CICLO
Uma Cinemateca em Chamas - Histórias de Projeção e Projecionistas



Pay no attention to that man behind the curtain. Eis a frase que pôs fim à ilusão do “grande e poderoso” Feiticeiro de Oz. Quando Dorothy e os seus amigos confrontam o feiticeiro, descobrem que – afinal – aquela entidade vaporosa e trovejante não passava de um homem. “Eu não sou um homem mau, sou apenas um mau feiticeiro,” diz ele, encolhendo os ombros. 
Toda aquela pompa de luz, cor e som resultava das artimanhas tecnológicas e artísticas desse “mau feiticeiro” que, escondido num canto do cenário, controlava o espetáculo com manivelas, botões e outra complexa parafernália. Essa cena marca o fim das esperanças da ingénua Dorothy no mundo dos seus sonhos e, consequentemente, assinala o despertar do espectador de cinema em relação à natureza orquestrada das imagens projetadas. De facto, o cinema é uma grande intrujice, feito de luz, cor e som e quem o põe em marcha (escondido por trás não de uma cortina, mas de pequenas vigias no fundo da sala) é o projecionista, “um bom feiticeiro”. 
Ou melhor, era. Atualmente, com a digitalização e automatização das salas, a figura do projecionista quase desapareceu dos cinemas comerciais (substituída por um “gestor de conteúdos” que vende pipocas a part time). A missão de um Museu do Cinema é não só preservar os filmes, mas preservar também o modo como estes foram apresentados ao público. Para isso há que manter vivas as técnicas e as tecnologias associadas à exibição de cinema nos seus suportes originais, tanto do ponto de vista material (aparelhos, sistemas, formatos...), como do ponto de vista humano (daí a importância do projecionista, como garante dessa continuidade histórica). É, pois, o momento de prestar homenagem ao trabalho – à arte! – dos projecionistas. 
Para isso, o ano de 2026 abre com o Ciclo Uma Cinemateca em Chamas Histórias de Projeção e Projecionistas, que será igualmente acompanhado por uma exposição documental, iconográfica e de aparelhos, intitulada Project, e que estará patente ao longo dos próximos meses pelos vários espaços da Cinemateca, e por um vasto programa educativo promovido pela Cinemateca Júnior durante o primeiro trimestre do ano, para escolas e famílias. Estes três eixos (a programação, a conservação e a pedagogia) definem então o âmbito deste programa, que pretende chamar a atenção do público para a importância da exibição de cinema nos seus suportes originais, para a sensibilização dos espectadores às particularidades desses suportes (a experiência da projeção analógica, a luminosidade da projeção, as cores, a textura de uma cópia já “vivida”) e, claro, chamar a atenção para a especialização do trabalho dos projecionistas, que permitem que este tipo de exibições continue a ser possível. Quando o discurso dominante a favor da digitalização impõe uma visão passadista sobre a película (vista como um resquício, mais ou menos curioso, de um passado longínquo), cabe às cinematecas – e a esta em particular – a função de garantir que a história do cinema se mantém viva, do ponto de vista material, tecnológico e humano.
O presente Ciclo é composto por uma vasta seleção de filmes (dos ensaios dos irmãos Lumière no final do século XIX ao elogio dos cinemas grindhouse no início do século XXI) que, de diferentes formas, procuram recordar o espectador da importância da experiência comunal do cinema. São filmes que ora refletem sobre a sua própria materialidade (o filme reduzido à sua essência de luz e sombra, a película a arder, as perfurações a partir, o filme encravar ou o DCP a dar erro), ora refletem sobre os seus modos de exibição (tornando os projecionistas protagonistas dos filmes que projetam, revelando os “segredos da profissão” e integrando na ação as famosas cigarette burns) ora ainda saudam, recordam ou mitificam o espaço da sala de cinema como espetáculo popular – “o” espetáculo popular – que definiu a cultura do século XX. E, entre eles, incluem-se as escolhas da atual equipa de projecionistas da Cinemateca: oito projecionistas, oito vontades, oito filmes.
Quando, em 1895, os irmãos Lumière experimentaram, pela primeira vez o Le Cinématographe, eles inventaram não só a câmara de filmar como o projetor de cinema (o aparelho servia, alternadamente, para captar e projetar imagens em movimento). No entanto, como diz Vicente Monroy, a grande invenção dos Lumière não foi o Le Cinématographe, foi o espectador de cinema. Ou melhor, foi a criação de um “dispositivo” – simultaneamente íntimo e público – para a fruição coletiva das imagens em movimento. Sendo este um Ciclo de elogio ao trabalho dos projecionistas não poderia deixar de ser, também, um Ciclo de elogio à projeção numa sala de cinema. Daí que, ao longo do mês, tenhamos a oportunidade de ver vários filmes sobre cinemas, sobre idas ao cinema, sobre adormecer no cinema ou ficar zangado no cinema, sobre se apaixonar no (e pelo) cinema, sobre os “perigos” e os “benefícios” dos filmes, sobre os erros e os acertos da projeção, sobre o seu efeito hipnótico, sobre a projeção enquanto evento e enquanto performance, sobre a cabine como espaço de reclusão, como espaço de proteção, espaço de caos, de perturbação e de transformação e, também, sobre o filme enquanto objeto, enquanto testemunho material de uma ocorrência, enquanto memória, enquanto assombração e celebração do que foi ou do que poderia ter sido.
Se a 14 de julho de 1980 se iniciaram as sessões diárias da Cinemateca, naquela que era a novíssima sala construída no edifício da Rua Barata Salgueiro, a 23 de abril do ano seguinte um incêndio, provocado pela combustão de um rolo de película com nitrato de celulose, destruiu por completo a sala desta instituição. Nem um ano tinha passado e, num ápice, tudo se desfez. Passadas quase cinco décadas, a Cinemateca continua em chamas. 
 
24/01/2026, 16h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Uma Cinemateca em Chamas - Histórias de Projeção e Projecionistas

A Proposal to Project In Scope | Targets
A Proposal to Project in Scope | Alvos
 
24/01/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Uma Cinemateca em Chamas - Histórias de Projeção e Projecionistas

Fight Club
Clube de Combate
de David Fincher
Estados Unidos, 1999 - 138 min
26/01/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Uma Cinemateca em Chamas - Histórias de Projeção e Projecionistas

Projection Instructions | Autrement, La Molussie
26/01/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Uma Cinemateca em Chamas - Histórias de Projeção e Projecionistas

Testfilm#1 | Tôkyô Sensô Sengo Hiwa
Testfilm#1 | “O Homem que Deixou o seu Testamento em Filme”
27/01/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Uma Cinemateca em Chamas - Histórias de Projeção e Projecionistas

A Caverna-3D | Angustia
24/01/2026, 16h30 | Sala Luís de Pina
Uma Cinemateca em Chamas - Histórias de Projeção e Projecionistas
A Proposal to Project In Scope | Targets
A Proposal to Project in Scope | Alvos
A PROPOSAL TO PROJECT IN SCOPE
de Viktoria Schmid
Áustria, 2020 – 8 min

TARGETS
Alvos
de Peter Bogdanovich
com Tim O’Kelly, Nancy Hsueh, Boris Karloff, James Brown
Estados Unidos, 1968 – 90 min / legendado eletronicamente em português

duração total da projeção: 98 minutos | M/12

Peter Bogdanovich era, da geração da Nova Hollywood, aquele que mais amizades tinha entre os veteranos – diz-se que Samuel Fuller terá colaborado, sem ser creditado, na escrita do argumento. Variação “low budget” sobre o modelo do filme de terror, TARGETS utiliza “footage” de um filme anterior de Roger Corman (THE TERROR) e Bogdanovich inventou uma história para aproveitar Boris Karloff, que só tinha disponibilidade para dois (2!) dias de rodagem. Um filme de cinéfilo e de homenagem a um grande ator, onde tudo se encaminha para uma projeção de cinema ao ar livre, onde um sniper mata através do ecrã (e a primeira vítima é – naturalmente – o projecionista). A sessão começa com um filme-haiku sobre o formato scope, onde o cinema se faz à luz do sol, a partir das sombras que a vegetação projeta no ecrã (primeira apresentação na Cinemateca). A exibir em 35 mm.

consulte a FOLHA da CINEMATECA aqui
24/01/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Uma Cinemateca em Chamas - Histórias de Projeção e Projecionistas
Fight Club
Clube de Combate
de David Fincher
com Brad Pitt, Edwart Norton, Helena Bonham Carter, Meat Loaf
Estados Unidos, 1999 - 138 min
legendado em português | M/16
A primeira regra do FIGHT CLUB: não se escrevem sinopses do FIGHT CLUB. Mas… Quatro anos depois do sucesso de SEVEN, David Fincher assinou esta adaptação do romance homónimo de Chuck Palahniuk, onde a violência – sob a forma de ritual e hobby – se vai construindo como a metáfora para denunciar o conflito geracional dos jovens contra o sistema de valores instituído pelo poder persuasivo da publicidade (de que Fincher se havia tornado mestre). Importa lembrar que Tyler Durden (a personagem de Brad Pitt) é, além do líder do clube secreto, um projecionista em part-time que se diverte a incluir, nas mudanças de bobine, fotogramas de filmes pornográficos. Estejam atentos às “cigarette burns”. A exibir em 35 mm.

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26/01/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Uma Cinemateca em Chamas - Histórias de Projeção e Projecionistas
Projection Instructions | Autrement, La Molussie
PROJECTION INSTRUCTIONS
de Morgan Fisher
Estados Unidos, 1976 – 4 min

AUTREMENT, LA MOLUSSIE
de Nicolas Rey
com Peter Hoffmann
França, 2012 – 71 min / legendado eletronicamente em português

duração total da projeção: 75 min | M/12

Nos anos 1930, Günther Anders escreveu Die Molussische Katakombe, um romance político-filosófico antifascista. Nicolas Rey selecionou passagens desse livro, com importante significado para os dias de hoje, e combinou-as com a beleza de um conjunto de paisagens filmadas em película 16mm fora de prazo. AUTREMENT, LA MOLUSSIE é um poderoso trabalho sobre as disjunções entre imagem e som que tem uma forma de projeção invulgar: cada sessão consiste na exibição aleatória das suas nove bobines. Ou seja, existem 362880 formas diferentes de mostrar o filme (e caso alguém as quisesse ver todas demoraria cerca de 50 anos, sem dormir). A sessão abre com o filme-provocação que convida os projecionistas a realizarem uma série de tarefas: desfocar, alterar a janela, mudar de objetiva, etc. Não é tanto um filme, antes uma performance. A exibir em 16 mm.

A sessão repete no dia 31 às 19h30, na sala Luís de Pina.

consulte a FOLHA de PROJECTION INSTRUCTIONS aqui

consulte s FOLHA de AUTREMENT, LA MOLUSSIE aqui
26/01/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Uma Cinemateca em Chamas - Histórias de Projeção e Projecionistas
Testfilm#1 | Tôkyô Sensô Sengo Hiwa
Testfilm#1 | “O Homem que Deixou o seu Testamento em Filme”
TESTFILM #1
de Telcosysterms
Croácia, Países Baixos, 2020 – 14 min

TÔKYÔ SENSÔ SENGO HIWA
“O Homem que Deixou o seu Testamento em Filme”
de Nagisa Ôshima
com Kazuo Goto, Iwasaki Emiko
Japão, 1987 – 94 min / legendado eletronicamente em português

duração total da projeção: 108 min | M/12

Com a “transição digital” surgiu um novo e totalizador formato, o DCP (Digital Cinema Package). Congeminado pela indústria, este passou a ser o padrão único de exibição em sala. Em TESTFILM#1, uma dupla de cineastas tenta perceber como subverter o sistema. Mas será sequer possível? Este ensaio, sobre os limites impostos à experimentação artística, surge em diálogo com um dos mais audazes filmes de Nagisa Ôshima, justamente sobre o impasse da geração de cineastas-ativistas do pós-Maio de 68 no Japão. Um jovem realizador morre durante uma perseguição policial (sem nunca parar de filmar). Um amigo tenta descodificar as imagens-testamentárias e perde-se no labirinto dos seus significados. Ironicamente, este será dos poucos filmes deste Ciclo a ser exibido em DCP. Primeiras apresentações na Cinemateca, ambos em digital.

A sessão repete no dia 31 às 16h00, na sala Luís de Pina.

consulte a FOLHA da CINEMATECA aqui
27/01/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Uma Cinemateca em Chamas - Histórias de Projeção e Projecionistas
A Caverna-3D | Angustia
com a presença de Edgar Pêra
A CAVERNA – 3D
de Edgar Pêra
Portugal, 2015 – 21 min

ANGUSTIA
Angústia
de Bigas Luna
com Zelda Rubinstein, Michael Lerner, Talia Paul, Àngel Jové
Espanha, 1987 – 89 min / legendado em português

duração total da projeção: 110 min | M/18

Filme dentro do filme; o ecrã como espelho da própria sala; a experiência do ver e do ser visto. Nesta sessão exibem-se dois filmes rodados em salas de cinema, sobre a experiência do espectador. Em A CAVERNA, Edgar Pêra propõe uma viagem alucinada em 3D, na qual a sala de cinema é, simultaneamente, prisão e lugar de resistência. Já no filme de Bigas Luna, duas adolescentes vão assistir ao filme de terror “The Mommy” em que um optometrista (wink, wink) se lança numa onda de assassinatos. O problema é que há um verdadeiro assassino na sala de cinema, que se parece inspirar (e excitar) por aquilo que está a ser projetado. A exibir, respetivamente, em digital e 35 mm.

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