CICLO
Ritwik Ghatak: A Reinvenção do Cinema


Autor de uma obra curta, Ritwik Ghatak (1925-76)realizou apenas oito longas-metragens, das quais mostraremos agora sete. A Cinemateca Portuguesa revelou-as em 1986, no Ciclo “Cinema Indiano”, apresentando Gathak como um dos maiores cineastas do nosso tempo, voltando ao seu cinema doze anos depois, com mais um Ciclo dedicado aos “Cinemas da Índia”. Coincidindo com o centenário do nascimento de Ritwik Ghatak realizamos uma retrospetiva da sua obra cinematográfica, e a par das longas, mostraremos parte das curtas e documentários que assinou, filmes raros, que agora conseguimos mostrar devido ao trabalho desenvolvido pelo National Film Archive of India – NFAI. Como escreveu José Manuel Costa no catálogo Cinemas da Índia, Gathak “foi, não só por cronologia, como por formação, um dos últimos grandes clássicos, tanto ou mais do que o ‘primeiro dos novos’”. Escrevia-o numa comparação ao cinema de Guru Dutt, mas sobretudo de Satyajit Ray, contemporâneo de Gathak – começaram ambos a filmar no início dos anos 1950 –, mas que teve o reconhecimento que este não conheceu. E como também aí referia, “a obra de Ritwik Ghatak foi então toda ela construída sobre o tema da fragmentação – comunitária, familiar e psicológica – transformando-se na própria marca visual da partição do território indiano e bengali, e construindo a partir daí a sua concomitante modernidade.” A obra de Ghatak seria marcada acima de tudo por esse amor à terra bengali e pela tragédia que para ele significou a partilha dessa terra entre a União Indiana e o Paquistão a seguir à independência. Esse foi um dos grandes temas dos seus filmes, que espelham os efeitos na partição política de Bengala de 1947 na personalidade de um cineasta oriundo de Daca, hoje capital do Bangladesh, marcado ele próprio por uma disrupção e cisão interior. A modernidade do cinema de Ghathak é de ordem político-social, mas também estética, em que a rutura se estende ao interior dos próprios filmes, sendo a harmonia narrativa frequentemente quebrada por elementos que a contrariam. Centra-se sobre os problemas do cidadão comum, realizando um cinema do presente. Um cinema áspero, duro e contundente, mas ao mesmo tempo denso e possuidor de uma carga emotiva invulgar. As suas personagens, em particular as femininas, são mulheres simples, mas excessivas, discretas, mas sublimes, revelandose numa obra em que traduz uma visão do mundo tão lírica quanto selvagem. Encontramos estes motivos na sua obra cinematográfica, mas também nos escritos que deixou, entre eles inúmeros artigos sobre teoria e estética do cinema, e no testemunho daqueles que foram seus alunos nos anos em que leccionou no Instituto Indiano de Cinema e Televisão, e que reivindicam a sua influência. Entre eles Mani Kaul e John Abraham. Criador multifacetado, começou pelo teatro, área em que trabalhou na década de quarenta como actor, encenador e dramaturgo. NAGARIK, o seu filme inaugural, data de 1952, mas só estrearia em 1957. É a grande lacuna deste Ciclo, pois não conseguimos agora projetar a única cópia existente. Abrimos o programa com “A ESTRELA ESCONDIDA”, primeiro tomo da sua belíssima trilogia que prossegue com “MI BEMOL” e SUBARNAREKHA, realizado em 1962, mas só estreado em 1965. Ghatak tinha uma sólida formação literária, era grande admirador de Rabindranath Tagore e de Eiseinstein. Foi tradutor de Brecht e conhecia a fundo o teatro clássico. Militou na juventude no Partido Comunista e sempre se considerou marxista heterodoxo. Mas a vida e a obra de Ghatak foram uma sucessão de tragédias e de projetos inacabados. Morreu em 1976 com apenas 50 anos e tinha fama de ser irascível e difícil. Da “militância” de NAGARIK ao “delírio” de “RAZÃO, DISCUSSÃO E UM CONTO”, chegamos a “UM RIO CHAMADO TITAS”, o seu penúltimo filme, filmado no Bangladesh, em que prossegue a “reinvenção do cinema”, título de um artigo de Jonathan Rosenbaum. Mas, voltando ao início, como escrevia João Bénard da Costa sobre a protagonista de “A ESTRELA ESCONDIDA”, o filme sobre o qual era perigosíssimo falar, pois não há palavras para o descrever: “Neeta é um dos personagens femininos mais belos alguma vez vistos em cinema. Ora me lembra Bresson, ora Dreyer. O tal halo, a transpiração, só os vi antes na PAIXÃO DE JOANA D’ARC. Pergunto-me se não serão formas do mesmo mito. E se a Donzela de Orleans, no fogo, não gritou como ela. ‘E eu queria viver. Eu queria tanto viver’. Ou não disse, como ela, que o seu único pecado era não ter protestado o bastante contra a injustiça.”
 
02/12/2025, 18h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Ritwik Ghatak: A Reinvenção do Cinema

Meghe Dhaka Tera
“A Estrela Escondida”
de Ritwik Ghatak
Índia, 1960 - 126 min
 
03/12/2025, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Ritwik Ghatak: A Reinvenção do Cinema

Ajantrik
“O Homem Máquina”
de Ritwik Ghatak
Índia, 1958 - 120 min
05/12/2025, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Ritwik Ghatak: A Reinvenção do Cinema

Barik Theke Paliye
“O Fugitivo”
de Ritwik Ghatak
Índia, 1959 - 120 min
06/12/2025, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Ritwik Ghatak: A Reinvenção do Cinema

Meghe Dhaka Tera
“A Estrela Escondida”
de Ritwik Ghatak
Índia, 1960 - 126 min
09/12/2025, 18h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Ritwik Ghatak: A Reinvenção do Cinema

Subarnarehka
de Ritwik Ghatak
Índia, 1962 - 139 min
02/12/2025, 18h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ritwik Ghatak: A Reinvenção do Cinema
Meghe Dhaka Tera
“A Estrela Escondida”
de Ritwik Ghatak
com Supriya Choudhury, Anil, Chaterjee, Gyanesh Mukherjee, Niranjan Ray
Índia, 1960 - 126 min
legendado em inglês e eletronicamente em português | M/12
MEGHE DHAKA TARA foi o filme que consagrou definitivamente o nome de Ritwik Ghatak fora do seu país natal. A narrativa é melodramática, coisa que Ghatak sempre defendeu, apesar do seu empenhamento político: “um verdadeiro cinema nacional emergirá do melodrama, quando artistas sérios lhe dedicarem a sua inteligência”, declararia ele em 1963. Como é evidente, a realização nada tem de tradicional e, segundo a observação de Joel Magny, o filme é “uma estranha tentativa, totalmente suicidária, de levar o cinema ao seu limite”.
A personagem central foi comparada por alguns às heroínas de Mizoguchi: uma mulher que se sacrifica por aqueles que lhe são próximos e, quando já está à beira da morte, refugiada nas montanhas, grita a sua vontade de viver. Uma obra excecional. A apresentar em cópia digital.

A sessão repete no dia e 15 às 19H00, na sala M. Félix Ribeiro.

consulte a FOLHA da CINEMATECA aqui











 
03/12/2025, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ritwik Ghatak: A Reinvenção do Cinema
Ajantrik
“O Homem Máquina”
de Ritwik Ghatak
com Kali Banerjee, Shriman Deepak, Kajal Gupta, Keshto Mukherjee
Índia, 1958 - 120 min
legendado em inglês e eletronicamente em português | M/12
AJANTRIK sucedeu a NAGARIK e como ele nunca foi distribuído comercialmente na União Indiana em parte por razões comerciais, em parte por razões políticas, dado o tom empenhado da obra, dentre todas as de Ghatak, aquela em que é mais transparente a formação marxista do autor, à época militante do Partido Comunista Hindu. “E agora deixo-vos com a escala de planos, com os planos de Jagaddal reflectido nas águas ou sobre as nuvens, com a rapariga do amor e do abandono, com o cheiro da gasolina queimada («esse cheiro que me faz viver»), com os faróis de Jagaddal no negro da noite, com o milagre, com as lágrimas do miúdo. Este texto, como este filme, não pode durar sempre. Nada pode e tudo pode, como ensina a visão desta obra longamente contemplativa. Simultaneamente, filme da desesperança e da esperança.” (João Bénard da Costa). A apresentar em cópia digital.

A sessão repete no dia 16 às 21H30, na sala M. Félix Ribeiro.

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05/12/2025, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ritwik Ghatak: A Reinvenção do Cinema
Barik Theke Paliye
“O Fugitivo”
de Ritwik Ghatak
com Kali Banerjee, Gyanesh Mukherjee, Keshto Mukherjee, Jahar Roy
Índia, 1959 - 120 min
legendado em inglês e eletronicamente em português | M/12
Charles Tesson distinguia entre dois tipos de filmes na obra de Ghatak: “os filmes concêntricos (‘o espaço fechado da célula familiar, do grupo de teatro, do casal, das fronteiras dum país’) e os que chamava ´filmes da deambulação solitária e da errância infinita’”. Nesta segunda categoria encontramos AJANTRIK e O FUGITIVO. São filmes em que o movimento e a liberdade das personagens se expressa numa maior abertura em termos estéticos, que se manifesta nos movimentos de câmara, usos da música, estratégias da composição, etc. A apresentar em cópia digital.

A sessão repete no dia 18 às 21H30, na sala M. Félix Ribeiro.

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06/12/2025, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ritwik Ghatak: A Reinvenção do Cinema
Meghe Dhaka Tera
“A Estrela Escondida”
de Ritwik Ghatak
com Supriya Choudhury, Anil, Chaterjee, Gyanesh Mukherjee, Niranjan Ray
Índia, 1960 - 126 min
legendado em inglês e eletronicamente em português | M/12
MEGHE DHAKA TARA foi o filme que consagrou definitivamente o nome de Ritwik Ghatak fora do seu país natal. A narrativa é melodramática, coisa que Ghatak sempre defendeu, apesar do seu empenhamento político: “um verdadeiro cinema nacional emergirá do melodrama, quando artistas sérios lhe dedicarem a sua inteligência”, declararia ele em 1963. Como é evidente, a realização nada tem de tradicional e, segundo a observação de Joel Magny, o filme é “uma estranha tentativa, totalmente suicidária, de levar o cinema ao seu limite”.
A personagem central foi comparada por alguns às heroínas de Mizoguchi: uma mulher que se sacrifica por aqueles que lhe são próximos e, quando já está à beira da morte, refugiada nas montanhas, grita a sua vontade de viver. Uma obra excecional. A apresentar em cópia digital.

A sessão repete no dia 15 às 19H00, na sala M. Félix Ribeiro.

consulte a FOLHA da CINEMATECA aqui

 
09/12/2025, 18h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ritwik Ghatak: A Reinvenção do Cinema
Subarnarehka
de Ritwik Ghatak
com Madhabi Mukherjee, Satindra Bhattacharya, Abhi Bhattacharya, Jahar Roy
Índia, 1962 - 139 min
legendado em alemão, francês e eletronicamente em português | M/16
Titulado a partir do nome de um rio de Bengala, SUBARNAREKHA é um dos filmes mais complexos de Ghatak. Começa no momento da independência da Índia, sobre um fundo de violência e miséria, e narra a história de Iswar, da sua irmã Seeta e do miúdo que adotam. O filme abunda em citações literárias (Tagore, Eliot) e cinematográficas (LA DOLCE VITA), e cada plano é carregado de sentidos e alusões. “SUBARNAREKHA volta a trazer-nos a escrita convulsa, irregular, mas extremamente inventiva de Ghatak. Acima de tudo uma relação imagem-som em jogo de transparências e ruturas permanentes, com a banda sonora a rasgar a placidez da imagem, sempre que esta atinge o ponto de tensão limite” (José Manuel Costa). Um dos mais extraordinários filmes de Ghatak e que completa a trilogia iniciada com “A ESTRELA ESCONDIDA” e continuada em “MI BEMOL”. A apresentar em cópia digital.

A sessão repete no dia 22 às 21H30, na sala M. Félix Ribeiro.

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