No dia 27 de março, em Paris, a Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema estará presente no Classic Documentary Film Rendez-vous, secção dedicada ao cinema de património do festival Cinéma du Réel, para apresentar uma colaboração internacional em curso dedicada à preservação e digitalização de KUXA KANEMA, a emblemática série de atualidades moçambicana produzida nos anos que se seguiram à independência daquele país.
Desenvolvido em parceria com o Instituto Nacional das Indústrias Culturais e Criativas (INICC) - instituição moçambicana atualmente responsável pelo acervo do antigo Instituto Nacional de Cinema (INC) -, o projeto centra-se na digitalização e preservação dos materiais fotoquímicos originais sobreviventes da série. Até ao momento, foram já digitalizados 37 títulos, datados entre 1981 e 1989, garantindo a sua preservação a longo prazo e uma renovada acessibilidade para investigação, programação e exibição pública.
Criada em 1978, pouco após a independência de Moçambique, KUXA KANEMA foi a série oficial de atualidades produzida pelo Instituto Nacional de Cinema. O seu nome significa “o nascimento do cinema” em Changana, refletindo a ambição de estabelecer uma cultura cinematográfica nacional alinhada com o processo revolucionário do país. A série desempenhou um papel crucial na informação e mobilização da população num período de profunda transformação social e política. Os seus episódios davam conta dos esforços de reconstrução nacional, das iniciativas nas áreas da educação e da saúde, da vida cultural, de visitas oficiais e de acontecimentos políticos, incluindo discursos do primeiro Presidente de Moçambique, Samora Machel.
Exibida sobretudo através de unidades móveis de cinema, KUXA KANEMA chegou a regiões rurais onde o acesso a salas de cinema era praticamente inexistente. Para muitos moçambicanos, representou o primeiro contacto com imagens em movimento, contribuindo de forma decisiva para a criação de hábitos de visionamento e para a formação de uma nova geração de técnicos e cineastas. Ao longo do tempo, a série tornou-se simultaneamente um símbolo do cinema de Estado e uma expressão marcante do projeto político pós-independência, deixando um legado fundamental na história do cinema africano.
Com a sua presença no Classic Documentary Film Rendez-vous, a Cinemateca Portuguesa pretende reforçar a cooperação internacional em torno da preservação arquivística e fomentar o diálogo sobre a circulação, o restauro e a reativação contemporânea do património cinematográfico.