CICLO
Pioneiras do Cinema Português


Ao longo das primeiras oito décadas da história do cinema feito em Portugal, apenas uma mulher realizou uma longa-metragem de ficção que tenha estreado comercialmente e cuja realização lhe tenha sido devidamente atribuída. Foi Bárbara Virgínia, que tinha apenas 22 anos. As razões dessa realização precoce prendem-se com uma série de acasos que fizeram desaguar nas mãos da atriz protagonista o cargo de direção. Ou seja, só mesmo por acaso foi possível que uma mulher, em pleno Estado Novo, tenha tido a oportunidade de assumir tal função. Passariam quatro décadas até que outra mulher voltasse a assinar uma longa-metragem no nosso país – essa mulher seria Margarida Cordeiro e esse filme, TRÁS-OS--MONTES, corealizado com António Reis.
Se tudo isto é verdade, é também insuficiente. Ao longo dos anos a história (das histórias) do cinema português focou-se excessivamente nas longas-metragens de ficção e na figura do realizador/a. O presente Ciclo tem como propósito pôr em causa essa narrativa que reduz a participação das mulheres que construíram o cinema português anterior à geração do Cinema Novo como uma nota de rodapé com um ou dois nomes apenas. Pioneiras do Cinema Português apresenta dezoito sessões dedicadas às dezenas de mulheres que, desde o cinema mudo até ao dealbar do Novo Cinema, fizeram filmes em Portugal.
Mas antes, há que esclarecer três aspetos.
Primeiro, o que se entende por “pioneiras”. Neste Ciclo estabelecemos como intervalo temporal o cinema produzido entre o início do cinema em Portugal (1896) e o momento de renovação imposto pela geração do Cinema Novo. Essa nova geração pautou-se por ser a primeira com formação académica, isto é, a primeira que antes de iniciar a sua prática cinematográfica participou (em diferentes contextos) do ensino formal do cinema. Quer tenha sido por via de bolsas de estudo no estrangeiro, por via de cursos técnicos em Portugal ou, ainda, em consequência da abertura da Escola Piloto de Cinema, no Conservatório Nacional, esta é uma geração cuja entrada na profissão já não pode ser entendida enquanto “pioneira”. Essa nova geração incluirá uma série de mulheres: Teresa Olga, Margareta Mangs, Clara d’Ovar, Solveig Nordlund, Noémia Delgado, Ana Hatherly, Paola Porru, Monique Rutler, Margarida Gil, Manuela Serra e a já referida Margarida Cordeiro – entre muitas outras. Muito embora o Ciclo se abra a outras formas de participação artística no cinema (com especial destaque para a produção, a montagem e a escrita de argumentos), excluiu-se deste programa as categorias profissionais a que as mulheres foram resumidas ao longo das décadas: a atriz e a cantora.
Segundo, o que se entende por “cinema”. Este Ciclo inclui uma série doutras formas de trabalhar as imagens em movimento que não a longa-metragem de ficção. Por um lado, dá lugar a diferentes tipologias documentais, por outro, inclui materiais inacabados, fragmentários ou de pré-produção que – com os anos – se converteram, eles mesmos, em documentos. Mostram-se, assim, filmes turísticos, documentários institucionais, encomendas e filmes científicos (com dois casos emblemáticos: os filmes etnográficos de Margot Dias e os filmes geográficos de Raquel Soeiro de Brito). Se muitos destes tiveram circulação em sala de cinema, no caso dos filmes científicos, estamos perante ferramentas de estudo que serviam como anotação para as investigadoras e que tinham visibilidade apenas em sala de aula e conferências. Além desses, o Ciclo abre-se também às práticas amadoras, especialmente quando estas revelam uma persistência histórica e um olhar agudo sobre o mundo. Apresentam-se ainda, pela primeira vez, os materiais em torno da produção cinematográfica de Amélia Borges Rodrigues, de que subsiste apenas um título finalizado (conservam-se dezenas de materiais em bruto ou sem montagem definitiva). “Cinema” é, então, entendido em sentido lato, isto é, como imagens em movimento (muitas das vezes sem som).
Terceiro, o que se entende por “português”. Coincidindo o intervalo histórico em análise com o período da ação colonial do Estado Novo, o entendimento das fronteiras do país corresponde à limitação geográfica da época. Além disso, entende-se como “cinema português” aquele que ou é feito em Portugal, ou é realizado por cineastas portuguesas. Assim, incluíram-se os filmes de uma cientista de origem alemã a filmar em Moçambique (Margot Dias), como se incluíram os filmes de uma mulher açoriana a filmar em Goa após a libertação deste território do jugo colonial (Edila Gaitonde). Excluíram-se, no entanto, os filmes da atriz, realizadora e produtora Carmen Santos que apesar de ter nascido em Portugal (Vila Flor, Bragança), emigrou para o Brasil aos oito anos, tendo aí feito toda a sua carreira como artista.
Pioneiras do Cinema Português pretende, antes de mais, sinalizar um conjunto de nomes e obras sobre os quais há ainda muito que estudar. É, por isso, um Ciclo que tem como propósito apresentar um conjunto de cineastas cujos materiais fílmicos eram pouco conhecidos, ora pelas suas características materiais (cópias únicas ou frágeis) ora pelas suas características de produção (evidente no que respeita a projetos inacabados ou ao cinema doméstico). Daí que tenha havido um esforço concertado para encontrar formas de apresentar estes filmes – alguns deles pela primeira vez – na Cinemateca: fizeram--se novas preservações e duplicações de materiais analógicos, fizeram-se novas digitalizações e restauros digitais, possibilitando que certas cópias cujas condições de preservação impossibilitariam a sua apresentação pública, sejam agora visíveis. A isto juntou-se um trabalho de cotejamento destes arquivos fílmicos com os acervos documentais que permitiram uma melhor compreensão e contextualização das obras (como é o caso de TRÊS DIAS SEM DEUS que apesar de ter perdido o som poderá agora ser visto com legendas produzidas a partir da planificação anotada guardada no Centro de Documentação da Cinemateca). Pioneiras do Cinema Português é, por isto, um convite à descoberta e à investigação, numa área em que as dúvidas são ainda muitas.
A juntar a isso, o Ciclo integra os filmes de realizadores e realizadoras contemporâneos que se debruçaram sobre a vida e a obra de algumas destas mulheres. São, invariavelmente, documentários em forma de retrato. E, nos casos em que esses documentários não estão ainda prontos, aproveitam-se estas sessões públicas para os anunciar e visibilizar. De facto, este é um programa que procura estabelecer um olhar presente sobre o passado, ora desafiando músicos contemporâneos para reinterpretarem estas imagens sem som, ora optando pela via das sessões-comentadas, nos casos em que o estatuto fílmico dos objetos assim o convida. O Ciclo concluir-se-á com o lançamento do livro-DVD de TRÊS DIAS SEM DEUS e dará origem a uma homónima publicação da Cinemateca Portuguesa a apresentar nos próximos meses.
 
 
29/05/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Pioneiras do Cinema Português

Bárbara Virgínia, Pioneira - I
 
29/05/2026, 18h00 | Livraria Linha de Sombra
Ciclo Pioneiras do Cinema Português

Lançamento do Livro-DVD “Três Dias Sem Deus”
29/05/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Pioneiras do Cinema Português

Bárbara Virgínia, Pioneira – II
30/05/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Pioneiras do Cinema Português

Isaura Pavia de Magalhães Lisboa, Educadora
29/05/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Pioneiras do Cinema Português
Bárbara Virgínia, Pioneira - I
Com a presença de Luísa Sequeira (a confirmar)
AS PIONEIRAS DO CINEMA EM LÍNGUA PORTUGUESA
QUEM É BÁRBARA VIRGÍNIA?
filmes de Luísa Sequeira
Portugal, 2017-2023 – 15, 77 min

Duração total da projeção: 92 min | M/12

QUEM É BÁRBARA VIRGÍNIA? é um “roadmovie documental” onde uma realizadora, Luísa Sequeira, procura os vestígios da carreira multifacetada de Bárbara Virgínia, a primeira mulher a realizar uma longa-metragem sonora em Portugal. “Este é um trabalho de arqueologia emocional e humana que traz à tona a vida e a obra de uma mulher que muito fez pela cultura lusófona”. Filmado em Portugal e no Brasil, este é um documentário intimista coberto pelo luto. É que quatro dias após Luísa Sequeira aterrar em São Paulo para a entrevistar, Bárbara Virgínia morreu (aos 91 anos), sem que as duas se chegassem a conhecer. A abrir a sessão apresenta-se o episódio piloto da série AS PIONEIRAS DO CINEMA EM LÍNGUA PORTUGUESA, através da qual Sequeira apresenta a história de várias mulheres cineastas. Neste primeiro e único episódio (a série ainda não conseguiu financiamento), refere-se o trabalho de algumas das primeiras realizadoras internacionais (Alice Guy-Blaché, Lotte Reiniger) e foca-se na figura de Carmen Santos, atriz e realizadora brasileira nascida em Portugal. “Uma reflexão filmada acerca do lugar atribuído e negado a mulheres cujas visões e criatividade essenciais resistiram ao apagamento que lhes foi sendo dedicado” (Maria João Madeira)
 
29/05/2026, 18h00 | Livraria Linha de Sombra
Pioneiras do Cinema Português
Lançamento do Livro-DVD “Três Dias Sem Deus”
A Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema apresenta o livro-DVD com a nova cópia digital restaurada e legendada dos materiais sobreviventes da primeira longa-metragem de ficção sonora realizada por uma mulher em Portugal, TRÊS DIAS SEM DEUS (da qual restam apenas 32 minutos), numa edição que inclui uma série de extras (entre eles um novo documentário de Luísa Sequeira, ESSE OLHAR QUE É SÓ TEU), e que vem integrada num livro que conta com textos de Ana Cabral Martins e Ricardo Vieira Lisboa e a reprodução fac-similada da planificação anotada do filme, que permite compreender melhor como terá sido o filme à data da estreia. Entrada livre.
 
29/05/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Pioneiras do Cinema Português
Bárbara Virgínia, Pioneira – II
Sessão com apresentação e acompanhamento musical gravado
NEVE EM LISBOA (materiais)
de Raúl Faria da Fonseca

ALDEIA DOS RAPAZES – ORFANATO STA. ISABEL DE ALBARRAQUE
de Bárbara Virgínia (atribuída)

TRÊS DIAS SEM DEUS (fragmento restaurado e legendado)
TRÊS DIAS SEM DEUS – trailer
de Bárbara Virgínia
com Bárbara Virgínia, João Perry, Maria Clementina

Portugal, 1945-1949 – 64 min | M/12

Bárbara Virgínia (1923-2015) foi a primeira mulher a realizar uma longa-metragem sonora em Portugal, tinha apenas 22 anos. Esse filme, TRÊS DIAS SEM DEUS, foi escolhido para representar Portugal na primeira edição do festival de Cannes, em 1946. Além de realizar, Bárbara Virgínia protagonizou o filme (no papel da professora primária Lídia), foi corresponsável pelo argumento e assegurou os solos de piano. Dos 102 minutos originais sobrevivem apenas fragmentos do negativo de imagem que perfazem 32 minutos (foram identificados recentemente mais 6 minutos), sem som. Nesta sessão apresenta-se a nova cópia preservada e restaurada digitalmente onde foram incluídos cartões de contextualização narrativa e se procedeu à legendagem dos diálogos. A sessão é complementada pelo TRAILER produzido para o mercado brasileiro em 1949 (recentemente descoberto e que tem som!), assim como duas curtas-metragens em que Bárbara Virgínia esteve envolvida. Igualmente sem som, serão apresentadas com acompanhamento de três canções gravadas por Bárbara Virgínia em 1956. Todos os títulos a apresentar em cópias digitais. Esta sessão integra o programa ANIM, 30 ANOS.
 
30/05/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Pioneiras do Cinema Português
Isaura Pavia de Magalhães Lisboa, Educadora
Sessão com acompanhamento à viola por Kyle Quest
ISAURA PAVIA DE MAGALHÃES LISBOA, EDUCADORA
OS 4 FUGITIVOS (excerto)
A GATINHA BORRALHEIRA
de Isaura Pavia de Magalhães Lisboa
Portugal, 1945-49 – [12], 43 min

Duração total da projeção: 55 min | M/12
 
 Isaura Pavia de Magalhães Lisboa (1912-2000) foi violoncelista e professora de música no Conservatório Nacional, tendo fundado a Orquestra Universitária e a Academia de Artes de Cascais, que dirigiu por longos anos. Mas além da música, tinha um especial apreço pelo cinema. Logo em 1931 realizou o seu primeiro filme amador (em 9.5mm), O EXÉRCITO DOS MOSQUITOS (entretanto perdido). Em 8mm e depois em Super8 realizará oito filmes de ficção, além de uma dezena e meia de pequenos filmes de natureza documental. Entre esses conta-se a longa-metragem OS QUATRO FUGITIVOS (1945), que está em avançado estado de degradação, subsistindo apenas alguns fragmentos visíveis. Isaura desenvolvia os argumentos, organizava as planificações, escrevia os intertítulos (os filmes não tinham som), tratava dos figurinos, dos cenários e da decoração. Introduzidos pelo cartão “JAD Apresenta”, em referência à Juventude Artístico-Desportiva, os filmes tinham como objetivo motivar e desafiar um alargado grupo de crianças que incluíam os seus filhos, sobrinhos e amigos. Filmados com crianças e para crianças, os filmes de Isaura eram apresentados em festas e saraus que incluíam concertos, bailados, teatro e sessões de cinema. O espólio cinematográfico de Isaura Pavia de Magalhães Lisboa foi recentemente depositado na Cinemateca. Os filmes serão apresentados em cópias digitais e acompanhados à viola por Kyle Quest, bisneto da realizadora.