surpresa de descobrir que o amigo que o encorajara a emigrar quer explorá-lo e exige uma percentagem do seu magro salário. O homem não tem outro remédio senão submeter-se a exercer uma profissão que não era a dele e ir para o mundo fechado dos bairros de lata. “Chalonge coloca questões sérias como quem não quer a coisa. Consegue dar uma impressão de veracidade da vida tal como é, com gestos simples” (Gilles Jacob, Les Nouvelles Littéraires). Apresentado uma vez na Cinemateca, em 1993, O SALTO vai ser mostrado numa sessão realizada com o apoio do Museu das Migrações e das Comunidades, de Fafe.
 
15/05/2019, 18h30 | Sala Luís de Pina
Povos em Movimento – Migração, Exílio, Diáspora (III)
Festa dos Emigrantes | Um Abraço Português | Emigrantes Portugueses
duração total da projeção: 87 min | M/12
com a presença de Nuno Cintra Torres
FESTA DOS EMIGRANTES
da Cinequipa
Portugal, 1974 – 5 min
UM ABRAÇO PORTUGUÊS
de António Escudeiro
Portugal, 1977 – 49 min
EMIGRANTES PORTUGUESES
de Nuno Cintra Torres
Suécia, 1972-73 – 33 min

Um programa um tanto contrastante. UM ABRAÇO PORTUGUÊS é um filme genérico e algo oficial, que mostra emigrantes portugueses no Brasil, na Venezuela, nos Estados Unidos e em diversos países europeus, em atividades de lazer e trabalho. EMIGRANTES PORTUGUESES, produzido em França pelo coletivo Cinearma antes do 25 de Abril, é um filme militante, porém sem nada de esquemático e que, além de analisar a exploração do proletário emigrado, olha com atenção e respeito os indivíduos que mostra. A abrir a sessão, um raro e breve documento realizado pela Cinequipa, uma cooperativa de cinema experimental e político, fundada imediatamente a seguir ao 25 de Abril. FESTA DOS EMIGRANTES e UM ABRAÇO PORTUGUÊS são primeiras exibições na Cinemateca.
 
16/05/2019, 18h30 | Sala Luís de Pina
Povos em Movimento – Migração, Exílio, Diáspora (III)
Emigr’antes… E Depois?
de António-Pedro Vasconcelos
Portugal, 1976 - 98 min | M/12
com a presença de António-Pedro Vasconcelos
No verão de 1975, em plena efervescência política, este filme segue, na zona da Guarda, algumas famílias de emigrantes que vêm a Portugal de férias e participam em cerimónias religiosas e festividades tradicionais. EMIGR ANTES… E DEPOIS? é um exemplo da deslocação das equipas de cinema das cidades para os campos na sequência do 25 de Abril, à procura de um Portugal rural, mas também mostra a frequente hostilidade com que muitas delas eram recebidas.
 
16/05/2019, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Povos em Movimento – Migração, Exílio, Diáspora (III)
Les Gens des Baraques
de Robert Bozzi
França, 1996 - 92 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Em 1970, Robert Bozzi realizou um documentário de denúncia, produzido pelo Partido Comunista francês, LES IMMIGRÉS EN FRANCE: LE LOGEMENT, filmado num bairro de lata na periferia de Paris, onde viviam imigrantes portugueses que construíam os bairros sociais que então se erguiam na zona. 25 anos depois, o realizador procura as pessoas que filmara, levado em parte pelo remorso de não as ter conhecido realmente como indivíduos. Procura especialmente reencontrar um bebé que filmara em 1970. Deste modo, paralelamente à evolução da vida daquelas pessoas, o cineasta “passa do documentário militante a um testemunho pessoal, próximo do diário filmado e é progressivamente convidado a fazer parte, a posteriori, destas famílias” (Cédric Lépine).
 
17/05/2019, 18h30 | Sala Luís de Pina
Povos em Movimento – Migração, Exílio, Diáspora (III)
Inauguration de la Maison du Portugal à Plaisir | A Casa que Eu Quero
duração total da projeção: 91 min | M/12
com a presença de José Alexandre Cardoso Marques e Joana Frazão
INAUGURATION DE LA MAISON DU PORTUGAL À PLAISIR
de José Alexandre Cardoso Marques
França, 1997 – 26 min / legendado em português nos diálogos em francês
A CASA QUE EU QUERO
de Joana Frazão, Raquel Marques
Portugal, 2010 – 65 min / legendado em português nos diálogos em francês

Em A CASA QUE EU QUERO, Joana Frazão e Raquel Marques abordam a transformação das aldeias do norte de Portugal (especificamente, Vascões, no concelho de Paredes de Coura) através das “casas de emigrantes”, construídas com muito esforço por aqueles que emigraram para os países ricos da Europa, que ficam fechadas durante a maior parte do ano e são vistas com sobranceria pelos portugueses não emigrados. As realizadoras explicam que a ideia foi “passar o limite da porta, aproximarmo-nos e confrontar as ideias feitas”. Rodado no período de férias em que os emigrantes vêm às suas terras, o filme mostra-nos seis destas casas. “O momento da rodagem era de facto a primeira vez que entrávamos nas casas. Manteve-se assim a experiência de uma visita guiada”. A abrir a sessão, um documentário sobre a inauguração de uma Casa de Portugal na comuna de Plaisir, perto de Versalhes, onde vive uma importante comunidade portuguesa. Os imigrantes construíram com as próprias mãos, nos seus tempos livres, uma casa que ofereceram à comuna, que cedeu gratuitamente o terreno. Na inauguração, as autoridades portuguesas, que tinham manifestado o mais absoluto desprezo pelo projeto (“Quem vos autorizou a sonhar?”, perguntou um diplomata a um membro da associação de imigrantes), comportam-se como se tivessem tido um papel fundamental na sua construção. Este filme é apresentado pela primeira vez na Cinemateca, ao passo que A CASA QUE EU QUERO teve a sua estreia absoluta na Cinemateca, em 2010.