CICLO
Lado B.B. - Em colaboração com a Festa do Cinema Francês


“Não passa um dia em que não pense na morte. Se as pessoas pensassem mais na morte, seriam melhores, menos malévolas e egoístas.” Estávamos em 1983 e a televisão francesa acompanhava uma Brigitte Bardot (1934-2025) já algo escondida da vida pública. Víamos a eterna “B.B.” numa visita à campa de seus pais, naquele que considerava ser o mais belo “pequeno cemitério” do mundo, localizado em Saint-Tropez. Foi aí, nessa cidade costeira da Riviera Francesa, que a estrela se fixou, mais especificamente numa mansão batizada de La Madrague, nome que daria a uma das suas músicas mais populares e, nela, o tema era o fim do verão: “Pourtant, je sais bien, l’année prochaine / Tout refleurira, nous reviendrons / Mais en attendant, je suis en peine / De quitter la mer et ma maison”. Foi também aí, perto “De la plage ensoleillée”, que viria a falecer no dia 28 de dezembro de 2025, aos 91 anos.
Após uma juventude dedicada – e sacrificada – ao cinema, fundou e geriu a partir de La Madrague uma fundação em defesa dos direitos dos animais. Como chegou a dizer, “Dei a minha beleza e a minha juventude aos homens. Agora vou dar a minha sabedoria e a minha experiência aos animais” (citada por Carla Quevedo em Vidas Perfeitas: Um Livro de Obituários). Transformada pelos homens e pelo cinema em objeto de desejo e de exploração, teve relações tempestuosas com alguns deles, a começar pelo primeiro marido, Roger Vadim, que a projeta para um novo patamar de reconhecimento internacional, participando, com isso, na criação de um dos símbolos sexuais mais incontornáveis do século XX. Ela foi “a” mulher que Deus criou no célebre filme de Vadim em que B.B. contracena com Jean-Louis Trintignant, por quem se apaixonou on e off screen, precipitando o fim do casamento com o realizador, ainda que permanecessem amigos e parceiros profissionais.
Há um lado definitivamente felino na sua presença no grande ecrã. Pelo menos, é como um tigre que esta costuma invadir e capturar a vista, bem como acelerar a pulsação cardíaca dos homens com quem se cruza (é o caso do português António Vilar, levado à loucura por Bardot em LA FEMME ET LE PANTIN). Por vezes, uma teia – que pode vir dela, qual aracnídea femme fatale, ou de outros à sua volta, desejosos de provar o seu veneno – vai sendo tecida e fazendo as suas vítimas, em sucessivas declinações do amour fou. Esta loucura amorosa, por ela e contra ela, tem, por norma, contornos de tragédia (LA VÉRITÉ, de Clouzot, é talvez a sua atuação mais elogiada, concentrando fatalismo, paixão e loucura como poucos títulos da sua filmografia), condimentos que também fizeram parte da sua vida privada, e, nesse particular, muito se escreveu sobre as quatro vezes em que tentou o suicídio.
Num rodapé expressivo, escreveu Edgar Morin a propósito da morte de Marilyn Monroe no seu clássico As Estrelas de Cinema: “Na França, quase ao mesmo tempo, Brigitte Bardot, cujo destino é espantosamente paralelo ao de Marilyn, tentava também suicidar-se e salvou-se por sorte. Também ela era a mais bela, a mais adulada; também ela, com o seu gesto, afastava o véu eufórico do Star System”. Pensou na morte cada dia da sua vida e, de facto, a fatalidade ou o fatalismo está bem presente numa parte significativa dos filmes que lhe deram fama, numa carreira vivida intensamente, iniciada na adolescência e concluída cedo, quanto contava somente com 39 primaveras, idade com que se retira do showbiz para se dedicar à causa animal. Uma vida pública também marcada por posições políticas de extrema-direita que redundaram em manifestações de apoio ao partido de Jean-Marie e Marine Le Pen.
Como uma pantera à solta, de movimentos insinuantes, estalando sensualidade em cada centímetro do corpo, dos pés descalços até à cabeleira loira, revolta e selvagem, Bardot foi “objeto de caça” não só para os olhares do cinema como para as objetivas dos paparazzi. VIE PRIVÉE, de Louis Malle, e o documentário PAPARAZZI, de Jacques Rozier, em torno da rodagem de LE MÉPRIS, “o filme que lhe deu o seu lugar mais significativo na história do cinema” (David Thomson, The New Biographical Dictionary of Film), mostram o lado nefasto e assustador da fama.
Ainda assim, existe também o lado B de tudo isto, por exemplo, num western spaghetti em que contracena com outro ícone do cinema europeu, Claudia Cardinale, LES PÉTROLEUSES, protagonizando uma divertida cat fight perto do fim, ou no carinhoso tributo que lhe é dedicado em DEAR BRIGITTE, mediante o olhar de um rapaz americano chamado Erasmus que acha B.B. “the most beautiful lady in the whole world”.
Tal como o gato tem sete vidas, não deixou que a sua se resumisse a uma só coisa. Ou que desencadeasse somente um tipo de reação. Se há o lado agreste e danado e o lado sensual e sensível na história on e off screen, se temos o lado do cinema (e dos homens) e o dos animais (e da política), importa relembrar a carreira musical da atriz, que vai muito além da gravação que fez com Serge Gainsbourg, em 1967, pré-Jane Birkin, de Je t’aime… moi non plus. As mais populares músicas de Bardot, algumas contando com a colaboração de Gainsbourg, foram celebradas na televisão em telediscos da autoria de François Reichenbach, cineasta algo esquecido da Nouvelle Vague. Curtas musicais que nos revelam uma faceta mais solta e jocosa da estrela: “Shebam! Pow! Blop! Wizz!”, canta, na companhia de Gainsbourg, em Comic Strip, num teledisco repleto de onomatopeias das histórias aos quadradinhos que lembra a arte pop de William Klein ou mesmo de... Roger Vadim. Sons e imagens a que a Cinemateca Portuguesa, pela primeira vez, presta homenagem, prevendo projetar um “videoclipe-surpresa” para cada sessão.
15/10/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Lado B.B. - Em colaboração com a Festa do Cinema Francês

LA FEMME ET LE PANTIN
A Mulher e o Fantoche
de Julien Duvivier
França, 1958 - 100 min
15/10/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Lado B.B. - Em colaboração com a Festa do Cinema Francês

LES PÉTROLEUSES
As Rainhas do Petróleo
de Christian-Jaque
França, Itália, Espanha, Reino Unido, 1971 - 94 min
 
16/10/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Lado B.B. - Em colaboração com a Festa do Cinema Francês

LA FEMME ET LE PANTIN
A Mulher e o Fantoche
de Julien Duvivier
França, 1958 - 100 min
 
17/10/2026, 18h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Lado B.B. - Em colaboração com a Festa do Cinema Francês

LE PARTI DES CHOSES: BARDOT / GODARD + LE MÉPRIS
O Partido das Coisas: Bardot / Godard + O Desprezo
15/10/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Lado B.B. - Em colaboração com a Festa do Cinema Francês
LA FEMME ET LE PANTIN
A Mulher e o Fantoche
de Julien Duvivier
com Brigitte Bardot, António Vilar, Espanita Cortez, Jacques Mauclair, Dário Moreno
França, 1958 - 100 min
legendado eletronicamente em português | M/12
A terceira adaptação da famosa história de Pierre Louÿs, filmada antes por Baroncelli e Sternberg e que voltaria ao ecrã pelas mãos de Luís Buñuel (CET OBSCUR OBJET DU DÉSIR). História da progressiva decadência de um rico proprietário às mãos de uma caprichosa mulher (Bardot) que o manipula a seu bel-prazer. Com o português António Vilar no papel desse rico proprietário à mercê do amour fou por uma mulher felina de endiabrada sensualidade.

A sessão repete no dia 16 às 19h30, na sala Luís de Pina.

15/10/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Lado B.B. - Em colaboração com a Festa do Cinema Francês
LES PÉTROLEUSES
As Rainhas do Petróleo
de Christian-Jaque
com Brigitte Bardot, Claudia Cardinale, Michael J. Pollard
França, Itália, Espanha, Reino Unido, 1971 - 94 min
legendado eletronicamente em português | M/12
A pouco tempo de fechar a carreira, quando ainda não havia completado 40 anos, Bardot acede à proposta de fazer uma espécie de nova versão de VIVA MARIA!, desta vez, não ao lado de Jeanne Moreau, mas da estrela internacional Claudia Cardinale. E, desta feita, em modo assumidamente western spaghetti, narrando a história de duas mulheres, e respetivos gangues, que tentam garantir uma fortuna escondida num rancho do Texas. É uma paródia ao western baseada na relação entre as protagonistas, que culmina numa sequência de pugilato entre as divas em que vale tudo menos arrancar olhos. Primeira exibição na Cinemateca.

16/10/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Lado B.B. - Em colaboração com a Festa do Cinema Francês
LA FEMME ET LE PANTIN
A Mulher e o Fantoche
de Julien Duvivier
com Brigitte Bardot, António Vilar, Espanita Cortez, Jacques Mauclair, Dário Moreno
França, 1958 - 100 min
legendado eletronicamente em português | M/12
A terceira adaptação da famosa história de Pierre Louÿs, filmada antes por Baroncelli e Sternberg e que voltaria ao ecrã pelas mãos de Luís Buñuel (CET OBSCUR OBJET DU DÉSIR). História da progressiva decadência de um rico proprietário às mãos de uma caprichosa mulher (Bardot) que o manipula a seu bel-prazer. Com o português António Vilar no papel desse rico proprietário à mercê do amour fou por uma mulher felina de endiabrada sensualidade.

17/10/2026, 18h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Lado B.B. - Em colaboração com a Festa do Cinema Francês
LE PARTI DES CHOSES: BARDOT / GODARD + LE MÉPRIS
O Partido das Coisas: Bardot / Godard + O Desprezo
LE PARTI DES CHOSES: BARDOT / GODARD
O Partido das Coisas: Bardot / Godard
de Jacques Rozier
com
Brigitte Bardot, Jean-Luc Godard,
Michel Piccoli, Jack Palance, Fritz Lang
França, 1963 – 10 min / legendado em português

LE MÉPRIS
O Desprezo
de Jean-Luc Godard
com Brigitte Bardot, Michel Piccoli, Jack Palance, Fritz Lang
França, Itália, 1963 – 103 min/ legendado em português

duração total da projeção: 113 minutos | M/12

Filmado durante a rodagem mediterrânica de LE MÉPRIS de Godard, testemunhada pela câmara de Rozier, LE PARTI DES CHOSES: BARDOT / GODARD capta o encontro Brigitte Bardot / Jean-Luc Godard, o do cinema e da realidade. Era Godard quem dizia: “Il faut prendre le parti des choses”. Vagamente inspirado no romance homónimo de Moravia, LE MÉPRIS constrói-se em torno de uma reflexão sobre o cinema, onde “um travelling é uma questão de moral”. É também uma homenagem ao cinema clássico, com a presença de Fritz Lang no papel de um artista imperturbavelmente resistente ao comercialismo reinante no mundo cinematográfico. Jean-Luc Godard tem uma aparição discreta como assistente de realização de Lang na produção desse filme que parte de Homero e que se desenvolve num cenário mediterrânico, traçando um paralelo entre o mundo dos deuses e o mundo dos homens.

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