CICLO
A Cinemateca com o DocLisboa: Lino Brocka - Matem o Artista Nacional


 “Quando era jovem, vi As Noites de Cabíria de Fellini e Brincadeiras Proibidas de René Clément. Chorei e chorei no cinema. Tendo conhecido as personagens tão intimamente quanto os membros da minha família, senti-me parte integrante da humanidade, senti-me vindicado. Assim, ver filmes transformou-se numa obsessão. Assisti e assisti a tantos filmes que tinha de os fazer. Queria tocar em estranhos que nunca vi e nunca veria. Queria fazer as pessoas chorarem no cinema, enchê-las de humanidade.” Foi assim que o cineasta mais influente da História do riquíssimo cinema filipino respondeu à questão “Porque fazes filmes?”, num suplemento em celebração dos 40 anos do Festival de Cannes. Ele lê essa resposta para a câmara nos primeiros minutos de signed: lino brocka (1987), documentário de Christian Blackwood. Apresentava-se, assim, numa altura em que olhava com alguma distância para as atrocidades cometidas pelo regime de Ferdinand Marcos e sua mulher, Imelda. Fala de emoções, por um lado, e de um compromisso inquebrantável com a realidade mais dura e escondida do seu país, por outro. Brocka não traiu as suas raízes e, no cinema, foi aprendendo a jogar o jogo duplo que lhe permitia permanecer ativo, entre o cinema e a televisão, e ao mesmo tempo participar cívica e politicamente na defesa dos mais fracos, as primeiras e principais vítimas do regime do ditador Ferdinand Marcos. Tratou-
-se de uma verdadeira “guerra semiótica” com o regime, para invocar as palavras do filipino Nick Deocampo. Brocka foi uma espécie de “Robin dos Bosques urbano”, como lhe chamou Pierre Rissient. Assim sendo, ensaiemos uma nova apresentação: eis um cineasta de um incansável inconformismo, fazendo do melodrama a sua principal “estratégia semiótica” para encarar e desmontar a teia tecida por uma ditadura sibilina e implacável.
O facto de recorrer ao melodrama como arma política permitiu que esta não fosse a luta de um artista “do sistema” enviando indiretas ao regime mas de costas voltadas para as classes menos instruídas. Brocka, vindo de um meio pobre, queria fazer um cinema sobre e, decisivamente, para as suas gentes. Foi, nesse aspeto, como sublinha Antonio Rodrigues, nas Folhas de Sala da Cinemateca Portuguesa, um cineasta que soube como poucos politizar o género do melodrama, tornando-o uma forma efetiva de ação política. Aqui radica uma parte importante da força dos seus filmes, pelo facto de o retrato social se deixar atravessar, como se fossem facas, por histórias excitantes, cheias de avanços e recuos, revelações inesperadas e tonitruantes desenlaces. Há uma dimensão espetacular no seu cinema, mas ela assenta os pés no chão ou na lama, quer dizer, na realidade dos bairros de lata, do crime e da corrupção vigentes na sociedade filipina. 
A tragédia e o melodrama estavam na massa do sangue do cinema de Brocka, porque também faziam parte do dia-a-dia da sociedade filipina, nestes anos de chumbo debaixo do jugo de Marcos. Mas há também um grito que se faz ouvir a cada novo “melodrama de luta” de Brocka: o direito a existir, com os seus heróis de todos os dias a afirmarem, por fim, “eu mereço mais”. Normalmente, os filmes acumulam tensão como panelas de pressão até que, perto do final, algo explode, invariavelmente produzindo um bruaá qualquer no auditório. É assim em alguns dos seus filmes mais canónicos, tais como maynila sa mga kuko ng liwanag/“manila, nas garras do néon” (1975) e insiang/insiang, o lírio de manila (1976), o título que o tornou conhecido na Europa graças à sua passagem na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, em 1978. E, claro, é assim também em bona, um extraordinário “filme de rostos” (Manuel S. Fonseca, na respetiva Folha de Sala) que põe frente-a-frente um ator de filmes comerciais caído em desgraça, interpretado por um dos seus atores favoritos, Phillip Salvador, e uma pobre fã que desenvolve por ele uma relação obsessiva, interpretada pela também produtora Nora Aunor, uma das maiores estrelas do cinema filipino. De um lado, a promessa de espetáculo e glória, do outro, a realidade pestilenta dos bairros de lata ladeados por montanhas de lixo. BONA, o filme de antecipação desta retrospetiva, exibido em julho passado, serve de emblema para aquilo que se encena e reencena, título após título, na extensa filmografia de Brocka: um conflito entre mundos, entre classes, entre luz e sombra, entre forças, a do drama “action packed” e trágico e a de engajadíssimas representações da paisagem social filipina.
Este programa, feito em conjunto com o Doclisboa e elaborado em diálogo com Khavn, artista multifacetado, estudioso e divulgador da obra de Brocka pelo mundo, apresentará uma amostra significativa de títulos sobreviventes e disponíveis do conjunto de mais de 60 obras realizadas pelo cineasta ao longo da sua intensa carreira, apenas interrompida por um acidente de automóvel que o vitimou precocemente aos 52 anos. Um programa repleto de títulos inéditos em Portugal que permitirá expandir e aprofundar o conhecimento deste cineasta cuja obra tem sido visitada nas nossas salas, desde o pequeno Ciclo que a ele foi dedicado em 1982, em que foi exibido precisamente o filme de antecipação deste programa, BONA (que agora repete), até à projeção de BAYAN-KO, na “Carta Branca a Augusto M. Seabra”, em junho de 2021. O Ciclo “Sine, Cinema das Filipinas: Nos Cem Anos do Cinema Filipino”, organizado em novembro de 2019, contou com dois títulos do cineasta: MAYNILA SA MGA KUKO NG LIWANAG e INSIANG. Salvo estes títulos e ainda JAGUAR (exibido na rubrica “O Que Quero Ver”, em 2011, e no Ciclo “Foco no Arquivo”, em 2013), todas as demais obras passam pela primeira vez nas nossas salas.
20/10/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o DocLisboa: Lino Brocka - Matem o Artista Nacional

BAYAN KO: KAPIT SA PATALIN
“Meu País: No Fio da Lâmina”
de Lino Brocka
Filipinas, 1984 - 110 min
 
20/10/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo A Cinemateca com o DocLisboa: Lino Brocka - Matem o Artista Nacional

WANTED: PERFECT MOTHER
de Lino Brocka
Filipinas, 1970 - 128 min
 
20/10/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o DocLisboa: Lino Brocka - Matem o Artista Nacional

SA KABILA NG LAHAT
“Apesar de Tudo”
de Lino Brocka
Filipinas, 1991 - 122 min
21/10/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o DocLisboa: Lino Brocka - Matem o Artista Nacional

MAYNILA SA MGA KUKO NG LIWANAG
“Manila nas Garras do Néon”
de Lino Brocka
Filipinas, 1975 - 123 min
21/10/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo A Cinemateca com o DocLisboa: Lino Brocka - Matem o Artista Nacional

ANG TATAY KONG NANAY
“O Meu Pai Que é a Minha Mãe”
de Lino Brocka
Filipinas, 1978 - 116 min
20/10/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o DocLisboa: Lino Brocka - Matem o Artista Nacional
BAYAN KO: KAPIT SA PATALIN
“Meu País: No Fio da Lâmina”
de Lino Brocka
com Phillip Salvador, Gina Alajar, Venchito Galvez
Filipinas, 1984 - 110 min
legendado em inglês e eletronicamente em português | M/12
Realizador politicamente engajado, firme opositor do governo de Ferdinand Marcos, Lino Brocka viu o seu passaporte ser confiscado e o seu filme censurado depois de regressar do Festival de Cannes, onde apresentou BAYAN KO e se insurgiu publicamente contra o regime então em vigor nas Filipinas. A história centra-se num trabalhador que, para garantir um futuro a si e à mulher grávida, aceita abdicar de alguns dos seus direitos, vendo, posteriormente, a vida virada do avesso. O problema do protagonista, como sublinhou Brocka revendo-se na via crucis da sua personagem, foi o ter seguido um interesse estritamente individual, sem se aperceber do problema maior que afligia a sociedade filipina como um todo.

A sessão repete no dia 29 às 19h00, na sala M.Félix Ribeiro.

20/10/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
A Cinemateca com o DocLisboa: Lino Brocka - Matem o Artista Nacional
WANTED: PERFECT MOTHER
de Lino Brocka
com Dante Rivero, Liza Lorena, Boots Anson-Roa
Filipinas, 1970 - 128 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Sessão com apresentação
Tudo começa aqui, neste drama familiar ligeiro, a fazer lembrar THE SOUND OF MUSIC, sobre um casal, Dante e Elsa, que contrata uma nova ama, Carla, para cuidar dos seus quatro filhos. Rapidamente se estabelece uma relação especial com “o novo elemento da família”, provocando rumores sobre um possível “caso” com Dante. Face à especulação, Carla decide sair de casa. No entanto, um acontecimento trágico fá-la-á voltar e numa nova qualidade, a de putativa “nova mãe” para os quatro petizes. Baseado num “komiks” filipino, tipo de literatura extremamente popular nas Filipinas, WANTED: PERFECT MOTHER obteve várias nomeações nos FAMAS, os “Óscares” locais. Foi o pontapé de saída para uma carreira com mais de sessenta títulos.

20/10/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o DocLisboa: Lino Brocka - Matem o Artista Nacional
SA KABILA NG LAHAT
“Apesar de Tudo”
de Lino Brocka
com Dina Bonnevie, Tonton Gutierrez, Nanette Medved
Filipinas, 1991 - 122 min
legendado eletronicamente em português | M/12
No seu último filme, Brocka aborda de maneira muito direta os meandros da política, mas pela faceta mais privada e sensacional: uma repórter torna-se objeto de notícia, depois de se envolver sexualmente com o Presidente da Câmara e ser exposta publicamente após o político sofrer um enfarte. Para piorar a situação, a protagonista terá de lidar com a fúria da dominadora esposa presidencial. Distinguido com um prémio FAMA pela atuação de Dina Bonnevie, este filme marca a conclusão da carreira do cineasta filipino, morto tragicamente na sequência de um desastre de automóvel quando ainda preparava dois títulos que foram finalizados por outros realizadores.

A sessão repete no dia 24 às 21h30, na sala M.Félix Ribeiro.

21/10/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o DocLisboa: Lino Brocka - Matem o Artista Nacional
MAYNILA SA MGA KUKO NG LIWANAG
“Manila nas Garras do Néon”
de Lino Brocka
com Hilda Koronel, Bembel Roco, Lou Salvador Jr.
Filipinas, 1975 - 123 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Brocka faz um cinema popular em todos os sentidos do termo: destinado às plateias populares e situado nos meios populares, como nos bairros de lata de Manila, de onde são originários muitos dos seus atores, que não têm nenhuma formação escolar e são provenientes de um grupo teatral criado pelo realizador. MAYNILA foi o filme que tornou internacionalmente conhecido o nome de Brocka. O filme retrata o cruel percurso de um rapaz que vem da província para Manila atrás da sua amada e vê-se diante da terrível luta que é a sobrevivência na metrópole. Um retrato da dura realidade da cidade com uma conclusão violenta, algo scorseseana, sendo que TAXI DRIVER é posterior a MAYNILA.

A sessão repete no dia 29 às 15h30, na sala M.Félix Ribeiro.

21/10/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
A Cinemateca com o DocLisboa: Lino Brocka - Matem o Artista Nacional
ANG TATAY KONG NANAY
“O Meu Pai Que é a Minha Mãe”
de Lino Brocka
com Dolphy, Niño Muhlach, Phillip Salvador, Marissa Delgado
Filipinas, 1978 - 116 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Sessão com apresentação
Em ANG TATAY KONG NANY, o “rei da comédia filipina” Dolphy interpreta um cabeleireiro drag chamado Coring que cuida de um bebé deixado por um antigo namorado, Dennis (Phillip Salvador). A criança cresce saudável e feliz na convicção de que Coring é seu pai. Tudo muda quando a mãe verdadeira (Marissa Delgado) aparece de repente para reclamar o filho de volta. Um retrato vívido e emotivo do mundo dos cabeleireiros e bares gay. Um Brocka mais enternecedor do que é habitual tirando partido do desempenho de Niño Muhlach, futuro ator de cinema e televisão, na pele da criança sob disputa.