CICLO
Frank Borzage - O Lugar mais Sagrado


Vão ser três meses com os filmes de Frank Borzage, um cineasta e uma obra que são fundamentais em qualquer contexto, mas especialmente no quadro dos autores oriundos das gerações pioneiras do cinema americano. Como sucedeu nas retrospetivas que recentemente dedicámos a autores com uma origem e um percurso aproximáveis aos de Borzage (os casos de Allan Dwan, William Wellman e mesmo, com a especificidade da sua origem húngara, Michael Curtiz), a ideia é propor um mergulho em profundidade e em extensão por uma obra que atravessa várias décadas (Borzage filmou entre os anos 1910 e a entrada da década de 1960) e várias circunstâncias da história de Hollywood, da história do cinema “tout court”, da história do mundo: contamos apresentar cerca de setenta títulos, o que faz desta, por certo, uma das retrospetivas Borzage mais completas alguma vez realizadas (e praticamente triplicando o número de filmes mostrados no primeiro ciclo que a Cinemateca dedicou à obra de Borzage, à entrada dos anos 1990).
De Borzage diz-se frequentemente, e não é errado dizê-lo, que é o grande cineasta romântico, o grande cineasta do amor como força espiritual capaz de transcender todas as mais severas circunstâncias – o cineasta do sanctum sanctorum do amor, ou do amor como lugar mais sagrado, para glosar o título de um célebre de artigo de Kent Jones sobre o realizador. Uma espiritualidade que tem frequentemente conotações religiosas e que se aproxima da simbologia cristã (num dos momentos supremos da filmografia de Borzage, A FAREWELL TO ARMS, a cena climática tem Gary Cooper a pegar ao colo em Helen Hayes e os dois corpos, um na vertical outro na horizontal, formam uma cruz), mesmo que não se possa traçar uma linha reta entre Borzage e a religião: se nasceu numa família católica (pai italiano e mãe suíça), nem era baptizado, e cresceu no Utah, o estado dos Mórmones; os comentadores de Borzage tendem a defender que espiritualidade do realizador é uma construção pessoal, sincrética, que pesca em várias fontes.
Mas é uma espiritualidade, e essa é a grande peculiaridade de Borzage, que não existe em abstração das circunstâncias sociais e históricas. A força do espírito só se revela no embate contra a força da matéria, e a matéria é frequentemente adversa. Pode ser o próprio corpo humano, no limite, como acontece no fabuloso clímax de outra grande obra-prima (talvez a grande obra-prima de Borzage), LUCKY STAR; pode ser a penúria económica, como nos filmes dos anos 1930 (MAN’S CASTLE ou LITTLE MAN, WHAT NOW?) que se tornaram expoentes do cinema da Grande Depressão; pode ser a tempestade da História, como em THE MORTAL STORM, porventura o primeiro grande filme declaradamente anti-nazi feito em Hollywood; pode ser a assunção de uma culpa, como em MOONRISE, o grande filme tardio de Borzage, que se podia concluir como o PICKPOCKET de Bresson (um filme que estava a mais de dez anos de existir…) e falar do “estranho caminho” que conduz uma pessoa a outra.
Ou seja, o espiritual está sempre de braço dado com o físico, e Borzage é um grande cineasta do espaço como tradução material do que aproxima e afasta as suas personagens, e do que custam essa aproximação ou esse afastamento – é por isso que em THE 7TH HEAVEN, noutro dos mais gloriosos movimentos de Borzage, a câmara acompanha a ascensão do par pela escadaria, piso a piso, até ao sétimo andar.
Escadas, relações entre o alto e o baixo, entre as profundezas e o céu, são elementos frequentes no cinema de Borzage, e mais uma vez, não apenas em simbolismo. A profundeza, de certo modo, foi a sua origem: o pai de Borzage era mineiro, ele próprio o foi quando, adolescente, foi trabalhar para as minas de modo a reunir os cobres necessários para poder frequentar uma escola de teatro em Salt Lake City. Foi uma infância muito dura, a de Borzage: ao todo eram quatorze irmãos, e só oito chegaram à idade adulta. É mais que certo que ele nunca se esqueceu de onde veio, nem mesmo na sua mais shining hour, porque essa lembrança se reflete na maioria dos seus filmes.
Borzage tinha 17 anos quando, em 1911, depois do curso de teatro, se mudou para Los Angeles, atrás da então ainda muito incipiente Hollywood. Foi figurante em inúmeros filmes, mas foi subindo na hierarquia e Thomas Ince acabou por empregá-lo como ator principal, até que em 1915 (Borzage tinha 21 anos) se tornou realizador, e durante quase cinquenta anos essa foi a sua principal atividade. Chegou a ser o mais estimado realizador em Hollywood: foi o primeiro a ganhar um Oscar de melhor realizador, na primeira vez em que eles foram atribuídos, em 1927, por 7TH HEAVEN (curiosamente, o outro grande protagonista dessa cerimónia, o SUNRISE de Murnau, foi rodado ao mesmo tempo, e com a mesma atriz, Janet Gaynor, que ia passando de um plateau a outro), e depois em 1931, por BAD GIRL, tornou-se o primeiro a ganhar esse Oscar por duas vezes. Como sucedeu com outros da sua geração, nem sempre a memória o tratou bem, e se foi um grande realizador popular hoje é, essencialmente, um tesouro dos cinéfilos.
A ele dedicaremos os próximos três meses, com a extensão que merece um dos lugares mais sagrados da história do cinema.
 
Não existem filmes para o ciclo selecionado
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