CICLO
Mel Brooks, Deixa-nos em Paz!


No início de ROBIN HOOD: MEN IN TIGHTS, Mel Brooks brinca com a maneira como todos os filmes com a personagem Robin Hood começam: uma aldeia a arder. O realizador vai mais longe e define que é esta aldeia que está sempre a arder. Ao verem setas a escrever, em chamas, o nome do produtor e realizador, os habitantes juntam-se para lhe rogar: «Deixa-nos em paz, Mel Brooks!». Esta frase tornou-se o mote do presente ciclo. Afinal de contas, falamos de uma carreira cinematográfica marcada por filmes que fazem uma releitura paródica de clássicos do cinema americano. Arriscamos dizer que o realizador seria o primeiro a achar piada ao título.
Brooks começa a dar os primeiros passos rumo ao estrelato no Your Show of Shows, programa televisivo de variedades de Sid Caesar, onde trabalha com nomes como Neil Simon, Woody Allen ou Carl Reiner (com quem cria o icónico personagem The 2000 Year Old Man, que resultou em múltiplos álbuns de comédia e participações televisivas). Depois de ser co-criador, com Buck Henry, de Get Smart, sátira televisiva a James Bond, Brooks salta do pequeno para o grande ecrã com THE PRODUCERS e começa a esculpir o seu próprio lugar no firmamento de Hollywood, tornando-se um dos nomes grandes da comédia americana.
Mel Brooks ocupa um lugar entre o prestígio e a depreciação, ele é um clown, um bobo que quer brincar com as especificidades do cinema, que demonstra conhecer profundamente. A paródia que executa é caracterizada pela forma espalhafatosa, mas é mais do que isso. Brooks pega nos vários géneros cinematográficos (os westerns, a space opera, os filmes de aventuras de capa e espada, cinema de terror) para os dissecar, virar ao contrário e ver como funcionam – mas também para os homenagear. Pode haver vulgaridade no seu cinema, mas não há malícia, porque o realizador se posiciona como alguém que conhece e quer honrar o objeto da sua paródia. Nos seus filmes, a vulgaridade é associada a questões de classe, culturais ou de sexualidade. Porém, Brooks esgrime o seu humor de maneira a destacar formas de marginalidade e exclusão na cultura americana, tornando os seus filmes mais incisivos do que poderia parecer à primeira vista. A sua primeira longa-metragem é exemplo disso mesmo, dado que, em THE PRODUCERS, a sua tendência é ridicularizar os males do mundo (neste caso a elite nazi, do seu ponto de vista enquanto judeu) para lhes retirar força.
Mel Brooks é um estudioso da história do cinema, construindo as suas paródias a partir do seu conhecimento e do seu olho cáustico e reinterpretando convenções de género, tom, linguagem cinematográfica e até performance. Ao mesmo tempo que diz «isto é só um filme», há algo de romântico na sua dedicação às personagens-tipo, estruturas narrativas, mitos de herói ou pedaços de músicas memoráveis e universalmente reconhecidos. Tudo é fair game para ser subvertido.
Neste ciclo, constrói-se um jogo de espelhos. Juntamos as comédias de Mel Brooks a filmes que as inspiraram. O realizador parodia space operas e filmes de ficção científica através do excesso visual, da crítica ao capitalismo e da ideia do mal como sendo burocrático (e, portanto, ridículo) por natureza. Quando pega na fórmula do western, fá-la explodir usando um intenso anacronismo e a crítica ao mito do “homem branco que domina o oeste americano”. As suas versões de filmes de monstros usam a fidelidade estética (o preto e branco dos filmes da Universal, os décors e guarda-roupa luxuoso do Drácula de Francis Ford Coppola) e o humor vem do modo como o medo se pode tornar comédia. Brooks explora a tensão inerente aos thrillers psicológicos e transforma-a em neurose humorística. Ao virar estes géneros do avesso, o seu instrumento predileto é o jogo de palavras: trocadilhos a voar à velocidade da luz, a influência da cultura judaica Ashkenazi e a utilização de múltiplas camadas que juntam o high e o low brow. Há dois casos mais particulares neste ciclo. Um é TO BE OR NOT TO BE, realizado por Alan Johnson e produzido e protagonizado por Mel Brooks, adapta o original de Ernst Lubitsch. Aqui, pega numa das obras-primas satíricas do cinema e volta à ideia da comédia como forma de luta, que perfura os preconceitos mais violentos. Outro caso é a sua segunda longa-metragem, THE TWELVE CHAIRS (que será exibido em conjunto com a curta de animação THE CRITIC, pela qual receberia o Óscar de Melhor Animação), que se apresenta “em espelho” com LIFE STINKS, dois filmes que não funcionam diretamente como paródias de um género ou filme. Porém, o primeiro é a adaptação de um romance russo que, ele próprio, era já uma sátira da sociedade russa pelos soviéticos Ilf e Petrov; o segundo pode ser considerado uma versão satírica de filmes de Frank Capra e do mito do homem-rico-que-aprende-uma-lição. Ambos mostram Brooks num registo um pouco diferente do habitual.
Quase a chegar aos cem anos, este será o terceiro ciclo da Cinemateca dedicado a um cineasta centenário vivo. Depois de Manoel de Oliveira e Edgar Morin... Mel Brooks.
 
 
16/02/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Mel Brooks, Deixa-nos em Paz!

DRACULA: PRINCE OF DARKNESS
Drácula, O Príncipe das Trevas
de Terence Fisher
Reino Unido, 1966 - 92 min
 
18/02/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Mel Brooks, Deixa-nos em Paz!

TO BE OR NOT TO BE
Ser ou Não Ser
de Alan Johnson
Estados Unidos, 1983 - 107 min
18/02/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Mel Brooks, Deixa-nos em Paz!

TO BE OR NOT TO BE
Ser ou Não Ser
de Ernst Lubitsch
Estados Unidos, 1942 - 95 min
19/02/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Mel Brooks, Deixa-nos em Paz!

HIGH ANXIETY
Alta Ansiedade
de Mel Brooks
Estados Unidos, 1977 - 95 min
20/02/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Mel Brooks, Deixa-nos em Paz!

DUCK SOUP
Os Grandes Aldrabões
de Leo McCarey
Estados Unidos, 1933 - 68 min
16/02/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Mel Brooks, Deixa-nos em Paz!
DRACULA: PRINCE OF DARKNESS
Drácula, O Príncipe das Trevas
de Terence Fisher
com Christopher Lee, Barbara Shelley, Andrew Keir
Reino Unido, 1966 - 92 min
legendado em português | M/12
Segunda incursão de Fisher nas aventuras do famoso conde, oito anos depois de o ter “ressuscitado” em HORROR OF DRACULA. É, para muitos, o melhor de toda a série da Hammer dedicada à personagem criada por Bram Stoker, com Christopher Lee, de novo no papel que marcou a sua carreira, “ressuscitado” graças ao sangue de um viajante que, por acaso, se abrigou no castelo do conde, e que um seu servidor vai verter sobre as cinzas do amo. Lee não pronuncia uma só palavra em todo o filme, que domina pelo impacto da sua presença física. A exibir em 35mm.

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18/02/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Mel Brooks, Deixa-nos em Paz!
TO BE OR NOT TO BE
Ser ou Não Ser
de Alan Johnson
com Mel Brooks, Anne Bancroft, Ronny Graham, Estelle Reiner, Christopher Loyd
Estados Unidos, 1983 - 107 min
legendado em português | M/12
A subtileza de Ernst Lubitsch é substituída pelos excessos de Mel Brooks neste remake do filme clássico, embora seja um exemplo de contenção e reverência. Neste ciclo, esta versão de TO BE OR NOT TO BE funciona menos como paródia do que como reinterpretação, e a aproximação dos dois filmes é um exercício de investigação no que toca ao que cada autor imbui na sua obra trabalhando com o mesmo material. Volta o tema do confronto com o fascismo através da performance e, de certo modo, sobre como a arte tem poderes redentores. Um filme para ser visto em diálogo com TO BE OR NOT TO BE de Ernst Lubitsch. A exibir em 35mm.

A sessão repete no dia 26 às 15h30, na sala Luís de Pina.

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18/02/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Mel Brooks, Deixa-nos em Paz!
TO BE OR NOT TO BE
Ser ou Não Ser
de Ernst Lubitsch
com Carole Lombard, Jack Benny, Robert Stack
Estados Unidos, 1942 - 95 min
legendado em português | M/12
O mundo real e o da representação, confundidos nesta comédia genial em que um grupo de atores, para fugir da Varsóvia ocupada pelos nazis, é obrigado a encenar na realidade a peça que preparava para o palco. Para o crítico David Thomson, é uma das “poucas declarações políticas duradouras e úteis” do cinema americano, demonstrando “uma insolência saudável em muitos americanos em relação à tirania”. Foi também o último filme de Carole Lombard. A exibir em 16mm.

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19/02/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Mel Brooks, Deixa-nos em Paz!
HIGH ANXIETY
Alta Ansiedade
de Mel Brooks
com Mel Brooks, Madeline Kahn, Cloris Leachman
Estados Unidos, 1977 - 95 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Na série de paródias do cinema clássico que realizou, Mel Brooks volta-se aqui para o género de thriller psicológico e suspense. Trata-se da história do novo diretor de uma instituição psiquiátrica, que é injustamente acusado de homicídio e deve confrontar sua própria neurose: a “alta ansiedade” mencionada no título. Um filme para ser visto em diálogo com THE COBWEB, outro título que explora que explora a linha ténue entre a loucura e a sanidade. A exibir em cópia digital.

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20/02/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Mel Brooks, Deixa-nos em Paz!
DUCK SOUP
Os Grandes Aldrabões
de Leo McCarey
com Groucho, Chico, Harpo e Zeppo Marx, Margaret Dumont
Estados Unidos, 1933 - 68 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Uma violentíssima sátira ao nacionalismo e à política dos anos 1930, ambientada num país imaginário da Europa central. Esse pequeno país é governado por Groucho (ou melhor, Rufus T. Firefly), cujos expedientes para contornar a bancarrota acarretam uma guerra com a nação vizinha. Delirante, para muitos o melhor filme dos Irmãos Marx (aqui espevitados pela magistral mão de Leo McCarey), DUCK SOUP é tudo menos inocente, ou não fosse 1933 um ano de presságios bélicos. A exibir em cópia digital.

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