Mel Brooks, Deixa-nos em Paz! Eis o que pedem os habitantes da aldeia de ROBIN HOOD: MEN IN TIGHTS quando o realizador recria (e satiriza) a familiar cena, em filmes com a personagem Robin Hood, em que uma aldeia arde devido a um ataque de arco e flecha. O mote está lançado para um ciclo focado numa das mais irreverentes (e reverenciadas) vozes da comédia americana do século XX, com uma carreira marcada por filmes que fazem uma releitura paródica de clássicos do cinema americano.
Quase a chegar aos 100 anos em 2026, Mel Brooks começa como comediante nos anos 1950, mas aproveita as possibilidades da televisão – meio ainda nascente e aberto à experimentação – para dar asas à sua criatividade: fosse concebendo o icónico personagem The 2000 Year Old Man, com Carl Reiner, ou Get Smart, sátira televisiva a James Bond, com Buck Henry. O traquejo que desenvolveu leva-o a explorar o cinema e, com THE PRODUCERS, começa a destacar-se em Hollywood.
A sua comédia é marcada pela sua qualidade de clown, algo que retém dos seus tempos de stand-up, e centra-se nos jogos de palavras, na influência da cultura judaica Ashkenazi na junção do high e do low brow, no humor físico e juvenil, mas, sobretudo, numa visão do humor como uma ferramenta de resistência. Uma resistência ao mundano, ao banal e ao preconceito. A sua lente é a sátira e há algo de subversivo na forma como vira os clichés do avesso ou brinca, sem medos, com tópicos tabu. THE PRODUCERS é exemplo dessa tendência de ridicularizar os males do mundo (neste caso a elite nazi, do seu ponto de vista enquanto judeu) para lhes retirar força.
Mel Brooks é ainda um estudioso do cinema, o que lhe permite ter mão ágil ao reinterpretar convenções de género, tom, linguagem cinematográfica e até performance. Neste ciclo constrói-se um jogo com os clássicos do cinema americano que são alvo de reinterpretação paródica. Não sendo uma mostra integral de todos os seus filmes (ficam de fora apenas HISTORY OF THE WORLD PART I e SILENT MOVIE, que é exibido integrado no ciclo Uma Cinemateca em Chamas), estes são colocados em diálogo com outros tantos que foram a sua inspiração. Do piscar de olhos ao cinema de horror com YOUNG FRANKENSTEIN ou DRACULA: DEAD AND LOVING IT, à paródia de filmes de ficção científica com SPACEBALLS, passando pelas suas brincadeiras com os arquétipos heroicos das aventuras de capa e espada com ROBIN HOOD: MEN IN TIGHTS, as comédias de Mel Brooks são espelhadas em obras que evidenciam a forma exemplar como o realizador brinca com fórmulas ou estruturas narrativas ou pedaços de músicas universalmente reconhecidos. Há ainda lugar para sátiras da sua obra que se governam por outras regras, como TO BE OR NOT TO BE, THE TWELVE CHAIRS (exibido em conjunto com a curta de animação THE CRITIC) e LIFE STINKS.
O ciclo Mel Brooks, Deixa-nos em Paz! começa a 2 de fevereiro com a double bill RIO BRAVO, de Howard Hawks, e a sátira aos westerns BLAZING SADDLES. Em mês de Carnaval, paródia total.