CICLO
O Cinema de Margaret Tait em Diálogo, com Peter Todd, Charlotte Wells, Ute Aurand, Roberto Rossellini, Luke Fowler


Margaret Tait (1918-1999) é uma das figuras mais misteriosas do cinema de vanguarda do século XX. Longe dos centros culturais e intelectuais, Tait desenvolveu, ao longo de cinco décadas e de forma completamente independente, uma extensa e singular filmografia que pode ser comparada com a obra de Jonas Mekas ou Marie Menken. Na Escócia, entre Edimburgo e o arquipélago de Orkney (nasceu em Kirkwall e todo o seu trabalho preserva uma relação telúrica com esse território), o seu percurso é definido pela relação com os lugares e como estes são habitados (por figuras presentes e ausentes). Contudo, nada há de paisagístico nos seus filmes. O que lhe interessa é o particular, são as pessoas (e também os animais, as plantas e os objetos) que constituem um lugar, que o vivificam. Os seus filmes são dedicados às pequenas coisas, aos gestos precisos, às cores do jardim, à forma como se rasga a terra, como escorre a chuva, como soam os pássaros, como se percorre uma estrada, como se habita uma casa, como as crianças brincam no campo, como se desembrulha um rebuçado melado. Cineasta e poeta, a sua obra trabalha a partir de formulações como o filme-poema, o diário filmado, o documentário lírico, o filme-retrato e a animação abstrata feita diretamente em película. Rodados sempre (ou quase sempre) em 16mm, este Ciclo faz questão de – sempre que possível – apresentar os filmes no seu suporte original, preservando assim a sensibilidade material que a realizadora aprimorou ao longo dos anos.
Formada em medicina (prática que a sustentou – e que lhe garantiu a total independência financeira para produzir uma obra total descomprometida de qualquer preocupação comercial – das três dezenas de filmes que realizou, apenas três não foram autofinanciados), participou no esforço de Guerra como parte do Corpo Médico do Exército Real Britânico. Estudou cinema no Centro Sperimentale di Cinematografia, em Roma, entre 1950 e 1952 enquanto aluna estrangeira, tendo contactado de forma direta com o momento mais fervente do neorrealismo italiano. Os seus primeiros filmes traduzem o interesse pela liberdade e o espírito dissidente desse movimento, mas são já marcados por uma dimensão lírica (próxima da fábula) que em muito os distingue dos seus modelos. De regresso à Escócia, inicia um trabalho regular e metódico de filmar aquilo que a rodeia e as pessoas que ama: a sua mãe, o seu núcleo de amigos, os seus vizinhos. O cinema (como a poesia, os contos infantis e as histórias breves) integrava uma forma mais vasta de construir uma comunidade através do poder agregador da prática artística. Nesse sentido, fundou um pequeno festival de cinema gratuito, no seu atelier em Edimburgo, onde mostrava os seus filmes (e os filmes de vários amigos) entre comes e bebes – chamou-se Rose Street Film Festival e acolhia pequenos e graúdos. A ética e a estética de Tait poder-se-ia então sintetizar do seguinte modo: certamente não serei capaz de conhecer o mundo, mas sei que posso conhecer a minha rua, e quem vive nela, como ninguém.
Ao longo de mais de trinta filmes de curta-metragem, uma única longa ficcional realizada já depois de completar 70 anos (BLUE BLACK PERMANENT), três livros de poesia e dois de contos, projetos nunca realizados, filmes inacabados e textos dispersos, o universo de Margaret Tait é absolutamente fascinante (e ainda muito pouco conhecido). Desde os anos 1990 (e após uma interrupção de quase uma década na sua produção), o cinema de Tait tem despertado as mais variadas paixões. Os realizadores experimentais Ute Aurand e Peter Todd dedicaram vários anos das duas vidas a divulgar a obra de Tait – Aurand chegou mesmo a iniciar a corealização de um filme com Tait que ficou incompleto. Ao passo que o artista Luke Fowler se dedicou a revisitar o acervo da realizadora e daí produziu um belíssimo retrato da artista a partir dos seus materiais inacabados (BEING IN A PLACE – que foi primeiro uma exposição e depois um filme). A propósito, a jovem realizadora escocesa Charlotte Wells (AFTERSUN) afirmou mesmo que “daria tudo para me poder sentar com a Margaret Tait; ouvi-la falar do seu incansável compromisso de fazer o cinema que queria, um cinema modesto e livre. BEING IN A PLACE é o mais próximo que pude estar dessa conversa.” O Cinema de Margaret Tait em diálogo procura, precisamente, iniciar essa conversa cinéfila que coloca o cinema de Margaret Tait no centro de uma traficância de imagens, sons, palavras e afetos, ligando-a a outros cineastas (e teria feito todo o sentido incluir neste Ciclo L’ATALANTE, de Jean Vigo, um dos filmes preferidos da realizadora e uma clara influência).
Nesse sentido, desafiámos o realizador e curador Peter Todd a participar nesta “amena-cavaqueira”. É, em grande parte, por sua responsabilidade que o nome de Margaret Tait não está hoje esquecido. Ao longo das últimas duas décadas tem organizado diferentes retrospetivas da obra da realizadora (dentro e fora do Reino Unido), além de ter coligido textos (Subjects and Sequences: A Margaret Tait Reader, de 2004) e acompanhado a preservação e produção de novas cópias analógicas dos filmes. Estará na Cinemateca entre 29 e 31 de outubro para apresentar os filmes da cineasta escocesa, mas também para mostrar os seus próprios filmes que, na sua delicadeza mundana, são muito devedores do cinema de Margaret Tait.
29/10/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo O Cinema de Margaret Tait em Diálogo, com Peter Todd, Charlotte Wells, Ute Aurand, Roberto Rossellini, Luke Fowler

MARGARET TAIT & PETER TODD: A MEMÓRIA DAS COISAS
30/10/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo O Cinema de Margaret Tait em Diálogo, com Peter Todd, Charlotte Wells, Ute Aurand, Roberto Rossellini, Luke Fowler

PETER TODD & MARGARET TAIT: EXTERIOR-INTERIOR
 
31/10/2026, 16h00 | Sala Luís de Pina
Ciclo O Cinema de Margaret Tait em Diálogo, com Peter Todd, Charlotte Wells, Ute Aurand, Roberto Rossellini, Luke Fowler

MARGARET TAIT: DO INÍCIO AO FIM
 
31/10/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo O Cinema de Margaret Tait em Diálogo, com Peter Todd, Charlotte Wells, Ute Aurand, Roberto Rossellini, Luke Fowler

MARGARET TAIT & LUKE FOWLER: REFLEXÕES
31/10/2026, 22h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo O Cinema de Margaret Tait em Diálogo, com Peter Todd, Charlotte Wells, Ute Aurand, Roberto Rossellini, Luke Fowler

ROBERTO ROSSELLINI & MARGARET TAIT: A BRECHA DA MODERNIDADE
29/10/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
O Cinema de Margaret Tait em Diálogo, com Peter Todd, Charlotte Wells, Ute Aurand, Roberto Rossellini, Luke Fowler
MARGARET TAIT & PETER TODD: A MEMÓRIA DAS COISAS
Com a presença de Peter Todd
THE DRIFT BACK
de Margaret Tait
Reino Unido, 1956 – 10 min

A PLACE OF WORK
de Margaret Tait
Reino Unido, 1976 - 31 min

TAILPIECE
de Margaret Tait
Reino Unido, 1976 - 10 min

GARDEN PIECES
de Margaret Tait
Reino Unido, 1998 - 12 min

TOGETHER
de Peter Todd
Reino Unido, 2018 - 3 min, mudo

Duração total da projeção: 66 min
legendados eletronicamente em português | M/12

THE DRIFT BACK destoa da produção lírica e independente de Tait, uma vez que se trata de uma encomenda do Conselho Distrital de Orkney sobre a desertificação da região. Retrata o regresso de duas famílias de agricultores ao arquipélago que haviam abandonado – movimento de retorno que marcaria a vida da própria realizadora. A PLACE OF WORK é, justamente, o filme que a traz de volta a Orkney. “Um estudo pormenorizado de um jardim e de uma casa” filmado entre junho de 1975 e novembro do ano seguinte. Essa casa e esse jardim eram os da sua infância: casa e jardim que haviam ficado abandonados e dos quais se viria a desfazer pouco depois. TAILPIECE é, como o nome anuncia, um “prolongamento” de A PLACE OF WORK e descreve o processo de esvaziamento daquela casa cheia de memórias. Realizado duas décadas depois, quando Tait tinha já 80 anos, GARDEN PIECES é o seu filme derradeiro (morreria um ano depois), uma trilogia sobre jardins, mais soturna e grave onde – de novo – surgem as suas animações feitas diretamente na película. A sessão termina com um filme muito breve de Peter Todd, TOGETHER, ode aos jardins e às mesas em torno das quais se encontram os amigos. Todos os filmes a exibir em cópias 16mm.

30/10/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
O Cinema de Margaret Tait em Diálogo, com Peter Todd, Charlotte Wells, Ute Aurand, Roberto Rossellini, Luke Fowler
PETER TODD & MARGARET TAIT: EXTERIOR-INTERIOR
Com a presença de Peter Todd
AERIAL
de Margaret Tait
Reino Unido, 1974 - 4 min

OUT
de Peter Todd
Reino Unido, 1990 - 8 min

DIARY
de Peter Todd
Reino Unido, 1998 - 7 min

WHERE YOU HAD BEEN
de Peter Todd
Reino Unido, 2005 - 3 min
 
UNTITLED
de Peter Todd
Reino Unido, 2012 – 8 min, mudo

ROOM WINDOW SEA SKY
de Peter Todd
Reino Unido, 2014 – 3 min, mudo

THREE FILMS FROM THE ROOM
de Peter Todd
Reino Unido, 2015 – 10 min, mudo

PILLOW BOWL ROSE TREE
de Peter Todd
Reino Unido, 2023 - 16 min, mudo

Duração total da projeção: 59 min | M/12

Ao longo de uma obra dedicada aos elementos naturais, AERIAL é possivelmente o mais telúrico dos filmes de Margaret Tait: neve, chuva, terra, vento, fogo – vida e morte. É este o ponto de partida para a sessão dedicada ao trabalho de Peter Todd como realizador – ele que foi um dos responsáveis pela preservação e divulgação da obra de Tait ora como curador ora como organizador de publicações em torno da sua produção fílmica. Por ordem cronológica atravessamos mais de duas décadas concentradas no gesto de olhar as coisas (gesto esse muito devedor do cinema de Tait). OUT descreve a passagem entre interior e exterior num exercício que deforma o espaço; DIARY constrói-se como acumulação de fragmentos e observações; WHERE YOU HAD BEEN filma a ausência das coisas através da presença das palavras (escritas, nunca ditas); UNTITLED é um filme que se esconde no mistério do seu título e das suas imagens; ROOM WINDOW SEA SKY é uma reflexão sobre o aqui e agora a partir de uma janela; assim como THREE FILMS FROM THE ROOM estabelece ressonâncias entre três espaços distintos; por fim PILLOW BOWL ROSE TREE coleciona objetos, divisões e espaços exteriores numa encantadora sucessão de quadros. À exceção de OUT e PILLOW BOWL ROSE TREE, a exibir em cópia digital, todos os filmes serão exibidos em cópias 16mm.

31/10/2026, 16h00 | Sala Luís de Pina
O Cinema de Margaret Tait em Diálogo, com Peter Todd, Charlotte Wells, Ute Aurand, Roberto Rossellini, Luke Fowler
MARGARET TAIT: DO INÍCIO AO FIM
MY ROOM. VIA ANCONA 21
Reino Unido, 1951 – 3 min

BLUE BLACK PERMANENT
Reino Unido, 1992 - 84 min

filmes de Margaret Tait

Duração total da projeção: 87 min
legendado eletronicamente em português | M/12

Embora Tait tenha provavelmente filmado outras coisas antes, MY ROOM. VIA ANCONA 21 é, em muitos sentidos, o seu primeiro filme, o seu primeiro apontamento intimista de um espaço. O quarto e a morada do título referem-se ao apartamento no qual Tait viveu enquanto estudava em Roma (nome de rua que virá a inspirar a sua produtora, a Ancona Films). Entre esse momento iniciático e a sua primeira (e única) longa-metragem passaram 40 anos. BLUE BLACK PERMANENT é, ao mesmo tempo, a síntese de uma obra e a afirmação de uma revolução. Composta a partir de uma teia de flashbacks que cruzam três gerações de mulheres (Barbara que quer conhecer o seu passado, a mãe Greta e a avó Mary), o filme é uma “autobiografia abstrata”, onde Tait (à época já com 74 anos) se revê nas três personagens. Um filme de uma beleza desmesurada e de uma extraordinária audácia formal que precisa de ser (re) descoberto. BLUE BLACK PERMANENT foi a primeira longa-metragem de ficção realizada por uma mulher na Escócia. A exibir em cópias digitais.


 
31/10/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
O Cinema de Margaret Tait em Diálogo, com Peter Todd, Charlotte Wells, Ute Aurand, Roberto Rossellini, Luke Fowler
MARGARET TAIT & LUKE FOWLER: REFLEXÕES
Com a presença de Peter Todd
ON THE MOUNTAIN
de Margaret Tait
Reino Unido, 1973 - 35 min

BEING IN A PLACE:
A PORTRAIT OF MARGARET TAIT

de Luke Fowler
Reino Unido, 2023 - 60 min

FOR LUKE
de Peter Todd
Reino Unido, 2012 - 3 min

Duração total da projeção: 98 min
legendado eletronicamente em português | M/12

ON THE MOUNTAIN é um dos mais conhecidos filmes de Margaret Tait, uma reflexão sobre a mudança da (memória) no tempo através da evolução de Rose Street (em Edimburgo). Tait inclui na íntegra (pontas e tudo) um dos primeiros registos que fez quando ali montou o seu estúdio (o filme ROSE STREET de 1956) descrevendo, por contraste, a vida daquela rua: preto e branco e agora cor, anos 1950 e agora 70, juventude e agora meia-idade, comunidade e agora especulação imobiliária. Também Luke Fowler trabalha a memória de um lugar (Orkney) a partir da (re)utilização de imagens de Margaret Tait. BEING IN A PLACE apropria-se de material não montado, descartado ou incompleto filmado por Tait (assim como os seus cadernos não publicados). Tendo como ponto de partida o projeto (nunca concretizado) da realizadora, “Heartlandscape: Visions of Ephemerality and Permanence”, Fowler desenha um retrato de Tait e da sua relação com os lugares a partir dos seus próprios vestígios. Uma homenagem ao cinema e à postura estética e ética de Margaret Tait. Numa sessão de reflexos, terminamos com FOR LUKE, onde Peter Todd vira a câmara para o amigo: o observador é observado pelo observante. A exbir em cópias digitais.



 
31/10/2026, 22h00 | Sala M. Félix Ribeiro
O Cinema de Margaret Tait em Diálogo, com Peter Todd, Charlotte Wells, Ute Aurand, Roberto Rossellini, Luke Fowler
ROBERTO ROSSELLINI & MARGARET TAIT: A BRECHA DA MODERNIDADE
ONE IS ONE
de Margaret Tait
Itália, Reino Unido, 1951 - 33 min

VIAGGIO IN ITALIA
Viagem em Itália
de Roberto Rossellini
Itália, 1954 - 85 min

Duração total da projeção: 118 min
legendado em português | M/12

Em Roma, quando estudava no Centro Sperimentale di Cinematografia, Tait conheceu Roberto Rossellini. O que mais a impressionou foi o modo como o realizador trabalhava sem argumento. Em fevereiro de 1951, quando se preparava para rodar ONE IS ONE escreveu um pequeno ensaio sobre o autor italiano onde explicou que “os produtores têm as pessoas presas quando têm o guião escrito. Assim, no sentido de preservar a sua liberdade, [Rossellini] não escreve o guião. Mas investiga o ambiente, o tipo de personagens, etc.” Tait compreendeu tão singularmente o cinema de Rossellini que antecipou em três anos VIAGGIO IN ITALIA. É que também em ONE IS ONE um casal deambula por Roma separando-se e reencontrando-se por ação das ruínas do passado – tê-lo-á visto Rossellini? Independentemente disso, VIAGGIO IN ITALIA é, como escreveu Jacques Rivette na sua célebre Lettre sur Rossellini’ “uma brecha por onde todo o cinema moderno deve obrigatoriamente passar”. A exibir em cópias digitais.