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A Cinemateca com o IndieLisboa: Doris Wishman, Director’s Cut e Light Cone


A  colaboração entre a Cinemateca e a edição deste ano do IndieLisboa – Festival Internacional de Cinema, iniciada no final de abril, continua até ao final da primeira semana de maio e inclui três programas distintos: a retrospetiva da obra de Doris Wishman, pioneira do sexploitation; a apresentação de filmes da secção Director’s Cut do festival, e uma homenagem à Light Cone, fundamental distribuidora e divulgadora de cinema experimental, no âmbito da secção Silvestre.
 

Doris Wishman – O Inferno Pode Esperar

“Quando morrer, vou fazer filmes no Inferno” é uma das citações mais conhecidas de Doris Wishman (1912-2002), figura fundamental do cinema exploitation americano. Uma das primeiras mulheres a filmar e a vingar no mundo vincadamente masculino da produção sexploitation americana no início dos anos 1960, Wishman começa uma prolífica carreira (25 longas-metragens, número que raras mulheres cineastas atingiram ou ultrapassaram) a trabalhar na indústria na componente de distribuição, experiência que se revelaria posteriormente bastante importante para as suas escolhas como realizadora. A estreia na realização faz-se em 1960 em circunstâncias particulares, com o fim do código de censura a permitir o boom de produções independentes de baixo orçamento. Talvez Doris Wishman seja a mais merecedora de figurar numa “política autoral” paralela ao cânone da história do cinema, já que corresponde plenamente à ideia da “autora total”. Com diferentes pseudónimos nos genéricos, Wishman foi responsável pela produção, argumento e realização de cada um dos seus filmes, por mais de quatro décadas, acompanhando a evolução do gosto por emoções fortes das plateias e temas transgressores. Em função dessa relação muito direta com o público (financiou cada nova obra com os lucros da anterior), a filmografia de Wishman tem sido dividida em três fases. À primeira, pertencem os seus primeiros oito filmes, os nudie cuties, que resultam da simples possibilidade de, a partir do início dos anos 1960, se poder mostrar nudez nos ecrãs americanos. A sua fervilhante imaginação e o cuidado posto nos “acabamentos” (são maravilhosas a fotografia a cores e as bandas sonoras, veja-se NUDE ON THE MOON) resgatam os filmes de serem curiosidades cinematográficas que testemunham a revolução sexual então em curso. Na segunda fase, a dos roughies, Wishman acompanha a evolução do mercado exploitation e deixa para trás a candura para passar a integrar a sexualidade como matéria temática principal, geralmente associada a comportamentos violentos sobre as mulheres. Filmados em preto e branco, são filmes com uma pulsão experimental surpreendente que ecoam gestos semelhantes ligados ao movimento de vanguarda (Andy Warhol não andará longe), mas que se tornam únicos pela sensibilidade singular com que combina um aparente realismo com uma surpreendente componente onírica (David Lynch não desdenharia a estranheza de alguns dos filmes deste período como BAD GIRLS GO TO HELL ou INDECENT DESIRES). Por último, a fase gimmick, menos fácil de definir e marcada pela nova concorrência do cinema pornográfico, que integra uma maior variedade de abordagens, misturando outros géneros (o policial em DOUBLE AGENT 73, a comédia em KEYHOLES ARE FOR PEEPING, o documentário em LET ME DIE A WOMAN, ou o terror em A NIGHT TO DISMEMBER). Quando morreu de uma forma fulminante, Wishman tinha completado 90 anos e estava a preparar um novo filme. Depois de um hiato silencioso, nos últimos anos de vida, Wishman tinha recomeçado a escrever e a realizar alimentada pelo entusiasmo de um grupo cada vez mais numeroso de admiradores que pediam o reconhecimento das qualidades da sua obra, entre as quais se destacam a imaginação sem limites dos argumentos, a inesperada ousadia formal e o conteúdo fortemente subversivo. Entre esses admiradores, conta-se a realizadora Peggy Awesh, autora da monografia sobre Wishman que assinalou o início da sua redescoberta, que estará em Lisboa para apresentar várias sessões do Ciclo e participar numa mesa-redonda sobre a cineasta.  À exceção de LET ME DIE A WOMAN (aqui exibido no já distante ano de 2003 no âmbito do Ciclo Trash - É Tão Mau que É Bom), todos os filmes são primeiras apresentações na Cinemateca e serão exibidos em cópias digitais restauradas.
 

Director’s Cut

Esta secção do festival IndieLisboa mostra produções recentes que mergulham na memória do cinema como sua principal inspiração e matéria-prima. Todos os filmes a exibir são primeiras apresentações na Cinemateca.
 

Foco Silvestre: Light Cone

A Light Cone, distribuidora fundamental para a divulgação do cinema experimental, celebra o seu 40º aniversário em 2022 e é homenageada pelo festival IndieLisboa com um foco sobre essas quatro décadas de vida em quatro sessões. Desde o seu início, a Light Cone dedicou-se à distribuição, divulgação, pesquisa e preservação de cinema experimental, promovendo-o a partir de França e para todo o mundo. Do seu catálogo fazem parte seis mil títulos, o que faz dele um dos maiores e mais importantes arquivos de cinema experimental, reunindo filmes das mais diversas origens históricas, geográficas e formais. Emmanuel Lefrant, atual diretor da Light Cone, estará presente para apresentar as quatro sessões do programa.


 
 
04/05/2022, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o IndieLisboa: Doris Wishman, Director’s Cut e Light Cone

Programa Light Cone 3 – Erotismo e Sugestão
Duração total da projeção: 72 min
 
04/05/2022, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo A Cinemateca com o IndieLisboa: Doris Wishman, Director’s Cut e Light Cone

Keyholes Are for Peeping
de Doris Wishman
Estados Unidos, 1972 - 69 min
04/05/2022, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o IndieLisboa: Doris Wishman, Director’s Cut e Light Cone

Let Me Die a Woman
de Doris Wishman
Estados Unidos, 1977 - 77 min
05/05/2022, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o IndieLisboa: Doris Wishman, Director’s Cut e Light Cone

Stranger than Rotterdam with Sara Driver | Terra Femme
duração total da projeção: 71 min
05/05/2022, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o IndieLisboa: Doris Wishman, Director’s Cut e Light Cone

Programa Light Cone 4 – Intimidades
Duração total da projeção: 80 min
04/05/2022, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o IndieLisboa: Doris Wishman, Director’s Cut e Light Cone
Programa Light Cone 3 – Erotismo e Sugestão
Duração total da projeção: 72 min
legendados eletronicamente em português | M/16
Foco Silvestre: Light Cone

Sessão apresentada por Emmanuel Lefrant
WALT DISNEY’S EX PROD
de Olivier Fouchard
França, 1998 – 3 min

THÈMES ET VARIATIONS
de Germaine Dulac
França, 1928 – 9 min

SLEEPY HAVEN
de Matthias Müller
Alemanha, 1993 – 15 min

ECCE HOMO
de Jerry Tartaglia
Estados Unidos, 1989 – 7 min

SOLITARY ACTS #4
de Nazli Dinçel
Estados Unidos, 2015 –  15 min

SEXE - THYM
de Nathalie Harran
França, 1993 – 1 min

AI(LOVE)
de Takahiko Iimura
Japão, 1963 - 10 min

MIT MIR
de Kerstin Cmelka
Áustria, 2000 – 3 min

CLASSIC LESBIAN FILMS: DYKETACTICS
de Barbara Hammer
Estados Unidos, 1974 – 4 min

ALL YOU CAN EAT
de Michael Brynntrup
Alemanha, 1993 – 5 min

WALT DISNEY’S EX PROD - A estranha sexualização de uma cadelinha cantora num filme para crianças, numa investigação fílmica ao som de Colette Renard. Em THÈMES ET VARIATIONS, vemos o corpo de uma mulher a dançar,  a maquinaria a trabalhar e a sensualidade das formas, cada vez mais abstratas, no ecrã. Numa referência a Fireworks de Kenneth Anger, SLEEPY HAVEN cria uma movimentação erótica entre imagens pré-existentes e outras filmadas, com uma linguagem amorosa, uma dialética de nudez, de respiração pesada e de rendição do corpo. ECCE HOMO entrecorta imagens de Um Cântico de Amor, de Jean Genet, com imagens de cenas sexuais entre homens, levantando questões sobre subversão e tabus. A realizadora masturba o assunto em debate, a sua vagina: Solitary Acts #4 reflecte sobre o toque através das memórias de adolescência e de trabalho directo sobre a película. Num plano em profundo zoom que brinca com as definições de sexe (sexo ou órgão sexual) e thym (tomilho), que rima com a palavra inglesa para tempo (time), SEXE - THYM cria um jogo de palavras e imagens. O filme avant-garde japonês AI(LOVE) é um poema feito-filme pela sua utilização da imagética surrealista, apresentando um olhar sensual pelo corpo humano. MIT MIR apresenta uma mulher e o seu duplo num jogo de carícias. CLASSIC LESBIAN FILMS: DYKETACTICS explora a identidade da mulher enquanto lésbica, que mistura a materialidade do filme com a tangibilidade do corpo feminino criando uma estética própria. Em jeito de libertação, ou exorcismo apoteótico, ALL YOU CAN EAT uma colagem de momentos de prazer sexual masculino.

consulte a FOLHA DA CINEMATECA aqui
04/05/2022, 19h30 | Sala Luís de Pina
A Cinemateca com o IndieLisboa: Doris Wishman, Director’s Cut e Light Cone
Keyholes Are for Peeping
de Doris Wishman
com Sammy Petrillo, Phillip Stahl, Lou Silverman, Saul Meth
Estados Unidos, 1972 - 69 min
legendado eletronicamente em português | M/16
Doris Wishman – O Inferno Pode Esperar
Uma tentativa cómica de satirizar a indústria de filmes para adultos e que conta com Sammy Petrillo, um comediante e imitador de Jerry Lewis (Doris Wishman insistiu que ficasse próximo do guião e não fizesse o seu estilo de imitação habitual, mas o pedido não surtiu grande efeito), no papel de uma espécie de conselheiro sentimental que tenta ajudar um voyeur compulsivo a arranjar namorada. Segundo Wishman, a sua única incursão na comédia foi também o seu único flop comercial, mas as cenas eróticas observadas pelo peeping tom pertencem à imagética mais poderosa que a rainha do sexploitation deixou.

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04/05/2022, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o IndieLisboa: Doris Wishman, Director’s Cut e Light Cone
Let Me Die a Woman
de Doris Wishman
Estados Unidos, 1977 - 77 min
legendado eletronicamente em português | M/16
Doris Wishman – O Inferno Pode Esperar
Um dos primeiros filmes a abordar a vida das pessoas transgénero, este controverso documentário de Doris Wishman é um híbrido difícil de classificar entre o filme educacional e o exploitation, no qual entrevistas alternam com cenas encenadas. Tratando o seu tema com uma mistura de empatia com sensacionalismo, o filme de Wishman retrata o Dr. Leo Wollman, especialista em saúde trans, e uma variedade de pessoas transgénero que falam sobre as suas experiências de disforia de género. Embora tenham sido as representações gráficas de cirurgias de mudança de sexo a garantir a sua notoriedade duradoura, LET ME DIE A WOMAN permanece como um raro registo histórico da experiência transgénero na década de 1970.

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05/05/2022, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o IndieLisboa: Doris Wishman, Director’s Cut e Light Cone
Stranger than Rotterdam with Sara Driver | Terra Femme
duração total da projeção: 71 min
legendados eletronicamente em português | M/16
Director’s Cut
STRANGER THAN ROTTERDAM WITH SARA DRIVER
de Lewie Kloster, Noah Kloster
Estados Unidos, 2021 – 9 min

TERRA FEMME
de Courtney Stephens
Estados Unidos, 2021 – 62 min

A narradora de STRANGER THAN ROTTERDAM é Sara Driver - cineasta, produtora e mulher de Jim Jarmusch -, que conta a hilariante história de como contrabandeou a única cópia de COCKSUCKER BLUES (o controverso documentário sobre uma tour dos Rolling Stones) até ao Festival de Roterdão. TERRA FEMME é composto por filmes amadores feitos em viagem por mulheres entre os anos 1920 e 1940, que os apresentavam também publicamente com comentários das próprias. O realizador Courtney Stephens constrói uma visão do olhar cinematográfico feminino relacionado com o espírito próprio de quem é viajante.

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05/05/2022, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o IndieLisboa: Doris Wishman, Director’s Cut e Light Cone
Programa Light Cone 4 – Intimidades
Duração total da projeção: 80 min
legendados eletronicamente em português | M/16
Foco Silvestre: Light Cone

Sessão apresentada por Emmanuel Lefrant com a presença de Peggy Ahwesh
JOURNAL INTIME
de Jean-Gabriel Périot
França, 2000 – 3 min

MILES
de Yann Beauvais
França, 1983, 3 min

JOURNALITÉS 1
de Frédérique Devaux
França, 1995 – 34 min

ALLERS VENUES
de Vivian Ostrovsky
França, 1984 – 12 min

NOTEBOOK
de Marie Menken
Estados Unidos, 1963 - 10 min

THE SCARY MOVIE
de Peggy Ahwesh
Estados Unidos, 1993 – 9 min

YOU BE MOTHER
de Sarah Pucill
Reino Unido, 1990 – 7 min

THANK YOU, I HAVE BEEN VERY PLEASED
de Mara Mattuschka
Áustria, 1987 – 2 min

Em JOURNAL INTIME, um homem desvenda-se ao espelho, sem a armadura estética (lentes de contacto, dentadura) do dia-a-dia em público. MILES é um retrato fílmico do cineasta Miles McKane. JOURNALITÉS 1 constrói um diário ao longo de 12 anos transformado em filme não-objetivo que relata acontecimentos relevantes para o autor e a sua relação com o movimento artístico e literário Letrismo, fundado por Isidore Isou. ALLERS VENUES passa-se durante um mês no campo no sul de França, entre animais domésticos. Um grupo de amigos aluga uma casa e o verão vai-se aproveitando. NOTEBOOK é um filme frenético e pessoal, marcado pela aleatoriedade dos assuntos, tal como um caderno de pensamentos colecionados com o passar do tempo. THE SCARY MOVIE junta duas miúdas pequenas, capas de vampiros e uma propensão para a diversão. Assim se brincam com os motivos recorrentes e clássicos dos filmes de terror, jogando com identidades de género e dinâmicas de poder. Em YOU BE MOTHER, fragmentos da cara da artista projetados em chávenas exploram a expressão inglesa “I’ll be mother”, dita por quem serve o chá. THANK YOU, I HAVE BEEN VERY PLEASED filma Mimi Minus em pleno acto masturbatório, enquanto a câmara se afasta até o seu corpo se confundir com a paisagem.

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