CICLO
A Cinemateca com o IndieLisboa - Isto não é um Documentário - Retrospetiva Mockumentary


À medida que a pós-verdade e as realidades “alt” foram ditando a sua lei no palco político-mediático e nas redes sociais, o cinema enveredou (e deixou-se enredar) pela crítica (re)construtiva, ao afirmar-se como parte de uma grande “encenação” ou instância de “mise en scène”, enquanto, enfim, verdade da mentira ou mentira da verdade. Dando a volta ao texto godardiano, ficou conhecida a tirada de Brian De Palma, de que “O cinema mente 24 vezes por segundo”. E se não é assim, esconde-o muito bem. Os filmes reunidos neste Ciclo, elaborado em diálogo com o IndieLisboa, ocupam e redesenham essa linha ténue que separa o encenado do encontrado, a ficção do documentário, fazendo do cineasta um “documenteur” (para citar Agnès Varda), um fingidor (que todo o poeta é, para convocarmos a lírica pessoana) e/ou um bufão que se ri e faz rir de assuntos ditos sérios (“A notícia da minha morte foi um exagero”, escreveu Mark Twain).
O reino do “Mockumentary” (junção da palavra “mock” a “documentary”, portanto, de maneira literal, “documentário falso ou parodiado”) é o dos nossos dias, isto é, do logro, da imitação, da simulação e da pilhagem. Da reportagem televisiva, do reality show, das fake news, dos fake presidents, das fake wars e de uma fake humanity. Imprime-se, assim, a lenda, ou melhor, propagandeia-se o “f de falso” assumido, transformado, ao jeito de paródia, em verdade 24 vezes por segundo, mediante um conjunto de filmes que atravessa geografias e confunde gestos de realização ou desrealização do mundo.
Do reduto mais particular ou privado, de um realizador como Jim McBride ou de uma realizadora como Shirley Clarke, a um âmbito mais lato, cobrindo aspetos de uma sociedade que foi, que é ou vai ser revelada pela mão áspera de um Peter Watkins ou de um Luis Buñuel, percorremos as trevas de uma verdade sempre em fuga, permanentemente levada a jogo e, por vezes, objeto de chacota, casos dos filmes de Rob Reiner, Woody Allen e Albert Brooks. Se se mente tanto e tão bem, afinal, porque é que julgamos necessitar tanto dela, da verdade? E porque é que temos tanto medo dela, da mentira, se, enfim, ela nos é tão “unha com carne”?
 
05/05/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o IndieLisboa - Isto não é um Documentário - Retrospetiva Mockumentary

os Últimos Dias de Emanuel Raposo | [REC]
 
06/05/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o IndieLisboa - Isto não é um Documentário - Retrospetiva Mockumentary

David Holzman's Diary
de Jim McBride
Estados Unidos, 1967 - 74 min
06/05/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o IndieLisboa - Isto não é um Documentário - Retrospetiva Mockumentary

Zelig
Zelig
de Woody Allen
Estados Unidos, 1983 - 79 min
06/05/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o IndieLisboa - Isto não é um Documentário - Retrospetiva Mockumentary

The Connection
de Shirley Clarke
Estados Unidos, 1961 - 102 min
07/05/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o IndieLisboa - Isto não é um Documentário - Retrospetiva Mockumentary

Dick Johnson is Dead
de Kirsten Johnson
Estados Unidos, 2020 - 89 min
05/05/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o IndieLisboa - Isto não é um Documentário - Retrospetiva Mockumentary
os Últimos Dias de Emanuel Raposo | [REC]
com a presença de Diogo Lima
OS ÚLTIMOS DIAS DE EMANUEL RAPOSO
de Diogo Lima
com Mário Roberto, Francisco Afonso Lopes, Mia Tomé
Portugal, 2021 – 49 min/ legendado eletronicamente em inglês

[REC]
de Jaume Balagueró, Paco Plaza
com Manuela Velasco, Ferran Terraza, Jorge-Yamam Serrano
Espanha, 2007 – 78 min / legendado em português e eletronicamente em inglês

duração total da projeção: 127 min | M/16

Uma (falsa) reportagem televisiva que não corre (nada) como previsto e que tem no centro a personalidade mediática Emanuel Raposo (Mário Roberto). Uma rara instância de “mockumentary” no cinema português, OS ÚLTIMOS DIAS DE EMANUEL RAPOSO é um divertido making of baseado numa personagem inventada mas sentida como bem real. Tem realização do micaelense Diogo Lima, liderando uma equipa de produção maioritariamente açoriana. Obra muito popular, misturando a fórmula de THE BLAIR WITCH PROJECT com o filme de zombies, [REC], dos espanhóis Jaume Balagueró e Paco Plaza, elevou o patamar do típico found footage horror ao refinar o dispositivo da reportagem televisiva em direto, seguindo os passos de uma equipa de bombeiros chamada para um local onde estranhas ocorrências tiveram lugar. Tudo se passa no confinamento de um mesmo edifício atingido por um surto viral que lança o caos absoluto entre os moradores e não só. Primeiras apresentações na Cinemateca.

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06/05/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o IndieLisboa - Isto não é um Documentário - Retrospetiva Mockumentary
David Holzman's Diary
de Jim McBride
com L.M. Kit Carson, Eileen Dietz, Loreno Mans, Louise Levine
Estados Unidos, 1967 - 74 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Depois de ser despedido do seu trabalho, um jovem realizador independente nova-iorquino é automaticamente incluído na lotaria de recrutamento para a Guerra do Vietname. Decide dar início, então, a um diário filmado da sua vida, dos seus anseios, da sua intimidade e da cidade em que vive. Através da forma do “mockumentary”, DAVID HOLZMAN’S DIARY é, acima de tudo, uma obra fundamental do cinema independente norte-americano, um “falso documentário” onde as formas narrativas são exploradas através do humor e da experimentação técnica para tocar, também, na consciência dos espectadores, tanto na sua perceção da realidade social e política como nos alicerces de uma indústria mediática que vive, constantemente, entre a realidade e a ficção.

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06/05/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o IndieLisboa - Isto não é um Documentário - Retrospetiva Mockumentary
Zelig
Zelig
de Woody Allen
com Woody Allen, Mia Farrow, Garrett Brown, Stephanie Farrow, Will Holt
Estados Unidos, 1983 - 79 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Uma experiência de Woody Allen, radical e inovadora para o seu tempo, que leva ao absurdo o estilo “documental”. Um falso documentário em que Woody Allen faz uma personagem de ficção, Zelig, “encontrar-se” com personagens reais da história, para sublinhar o papel que teria tido em acontecimentos decisivos. Escreveu Manuel Cintra Ferreira na respetiva Folha de Sala: “Zelig, um ‘documentário’, sendo, no seu caso, a ilustração perfeita daquele jogo de palavras que Agnès Varda usa num dos seus “documentários”: ‘Docu/menteur’.” Um clássico contemporâneo, que relançou o interesse pelas possibilidades do (sub)género do mockumentary.

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06/05/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o IndieLisboa - Isto não é um Documentário - Retrospetiva Mockumentary
The Connection
de Shirley Clarke
com Warren Finnerty, Jerome Raphael, Garry Goodrow, Jim Anderson
Estados Unidos, 1961 - 102 min
legendado eletronicamente em português | M/16
THE CONNECTION, primeira longa-metragem da autora, é a obra em que Shirley Clarke tenta filmar um grupo de junkies à espera de heroína. Especialmente controverso (Clarke precisou de recorrer a instâncias judiciais para que lhe fosse concedida uma licença para estrear o filme comercialmente) venceu um prémio da crítica em Cannes e é hoje um documento valioso sobre a contracultura do início dos anos 1960 e uma obra fundamental do cinema americano independente. Um filme fascinante em que “a verosimilhança documental se constrói no artifício da ficção” (Maria João Madeira).

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07/05/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o IndieLisboa - Isto não é um Documentário - Retrospetiva Mockumentary
Dick Johnson is Dead
de Kirsten Johnson
com Michael Hilow, Ana Hoffman, Dick Johnson
Estados Unidos, 2020 - 89 min
legendado eletronicamente em português | M/12
com a presença de Kirsten Johnson na sessão de dia 09
Um simultaneamente divertido e algo perturbante retrato sobre a morte a partir do olhar desconcertante de Kirsten Johnson, diretora de fotografia de alguns destacados cineastas documentais, tais como Laura Poitras (CITIZEN FOUR), e autora do belo CAMERAPERSON. Trata-se da história de uma filha tentando lidar com a morte dos seus pais. Dick Johnson, um psiquiatra acabado de se reformar, aceita o desafio lançado pela filha-documenteuse de encenar a sua morte vezes sem conta, uma maneira de os reaproximar entre si e de ajudar a lidar com a ideia de desaparecimento. O resultado é um jogo repleto de humor negro sobre os limites da vida e da morte, e a possibilidade de o cinema reparar as faltas e falhas mais pessoais e (in)transmissíveis. Primeira apresentação na Cinemateca.

A sessão repete no dia 09 às 19h00, na sala M. Félix Ribeiro.

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