CICLO
À Flor da Pele


A primeira ou principal proposta deste ciclo passa pela afirmação da pele como metáfora viva do cinema. Com efeito, a palavra “película” deriva do termo latino “pellicula”, que significa “pele pequena, fina ou delicada”. A pele, o maior órgão do corpo humano, interface entre o fora e o dentro, é simultaneamente um meio universal de contacto com o mundo (o toque como acesso ao exterior) e um lugar de memória capaz de contar uma história particular e reveladora (o toque como princípio de ingresso no espaço siderante do íntimo). Superfície sensível e reveladora à imagem da película fotográfica, a pele é uma forma de mediação, mas também é um fim em si mesmo, pois o maior órgão também é aquele que mais rapidamente se dá a ver, enquanto imanência do que somos e de como nos apresentamos; “roupa” com que o “eu” se cobre para enfrentar o mundo, para ser mais do que mera “carne e osso”. Na paisagem cutânea inscrevem-se – e projetam-se – desejos e ansiedades mais ou menos malditas (como a Pele de Ónagro de Honoré de Balzac) e nela se revela tanto o passado como sintomatologicamente se pode dar a ler o futuro.
“Há um mistério que se dá a ver, que implica signos, hieróglifos a decifrar. É preciso ver, analisar e interpretar” – não é um cineasta nem um académico do cinema o autor destas palavras mas um médico, o Dr. Antoine Petit, do Hospital Saint-Louis, em Paris, tentando explicar o porquê de se ter decidido pela especialidade da dermatologia (in France Culture, “Épisode 2/5 : La dermatologie est une médecine de la vue”, 2 de fevereiro de 2016). A arte e a técnica de ler, descodificar ou preservar, prestando culto ou devoção ao grande órgão, é aquilo que nos guia neste ciclo (“I’m guided by this birthmark on my skin”, cantou Leonard Cohen em First We Take Manhattan), escolhendo cineastas que, como escreveu o crítico Stéphane Delorme (“Poétique du grain de beauté”, Cahiers du cinéma, 1 de julho de 2017), convocam nos seus filmes uma certa dramaturgia do (con)tacto em que a pele é não somente um fim ou um meio mas o fim de todos os meios ou o meio de todos os fins: “Há cineastas mais sensíveis ao rosto e à pele do que outros. E é perfeitamente legítimo preferi-los a todos os outros (...). Torna-se vital que o cinema guarde o registo dessas marcas na pele: cicatrizes, pêlos eriçados, rubores de vergonha ou de emoção, rugas, vincos... Antes de as imagens de grande consumo e a ideologia dietética organizarem o seu desaparecimento (e até o desaparecimento da sua perceção).”
Faça-se justiça aos cineastas e aos filmes que guardam e enaltecem a ortografia da pele, “a mais profunda de todas as coisas”, como a chamou um dia Paul Valéry. O envelhecimento, a juventude, a doença, a deformação, o mito da beleza eterna, a discriminação quanto ao tom, a maquilhagem, a tatuagem, o toque e o sexo são alguns dos vetores contemplados neste ciclo.
Tantas e tantas vezes estas narrativas altamente tácteis são dadas a ver e a sentir na magnífica aparição, engrandecida na tela, de um rosto humano, última potência da “imagem-afeção” (Gilles Deleuze) que era, para um cineasta como John Cassavetes, “a principal localização do mundo”. Para Jean Epstein, no seu clássico Bonjour cinéma, publicado em 1921, a “fotogenia do movimento” cumpria-se na antecipação da mais infinitesimal expressão do rosto: “O grande plano é a alma do cinema”, chegou a escrever no ensaio Le Grossissement. Esta era uma das potências da expressão cinematográfica: a de revelar, na geografia da face humana, os movimentos mais ínfimos que se expressam ou indiciam no texto da pele. Eis, enfim, a pele como magnífico espaço de indistinção, transfronteiriço, entre a impressão ou a sensação e o sentimento ou o êxtase. Neste ciclo, a arte, a ciência e o mistério da Criação apresentam-se (re)ligados através de obras anticosméticas da história do cinema.
O presente ciclo foi concebido à imagem do seu tema, resultando de um esforço conjunto de uma parte do corpus de programadores da Cinemateca Portuguesa face à pergunta: até onde levou o cinema a arte de filmar a pele? De que modo “a deu à luz” e “desenrolou” no grande ecrã? Ao órgão maior, responde-se com o maior número possível de propostas. E o resultado, porventura extremo, indo de D. W. Griffith a Marina de Van, começando oficialmente no incontornável THE TEXAS CHAINSAW MASSACRE de Tobe Hooper (exibido na Esplanada numa cópia em 35 mm devidamente marcada pelo tempo), acaba por ser um hino a todas as formações e protuberâncias cinematográficas, um muito diverso e, por vezes, rugoso catálogo de cinema onde cabem todos os géneros, do documentário ao cinema de horror, e onde se convocam as mais cruas sensações e emoções “peliculares” produzidas por cineastas de várias épocas e latitudes geográficas.
 
 
04/08/2025, 21h30 | Esplanada
Ciclo À Flor da Pele

La Piel Que Habito
A Pele Onde Eu Vivo
de Pedro Almodóvar
Espanha, Estados Unidos, 2011 - 120 min
 
05/08/2025, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo À Flor da Pele

Kôkaku Kidôtai
Ghost in the Shell: Cidade Assombrada
de Mamoru Oshii
Japão, Reino Unido, 1995 - 83 min
05/08/2025, 21h30 | Esplanada
Ciclo À Flor da Pele

Band of Angels
A Escrava
de Raoul Walsh
Estados Unidos, 1957 - 125 min
06/08/2025, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo À Flor da Pele

Watching The Pain Of Others | Dans Ma Peu
06/08/2025, 21h30 | Esplanada
Ciclo À Flor da Pele

Eastern Promises
Promessas Perigosas
de David Cronenberg
Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, 2007 - 100 min
04/08/2025, 21h30 | Esplanada
À Flor da Pele
La Piel Que Habito
A Pele Onde Eu Vivo
de Pedro Almodóvar
com Antonio Banderas, Elena Anaya, Jan Cornet
Espanha, Estados Unidos, 2011 - 120 min
legendado eletronicamente em português | M/16
História obsessiva, típica em Almodóvar, desta feita, sob influência do cinema fantástico e cruel de Luis Buñuel, de Georges Franju e de Louis Feuillade, que tem no centro a personagem do Dr. Robert Ledgard, interpretada por Antonio Banderas. O Dr. Ledgard pretende homenagear a sua defunta mulher, consumida pelas chamas na sequência de um acidente de carro, com a criação de uma pele sintética imune a todo o tipo de queimaduras ou cortes. Busca agora um émulo da sua falecida esposa, isto é, almeja contratar a cobaia ideal que possa envergar a sua nova invenção. Só que, como dita a lenda de Pigmalião, a criação tende a rebelar-se contra o criador... Primeira exibição na Cinemateca. A exibir em cópia digital.

A sessão repete no dia 9 às 19h00, na sala M. Félix Ribeiro.

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05/08/2025, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
À Flor da Pele
Kôkaku Kidôtai
Ghost in the Shell: Cidade Assombrada
de Mamoru Oshii
com Atsuko Tanaka, Iemasa Kayumi, Akio Ôtsuka
Japão, Reino Unido, 1995 - 83 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Um extraordinário filme de animação altamente presciente por se basear num futuro dominado por comunicações digitais e sob ameaça de uma poderosa entidade AI designada por Puppet Master. Contra os planos de dominação global do vilão está uma cyborg com uma forma ou “casca” feminina, que pode (ou não) possuir sentimentos e pensamentos humanos. Uma densíssima reflexão existencialista, pré-THE MATRIX, sobre o papel da tecnologia nas nossas vidas, a separação do corpo e da alma e a possibilidade de se (re)programar o mundo, num tempo definitivamente pós-humano. Em 2017, foi lançada uma versão “live action” deste clássico contemporâneo de Mamoru Oshii com Scarlett Johansson no principal papel. Primeira exibição na Cinemateca.
A exibir em cópia digital.

A sessão repete no dia 8 às 21h30, na Esplanada.

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05/08/2025, 21h30 | Esplanada
À Flor da Pele
Band of Angels
A Escrava
de Raoul Walsh
com Clark Gable, Yvonne de Carlo, Sidney Poitier
Estados Unidos, 1957 - 125 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Situado num contexto semelhante ao de GONE WITH THE WIND, BAND OF ANGELS conta a história de uma mulher branca (Yvonne de Carlo) que descobre, quando lhe morre o pai, que a mãe era negra. É vendida como escrava a um aventureiro (Clark Gable). A escrava e o seu senhor terão de assumir o seu passado para conquistar a liberdade. “[É] um dos grandes ‘filmes romance’ que a memória recupera, através do cinema”, escreveu João Bénard da Costa na respetiva folha de sala.

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06/08/2025, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
À Flor da Pele
Watching The Pain Of Others | Dans Ma Peu
WATCHING THE PAIN OF OTHERS
de Lého Galibert-Laîné
França, 2018 – 31 min

Dans ma peau
“Na Minha Pele”
de Marina de Van
com Pierre Deladonchamps, Christophe Paou, Patrick d’Assumçao
França, 2002 – 93 min

legendados eletronicamente em português
duração total da sessão: 124 min  | M/16

Realizado no âmbito de uma investigação doutoral, WATCHING THE PAIN OF OTHERS é um desktop documentary (passado inteiramente no ecrã do computador) baseado noutro documentário, THE PAIN OF OTHERS, de Penny Lane, acerca de como uma comunidade se forma e cresce online em torno de uma doença que pode ou não ser real. E como estar exposto a teorias e paranoias cibernéticas induz sintomas verificáveis à flor da pele, nomeadamente estranhas reações cutâneas, que parecem vir de um filme de David Cronenberg. DANS MA PEAU é a longa-metragem de estreia da realizadora, também atriz, Marina de Van. Escalpelizam--se, neste exemplar autobiográfico e “no feminino” do movimento apelidado por James Quandt de “New French Extremity”, as ansiedades da vida contemporânea: Esther, uma bem sucedida mas deprimida consultora de marketing, começa a interessar-se pelo seu próprio corpo, após um acidente aparentemente insignificante, explorando as possibilidades oferecidas pela automutilação e pelo (auto-)canibalismo. O filme tem merecido uma interessante reabilitação crítica desde os sucessos recentes de TITANE e THE SUBSTANCE, dois exemplares franceses de “body horror” realizados por mulheres: Julia Ducournau e Coralie Fargeat, respetivamente. Primeiras exibições na Cinemateca. A exibir em cópias digitais.

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06/08/2025, 21h30 | Esplanada
À Flor da Pele
Eastern Promises
Promessas Perigosas
de David Cronenberg
com Viggo Mortensen, Naomi Watts, Armin Mueller-Stahl, Jerzy Skolimowski, Vincent Cassel
Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, 2007 - 100 min
legendado eletronicamente em português | M/16

EASTERN PROMISES é um retrato frio e cruel da máfia russa instalada em Londres, com Nikolai Luzhin (Viggo Mortensen), condutor de uma poderosa família de criminosos, no centro da ação, tentando ajudar a parteira Anna (Naomi Watts) a descobrir a verdade por detrás da morte de uma jovem mãe durante o trabalho de parto. A pele de Luzhin, marcada por tatuagens da máfia russa, é um dos principais décors deste thriller gélido de Cronenberg, também ele marcado por uma extraordinária sequência de combate numa sauna e por outra passada numa barbearia. Uma das melhores interpretações de Viggo Mortensen, que teve Vladimir Putin, e o seu “olhar imperturbável”, como uma referência para a composição da sua personagem. A exibir em cópia digital.

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