CICLO
Correspondências - Rita Azavedo Gomes | Realizadora Convidada


Calou fundo na jovem Rita Azevedo Gomes, o sismo de 1969 em Lisboa que a fez ouvir a vibração da terra sete pisos acima do solo. Rita não se esqueceu, está no título da primeira longa-metragem, que trata de outros abalos à beira dos anos 1990, O SOM DA TERRA A TREMER. Encontra-se nessa primeira obra, à época mal-amada, o fulcro de imagens, fragmentos, sobreposições, transparências, cores, melodias, liberdade do seu cinema porvir, tecido na palavra, na música, na pintura, no cinema, no que “só o cinema” pode e com olhos postos nesse horizonte. “Só o cinema” (chamou-se um ciclo programado na Cinemateca em 2020). É ver A VINGANÇA DE UMA MULHER (2011), com a atriz que mais tem acompanhado os filmes de Rita desde A CONQUISTA DE FARO (2005), Rita Durão, e que chamou em definitivo a atenção para a sua obra, desde o princípio a circular “lá fora” e a chegar a espectadores entusiasmados. Atlânticos, quando não mediterrânicos, são filmes cruzados de pulsões românticas, paixões artísticas, correspondências, muitas correspondências. Como o título em que faz reverberar as cartas trocadas por dois poetas, Sophia e Jorge de Sena (CORRESPONDÊNCIAS, 2016).
Mas ao SOM DA TERRA A TREMER sucederam anos de pousio. FRÁGIL COMO O MUNDO aconteceu só em 2000, e depois por teima. Enigma atrás de enigma, perseguindo afinidades, alargando círculos de cúmplices, sem querer saber de impossíveis. ALTAR (2002) é o primeiro dos títulos produzidos por Rita sem estrutura ou rede financeira – imaginou uma “A Produtora” – e de A PORTUGUESA (2018) em diante trabalha a partir da Basilisco, que até em confinamento pandémico, produziu uma peculiar adaptação da única peça de teatro de Eric Rohmer numa casa a norte, O TRIO EM MI BEMOL (2021). Não obstante Rita ter trabalhado com produtores e produtoras com estruturas mais “convencionais” nas primeiras duas longas e em alguns outros trabalhos, por exemplo A CONQUISTA DE FARO, A COLECÇÃO INVISIVEL (2009). Até hoje, até FUCK THE POLIS (2025), dez longas-metragens; médias e curtas em número mais alto. De raiz ficcional e poética, de densidade intrínseca e disponíveis para o acaso, os seus filmes, arredios a categorias ou hierarquias, e que podem ser “de época”, contemporâneos ou atemporais e tudo isso ao mesmo tempo, também assentam em conversas com grandes conversadores, como Manoel de Oliveira e João Bénard da Costa (A 15ª PEDRA, 2005) ou Jean-Louis Schefer (DANSES MACABRES, SQUELETTES ET AUTRES FANTAISIES (2019, correalizado com Schefer e Pierre Léon). “Os acasos são as únicas coisas que não acontecem por acaso”, diz-se no SOM DA TERRA A TREMER.
Rita Azevedo Gomes aprendeu cinema vendo, vendo fazer, fazendo por si. Fez estudos nas Belas-Artes, teve uma breve experiência no ensino, encontrou os plateaux de cinema nos filmes Super 8 mm e 16 mm de Luís Noronha da Costa, como atriz e assistente (D. JAIME OU A NOITE PORTUGUESA e PADRES, 1974, ou O CONSTRUTOR DE ANJOS, 1978), mas também acompanhando ALEXANDRE E ROSA (Jorge Alves da Silva, João Botelho, 1978) e viajando em coletivo nas campanhas de alfabetização pós-25 de Abril de 1974, ao lado de Jorge Alves da Silva (O ALTO DO COBRE, UM PROJECTO DE EDUCAÇÃO POPULAR, 1976). Anos 1980 dentro, firmou-se a vontade de fazer cinema. A pretexto dos figurinos observou de perto os modos de fazer de Manoel de Oliveira e Werner Schroeter (FRANCISCA, O REI DAS ROSAS), referências absolutas, ou Eduardo de Gregorio (ASPERN, programado este mês no Ciclo "Paulo Branco ou a Vã Glória de Produzir") e Valeria Sarmiento (NOTRE MARIAGE). O gosto de ver filmes existia desde pequena, levada pela mãe, que lhe incutiu outras afinidades artísticas.
A cinefilia foi cultivada a contrapeso do país cerrado da ditadura do Estado Novo, em sessões de circuitos paralelos, onde viria a descobrir como “o cinema podia ser outra coisa” (decisivo EIKA KATAPPA), e nos ciclos gloriosos na Gulbenkian nos anos 1970, 80, programados por João Bénard da Costa, com quem logo aí viria a trabalhar.
A biografia da cineasta contempla, dos anos 1970 em diante, exposições (desde o encontro com António Palolo), teatro (Jean-Pierre Tailhade, Manuela de Freitas e José Mário Branco foram cruciais), ópera (com Tito Celestino da Costa), múltiplos trabalhos gráficos (cartazes, desdobráveis, catálogos e outras edições), a Cinemateca como morada profissional entre 1993 e 2022, onde foram surgindo filmes a pretexto da programação. E um espaço que marcou de múltiplas maneiras (ao correr de um ror de exposições, intervenções, instalações), e onde deixou marcas literais: o néon “Cinema” (1982), a pilha oscilante de latas “O Céu Não Pode Esperar” (2003), a montra do pátio do 39 da Barata Salgueiro com a colagem fotográfica que continua a contar uma história da Cinemateca.
O programa reúne todas as longas-metragens de Rita Azevedo Gomes (de O SOM DA TERRA A TREMER a FUCK THE POLIS), algumas das curtas, incluindo trabalhos menos vistos, como os filmes realizados nos anos 1990 no contexto do seu trabalho na Cinemateca (TEATRO E CINEMA, 25 DE ABRIL, 25 ANOS ou INTROMISSÕES; PARABÉNS MANOEL DE OLIVEIRA) e pequenos filmes realizados com o telemóvel em casa, nos confinamentos de 2020 (dois títulos da série de sete O AH! DAS COISAS). A constelação das escolhas de Rita Azevedo Gomes como “Realizadora Convidada” em 2026 é um mapa a ler em plano geral, sem perder de vista a pista das rimas, mais ou menos cifradas, mais ou menos (in)visíveis, com títulos específicos da própria obra (vão assinaladas nas notas), e afinidades de sempre (algumas brilham à superfície, outras nem tanto). Pierre Léon, um cúmplice desde, lá está, CORRESPONDÊNCIAS, estará em Lisboa para acompanhar as sessões do TRIO EM MI BEMOL (no qual está como ator, tal como Ado Arrieta, outro cineasta) e DANSES MACABRES, SQUELETTES ET AUTRES FANTAISIES (em que também surge em campo com os seus correalizadores). Rita Azevedo Gomes estará presente, pelo menos, nas sessões assinaladas. Haverá um livro, formato de bolso.
 
 
02/11/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Correspondências - Rita Azavedo Gomes | Realizadora Convidada

A PORTUGUESA
de Rita Azevedo Gomes
Portugal, 2018 - 136 min
 
02/11/2026, 22h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Correspondências - Rita Azavedo Gomes | Realizadora Convidada

MIDAREGUMO
“Nuvens Dispersas”
de Mikio Naruse
Japão, 1967 - 108 min
03/11/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Correspondências - Rita Azavedo Gomes | Realizadora Convidada

O AH! DAS COISAS – O PECADO DE JOÃO PALOLO, 18 DE MAIO DE 2020 | O SOM DA TERRA A TREMER
03/11/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Correspondências - Rita Azavedo Gomes | Realizadora Convidada

SHADOW OF A DOUBT
Mentira!
de Alfred Hitchcock
Estados Unidos, 1943 - 108 min
24/11/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Correspondências - Rita Azavedo Gomes | Realizadora Convidada

MIDAREGUMO
“Nuvens Dispersas”
de Mikio Naruse
Japão, 1967 - 108 min
02/11/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Correspondências - Rita Azavedo Gomes | Realizadora Convidada
A PORTUGUESA
de Rita Azevedo Gomes
com Clara Riedenstein, Marcello Urgeghe, Rita Durão, Pierre Léon, Alexandre Alves Costa, Adelaide Teixeira, Manuela de Freitas, Ingrid Caven
Portugal, 2018 - 136 min
legendado em português | M/12
com a presença de Rita Azevedo Gomes
A casa dele é a guerra. A casa dela é Portugal. A jovem e recém-casada esposa do senhor von Ketten está determinada a fazer do inóspito castelo dos von Ketten a sua morada. Mal regressam após o casamento em Portugal, ele parte para a guerra contra o Bispo de Trento e ordena-lhe que regresse ao seu país; ela recusase a partir. Onze anos decorrem, entre contendas e escaramuças, ele raramente vai a casa. Correm rumores à volta da presença daquela “estrangeira”, isolada no castelo sombrio, rodeada pelas aias e escravas moiras e na presença de um primo que vem de visita. Há quem diga que é uma herege… Na realidade, ela impõe uma vida própria: lê, canta, toca música, nada no rio, cavalga na floresta. Adota um lobo a que parece dedicar-se mais do que aos dois filhos – é o que sugere esta adaptação da novela Die Portugiesin de Robert Musil, numa atmosfera de finais da Idade Média com música de José Mário Branco. A figura de Ingrid Caven atravessa o filme com canções declamadas, ou recitando Walther von der Vogelweide pelos pátios do castelo. Tandaradai!
 
02/11/2026, 22h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Correspondências - Rita Azavedo Gomes | Realizadora Convidada
MIDAREGUMO
“Nuvens Dispersas”
de Mikio Naruse
com Yuzo Kayama, Yoko Tsukasa, Mitsuko Kusabue, Mitsuko Mori
Japão, 1967 - 108 min
legendado eletronicamente em português | M/12
O último Naruse, no CinemaScope característico de muitos dos seus filmes, detém-se na personagem de uma jovem grávida assombrada pela morte do marido num acidente de automóvel que a princípio recusa perdoar o condutor do veículo, mas que vê a sua relação com este último mudar depois de os dois se encontrarem por coincidência em Hokkaido. Conto de um amor impossível, é um dos filmes fundamentais de Naruse. “Desde muito novo que disse a mim mesmo que o mundo em que vivemos nos traía; e é este o pensamento que me ficou.” (Mikio Naruse) No programa, faz par com A PORTUGUESA. A apresentar em cópia digital.
 
03/11/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Correspondências - Rita Azavedo Gomes | Realizadora Convidada
O AH! DAS COISAS – O PECADO DE JOÃO PALOLO, 18 DE MAIO DE 2020 | O SOM DA TERRA A TREMER
O AH! DAS COISAS – O PECADO DE JOÃO PALOLO, 18 DE MAIO DE 2020
de Rita Azevedo Gomes
Portugal, 2020 – 5 min

O SOM DA TERRA A TREMER
de Rita Azevedo Gomes
com José Mário Branco, Manuela de Freitas, Miguel Gonçalves, Sara Marques, Duarte de Almeida, Paulo Rocha
Portugal, 1990 – 93 min

duração total da projeção: 98 min | M/12

Longinquamente baseado em Gide (Paludes) e em Hawthorne (Wakefield) é um filme sobre “um escritor que nunca escreveu nada” e que “sopra ao luar o hálito à geada” – desempenho inesquecível de José Mário Branco. O poema de Carlos Queiroz não é citado em O SOM DA TERRA A TREMER, mas o ambiente é esse, entre cartas escritas e jamais recebidas, livros com capas de corvos e acasos que não acontecem por acaso. Ficção dentro da ficção, histórias dentro de histórias, como essas caixinhas chinesas em que há sempre um fundo e outro fundo. Ou as duas margens do mesmo rio, para sempre laterais. Uma das obras mais inclassificáveis do nosso cinema que só podia suscitar – e suscitou – reações extremas. Genérico de António Palolo. A abrir a sessão, O PECADO DE JOÃO PALOLO, um de sete AH! DAS COISAS realizados por Rita Azevedo Gomes em casa nos períodos de confinamento que enfiaram boa parte da população dos quatro cantos do mundo entre quatro paredes por motivos pandémicos (primeira apresentação no espaço físico da sala da Cinemateca). O pretexto foi a “Sala de Projeção” imaginada pela então também confinada equipa de programação da Cinemateca. A apresentar em digital em ambos os casos.
 
03/11/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Correspondências - Rita Azavedo Gomes | Realizadora Convidada
SHADOW OF A DOUBT
Mentira!
de Alfred Hitchcock
com Joseph Cotten, Teresa Wright, Macdonald Carey, Hume Cronyn, Patricia Coolidge
Estados Unidos, 1943 - 108 min
legendado em português | M/12
Um homem suspeito de ser o misterioso “assassino de viúvas” (assombrado pela música de “A Viúva Alegre”) refugia-se numa pequena comunidade californiana onde tem família. Uma sobrinha fascinada pela sua personalidade torna-se alvo de misteriosos “acidentes”. Ela é Teresa Wright, o tio é Joseph Cotten, ambos se chamam Charlie, e é ele quem diz, “Sabes que o mundo é uma pocilga infeta? O mundo é um inferno”. Sob o sol americano e os meandros do crime, é dos mais negros filmes de Hitchcock, que muito o estimava e o construiu dirigindo-se aos alicerces da representação idealizada da sociedade americana. Uma obra-prima sobre a suspeita e a dúvida, cuja dimensão noir se encontra a descoberto na perversidade dos termos, na duplicidade omnipresente, nos segredos obscuros, no cinismo abissal ou nas sombras projetadas através de cortinas. No programa, faz par com O SOM DA TERRA A TREMER.
 
24/11/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Correspondências - Rita Azavedo Gomes | Realizadora Convidada
MIDAREGUMO
“Nuvens Dispersas”
de Mikio Naruse
com Yuzo Kayama, Yoko Tsukasa, Mitsuko Kusabue, Mitsuko Mori
Japão, 1967 - 108 min
legendado eletronicamente em português | M/12
O último Naruse, no CinemaScope característico de muitos dos seus filmes, detém-se na personagem de uma jovem grávida assombrada pela morte do marido num acidente de automóvel que a princípio recusa perdoar o condutor do veículo, mas que vê a sua relação com este último mudar depois de os dois se encontrarem por coincidência em Hokkaido. Conto de um amor impossível, é um dos filmes fundamentais de Naruse. “Desde muito novo que disse a mim mesmo que o mundo em que vivemos nos traía; e é este o pensamento que me ficou.” (Mikio Naruse) No programa, faz par com A PORTUGUESA. A apresentar em cópia digital.