CICLO
Noémia Delgado, o Cinema Singular


Noémia Delgado (1933-2016), a quem agora dedicamos uma curta, mas fundamental retrospetiva, é autora de uma obra pouco conhecida, que merece ser redescoberta. Curta, pois é curta a sua obra, dado que foram poucos os filmes que conseguiu realizar, entre os muitos projetos que deixou escritos, correspondendo a maior parte da sua filmografia (acabada) a títulos para a televisão. Disso dá conta o arquivo pessoal, que foi entregue à Cinemateca, e disso prevemos dar conta na edição de uma monografia que estamos a preparar, depois de uma exposição já realizada a partir desse arquivo. Em 2014 Noémia esteve pela última vez na Cinemateca a apresentar MÁSCARAS (1974-1976), no contexto de um Ciclo dedicado aos 40 anos do 25 de Abril, a sua primeira obra e um título de referência da filmografia portuguesa dos anos setenta, considerado por muitos a sua única longa-metragem (se excluirmos os filmes mais longos que realizou para a televisão), que a deu a conhecer como autora maior de um cinema etnográfico e poético. Em paralelo com um “cinema revolucionário”, que emergiu em abril de 1974 associado à urgência de registo do presente, no mesmo período surge todo um núcleo de filmes de cariz etnográfico, que interrogam as raízes míticas e simbólicas do imaginário português. Movimento muito expressivo na produção cinematográfica de então, que se relaciona com o trabalho desenvolvido pelo Centro Português de Cinema, cooperativa de que Noémia fez parte, e com a qual rompeu, em que sobressai um filme como MÁSCARAS, dada a sua sensibilidade invulgar.
Noémia Delgado nasceu em Angola e cresceu em Lourenço Marques, atual Maputo, onde começou a desenvolver o interesse pela escultura, fazendo parte do grupo de artes plásticas “Os Novos de Moçambique” e desenvolvendo amizade com outros artistas e filósofos como Fernando e José Gil, Rui Knopfli ou Hélder Macedo. Em 1955 deixou Moçambique, iniciando o curso de escultura na Faculdade de Belas Artes em Lisboa, que interrompeu. Passou por Paris e em 1957 casou com o escritor Alexandre O’Neill, que assina o texto de MÁSCARAS e de quem teve um filho, Alexandre Delgado O’Neill, fotógrafo que, como o pai, colaborou em vários dos filmes de Noémia. Começou a trabalhar em cinema em 1963, desenvolvendo grande proximidade com António da Cunha Telles, mas sobretudo com Paulo Rocha, com quem colaborou em vários filmes, como assistente de realização (OS VERDES ANOS, 1963) e depois como montadora – MUDAR DE VIDA (1966), SEVER DO VOUGA…UMA EXPERIÊNCIA” (1970), A POUSADA DAS CHAGAS (1971). Em 1971 estagiou com Jean Rouch em França, já depois de trabalhar na montagem de O PASSADO E O PRESENTE, de Manoel de Oliveira (1971), e mais tarde colaborou na montagem de TORRE BELA (1976), de Thomas Harlan. Em 1972, depois de ser responsável por vários segmentos dos CINE-ALMANAQUES (1967-1968), jornais de atualidades produzidos por Cunha Telles, realiza a curta-metragem MAFRA E O BARROCO EUROPEU, que conhece duas versões distintas.
Os filmes que sucederam a MÁSCARAS – que acabou numa rutura com o Centro Português de Cinema, que o produziu –, seriam invariavelmente realizados para a RTP. O LADRÃO DO PÃO (1979) faria parte da série “Contos Tradicionais Portugueses”, a que se seguiriam quatro documentários dedicados a escritores (“Palavras Herdadas”, 1977) e sete “Contos Fantásticos”, produzidos no início dos anos oitenta a partir de contos de autores portugueses, nomeadamente Júlio Dinis, Mário de Sá-Carneiro, Hugo Rocha, Eça de Queiroz, Álvaro Carvalhal, Fialho de Almeida e Aquilino Ribeiro. Tornava-se clara a relação de Noémia Delgado com a escrita e a literatura, sendo várias as suas crónicas publicadas na imprensa, as importantes entrevistas que fez a cineastas da sua geração, ou a poesia que escreveu, na sua maior parte inédita (em 1988 editou Jacarandá no Coração). Face à não obtenção de apoios para a realização dos muitos projetos para cinema, que com tenacidade escreveu e reescreveu ao longo dos anos, trabalhou muito para televisão, realizando e produzindo outras séries como “Arte Nova e Deco no Norte de Portugal” (1985) e “O Trabalho do Ouro e da Prata no Norte” (1987), ou outra dedicada a “Artistas”. QUEM FOSTE, ALVAREZ? (1988), documentário ficcionado sobre o pintor Dominguez Alvarez, foi o seu último filme.
Se o cinema de Noémia Delgado é aqui “conjugado no singular”, também o é pelo modo como, encontrando resistência na afirmação da sua prática enquanto cineasta, circula ao longo dos anos entre as várias artes – o cinema, a escultura, a pintura, o desenho e a escrita –, que se alimentam mutuamente.
 
02/10/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Noémia Delgado, o Cinema Singular

MÁSCARAS
de Noémia Delgado
Portugal, 1976 - 110 min
 
03/10/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Noémia Delgado, o Cinema Singular

EÇA DE QUEIROZ: NOTAS BREVES SOBRE +CAMILO CASTELO BRANCO + ALMEIDA GARRETT 1799-1854: ESCREVER É LUTAR +CAMILO PESSANHA: ENTRE OS DOIS ABISMOS
06/10/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Noémia Delgado, o Cinema Singular

O LADRÃO DO PÃO + A PRINCESINHA DAS ROSAS
07/10/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Noémia Delgado, o Cinema Singular

O VISCONDE + TIAGA OU A REENCARNAÇÃO DELICIOSA
08/10/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Noémia Delgado, o Cinema Singular

O DEFUNTO + O CANTO DA SEREIA
02/10/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Noémia Delgado, o Cinema Singular
MÁSCARAS
de Noémia Delgado
Portugal, 1976 - 110 min
M/12
Com a presença de Acácio de Almeida
MÁSCARAS é um exemplo maior de um cinema simultaneamente poético e etnográfico. Noémia Delgado filmou-o entre o Natal de 1974 e a quarta-feira de Cinzas de 1975 em Varge, Grijó da Parada, Bemposta, Podence, Rio de Onor e Bragança. Centrando-se nos caretos tradicionais de Trás-os-Montes, registou os rituais seculares do “Ciclo de inverno”, associados ao solstício e à iniciação à idade adulta. Ao registar um conjunto de tradições, cujo significado e rigor na representação se estavam a diluir progressivamente no tempo, reencenando mesmo algumas delas, Delgado fará muito pela recuperação e revitalização dessas mesmas tradições das “terras de feição ainda arcaizante do Nordeste Trasmontano”, como introduz a voz de Alexandre O’Neill. O som é de Philippe Costantini e a imagem de Acácio de Almeida (com José Reynès). Um filme que, dada a sua dimensão, se confunde com o nome da autora. Na sessão de dia 2 mostraremos MÁSCARAS no seu suporte original em 16mm, e na de dia 14 a cópia resultante de um recente restauro digital.

A sessão repete no dia 14 às 19h00, na sala M.Félix Ribeiro.

consulte a FOLHA da CINEMATECA aqui




 
03/10/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Noémia Delgado, o Cinema Singular
EÇA DE QUEIROZ: NOTAS BREVES SOBRE +CAMILO CASTELO BRANCO + ALMEIDA GARRETT 1799-1854: ESCREVER É LUTAR +CAMILO PESSANHA: ENTRE OS DOIS ABISMOS
EÇA DE QUEIROZ: NOTAS BREVES SOBRE
CAMILO CASTELO BRANCO
ALMEIDA GARRETT 1799-1854: ESCREVER É LUTAR
CAMILO PESSANHA: ENTRE OS DOIS ABISMOS
Portugal, 1977, 4 x 25 min
filmes de Noémia Delgado

duração total da projeção: 100 minutos | M/12

Uma sessão dedicada à série televisiva “Palavras Herdadas”, que Noémia Delgado votou explicitamente a escritores, e que remete para a sua relação com a literatura, sendo ela própria escritora e colaboradora assídua de várias publicações ao longo dos anos. São filmes raramente vistos, que envolvem momentos de ficção. Entre os muitos aspetos que poderíamos destacar, salientamos a presença do pintor Eduardo Batarda como ator no filme sobre Eça. Uma sessão a exibir nos formatos originais, em 16mm Double Band, em que foram filmados para a RTP em 1977. Primeiras apresentações na Cinemateca.



 
06/10/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Noémia Delgado, o Cinema Singular
O LADRÃO DO PÃO + A PRINCESINHA DAS ROSAS
O LADRÃO DO PÃO
com João Mota, Isabel Alves Costa
Portugal, 1979 – 30 min

A PRINCESINHA DAS ROSAS
com Rui Baptista, António Barahona, Ana d’Orey, Suzana Borges
Portugal, 1979 – 50 min

filmes de Noémia Delgado

duração total da projeção: 80 minutos | M/12

O LADRÃO DO PÃO é uma das primeiras obras de Noémia Delgado produzidas para a RTP, integrando a série “Contos Tradicionais Portugueses”, que conta com outros episódios importantes assinados por João César Monteiro e outros cineastas que começavam então a filmar. Inspirado por um poema de Alexandre O’Neill, tem como protagonista João Mota que, cansado de uma vida no mar, se envolve com uma padeira em terra. A música é de José Mário Branco, que editaria um álbum com o mesmo nome. Pouco depois Noémia inicia a sua série “Contos Fantásticos”. Trabalho de ficção em torno de um género raro em Portugal, parte de textos de sete escritores. A PRINCESINHA DAS ROSAS, o primeiro título da série, é baseado no conto homónimo de Fialho de Almeida e retrata a saga de Naíde, jovem nascida do amor de um pescador e de uma sereia, que é adotada por um rei sem descendentes para mais tarde regressar ao maravilhoso reino dos mares. A exibir em cópias em digital (O LADRÃO DO PÃO, numa primeira apresentação na Cinemateca) e em 16mm.


 
07/10/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Noémia Delgado, o Cinema Singular
O VISCONDE + TIAGA OU A REENCARNAÇÃO DELICIOSA
O VISCONDE
com Canto e Castro, Carlos de Azevedo, Filipe Crawford, João Bom, Maria Albergaria
Portugal, 1980 – 51 min

TIAGA OU A REENCARNAÇÃO DELICIOSA
com Isabel de Castro, Jacinto Ramos, Luísa Taveira
Portugal, 1981 – 43 min

filmes de Noémia Delgado

duração total da projeção: 94 minutos | M/12

O VISCONDE, terceiro título da série “Contos Fantásticos”, adapta o macabro conto de Álvaro do Carvalhal, Os Canibais, que em 1988 Manoel de Oliveira também trabalharia no seu filme-ópera OS CANIBAIS (1988). No centro está o misterioso Visconde de Aveleda, o seu segredo, e o fascínio que exerce sobre a jovem Margarida. TIAGA OU A REENCARNAÇÃO DELICIOSA é uma adaptação muito livre de um conto de Aquilino Ribeiro. Um conto rural sobre Tiaga (Isabel de Castro), uma anciã que, sozinha no mundo, sonha com o regresso dos seus verdes anos. Visitada por um feiticeiro, a senhora não perde a oportunidade para formular esse seu desejo. A exibir em cópias digitais, em primeira apresentação na Cinemateca.



 
08/10/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Noémia Delgado, o Cinema Singular
O DEFUNTO + O CANTO DA SEREIA
O DEFUNTO
com Adelaide João, João Guedes, José Caldeira, Argentina Rocha, Rosário Gonzaga
Portugal, 1981 – 60 min

O CANTO DA SEREIA
com João Guedes, Adelaide João, Dino Luz, Rui Torres, João Pinto Nogueira
Portugal, 1983 – 46 min

filmes de Noémia Delgado

duração total da projeção: 106 minutos | M/12

Baseado numa incursão de Eça de Queiroz pela literatura fantástica, O DEFUNTO passa-se em 1474 em Segóvia e acompanha a paixão de D. Rui de Cardenas pela formosa Dona Leonor, mulher de D. Alonso de Lara, que a mantém praticamente enclausurada em casa e não aceita a traição. O CANTO DA SEREIA é baseado num conto do escritor Júlio Dinis. Uma adaptação fílmica sobre o mito da sereia e a atração e o receio exercidos pelo mar junto dos pescadores. A exibir em cópias digitais, em primeira apresentação na Cinemateca.