CICLO
PAULO BRANCO OU A VÃ GLÓRIA DE PRODUZIR


Vamos dar início, neste mês, ao mais ciclópico ciclo que esta casa já organizou: um ciclo integral do produtor Paulo Branco, ou seja, um programa composto pelas cerca de 270 longas-metragens que produziu ao longo de mais de 45 anos, entre 1980 e a atualidade. O modelo definido para esta descomunal mostra é o seguinte: vamos apresentar dez filmes por mês ao longo de (pelo menos) dois anos e meio. A ordem de apresentação não é cronológica, nem tão pouco por realizador. Em cada mês serão escolhidos e misturados filmes das quase cinco décadas de trabalho que Paulo Branco já leva como produtor. Haverá também, com regularidade mensal, uma conversa mais desenvolvida com Paulo Branco (que, para além disso, e também na medida da sua disponibilidade, acompanhará algumas sessões), onde se falará dos filmes exibidos durante o mês em questão. No arranque deste longo ciclo que se prolongará até 2029 incluímos ainda um preâmbulo para ilustrar a primeira etapa de Paulo Branco no cinema – a de programador –, apresentando cinco dos filmes que exibiu no cinema Action République, em Paris.

 
O texto que se segue tem por base e cita expressamente a entrada da autoria de Maria João Madeira, escrita em 2008, para o Diccionario del Cine Iberoamericano : España, Portugal y América editado em 2011.

Paulo Branco nasce em Lisboa a 6 de junho de 1950. É criado com o gosto pelos cavalos (a sua outra grande “paixão”) em Alcochete. Entre 1967 e 1971 frequenta o curso de engenharia química do Instituto Superior Técnico (que abandona a três meses do termo da licenciatura), altura em que tem o primeiro contacto com o cinema, como assistente de produção no primeiro filme de António-Pedro Vasconcelos, PERDIDO POR CEM. Quando rompe com os estudos, vai para Londres onde vive de biscates e desenvolve a cinefilia. Encara esta estadia como uma antecâmara do sonho de Paris, onde chega em 1973. O acaso e uma madrugada de chuva fazem-no conhecer Frédéric Mitterrand. A convite deste torna-se programador das salas do Olympic-Entrepôt, Pagode e Artistic Voltaire, entre 1974 e 1976.
A 5 de outubro de 1977, abre a sua própria sala, o Action République, vocacionada como sala de arte e ensaio para mostrar a modernidade cinematográfica. É aqui que estabelece e consolida contactos com realizadores que mais tarde produz, como Biette e Ferreira Barbosa, mas também Ruiz, Wenders e Tanner. É também nesta sala que inicia a ligação a Oliveira, programando AMOR DE PERDIÇÃO depois do filme ter sido liquidado em Portugal na sequência da exibição da versão televisiva a preto e branco de seis episódios. O impacto do rasto crítico da sua passagem em Paris marca o princípio do reconhecimento internacional de Oliveira com um consequente reajuste de posições em Portugal face a ele.
Em 1979, com a necessidade de emergência de novos produtores para ultrapassar um impasse que favorecia correntes de defesa de um cinema comercial em Portugal, é a conjuntura da situação portuguesa a pô-lo no caminho da produção. A proposta chega-
-lhe do próprio Instituto Português de Cinema através de António da Cunha Telles. Funda a V.O. Filmes com António-Pedro Vasconcelos de que a primeira produção é o filme deste último, OXALÁ. Seguem-se outros três: SILVESTRE de Monteiro, CONVERSA ACABADA de Botelho e FRANCISCA de Oliveira 1981 é o ano da sua primeira produção francesa: LOIN DE MANHATTAN, de Jean-Claude Biette, que é rodado um fim-de-semana por mês durante cinco meses. Branco começava uma vida a partir daí dividida entre Portugal e França. O elenco dos realizadores com quem tem trabalhado é esclarecedor da sua atitude artística como produtor: além dos quatro realizadores já citados (só de Manoel de Oliveira, produziu, entre 1981 – FRANCISCA – e 2004 – O QUINTO IMPÉRIO –, 20 filmes), de cineastas portugueses produziu obras de – e sem sermos exaustivos – José Álvaro de Morais, Jorge Silva Melo, José Fonseca e Costa, Luís Filipe Rocha, Teresa Villaverde, José Nascimento, Pedro Costa, Fernando Lopes, Rita Azevedo Gomes, Margarida Gil, Sérgio Graciano… Lançou, ou seja, produziu as primeiras longas-metragens de João Mário Grilo, João Canijo, Mário Barroso, Marco Martins, Raquel Freire, Tiago Guedes…
No plano internacional, além de Raoul Ruiz, que é o realizador estrangeiro com quem manteve uma relação mais prolífica (16 filmes entre THE TERRITORY de 1981 e MISTÉRIOS DE LISBOA de 2010), esteve ligado quer a autores já consagrados como Jean-Claude Biette, Robert Kramer, Alain Tanner, André Téchiné, Wim Wenders, Werner Schroeter, Chantal Akerman, Jerzy Skolimowski, Andrzej Zulawski, Philippe Garrel e David Cronenberg, quer lançando ou impulsionando autores emergentes como Laurence Ferreira Barbosa, Cédric Khan, Sharunas Bartas, Olivier Assayas, Mathieu Amalric ou Paul Auster. Produziu também os primeiros de atores tão famosos como Michel Piccoli ou Fanny Ardant.
Produzindo simultaneamente filmes com meios de produção significativos à escala europeia, como LE SOULIER DE SATIN, NON, OU A VÃ GLÓRIA DE MANDAR de Oliveira ou LE TEMPS RETROUVÉ, de Ruiz e filmes de baixo orçamento, Paulo Branco – e será essa uma das maiores virtudes – constrói um sistema em que cada filme é um caso único, possibilitando a existência de obras individuais refletindo a singularidade dos universos dos realizadores com quem trabalha.
Em 1989, e após as dificuldades sentidas em distribuir as obras que produz, lança-se como distribuidor e exibidor. Começa com duas salas no Fórum Picoas, em Lisboa, e em meados dos anos 90, no seu auge, gere mais de 25 cinemas e cerca de 50 ecrãs espalhados por todo o país. Mais recentemente, a par da área de distribuição, “regressou” como programador nas salas que detém, em particular o cinema Nimas, em Lisboa, e o Teatro do Campo Alegre, no Porto.
“O mais europeu dos produtores”, Paulo Branco é, desde 2007, diretor do LEFFEST, festival de cinema fundado por si.
 
 
30/09/2026, 21h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo PAULO BRANCO OU A VÃ GLÓRIA DE PRODUZIR

BRANCA DE NEVE
de João César Monteiro
Portugal, 2000 - 72 min
 
30/09/2026, 21h00 | Sala M. Félix Ribeiro
PAULO BRANCO OU A VÃ GLÓRIA DE PRODUZIR
BRANCA DE NEVE
de João César Monteiro
com as vozes de Maria do Carmo, Reginaldo da Cruz, Ana Brandão, Luis Miguel Cintra, Diogo Dória, João César Monteiro
Portugal, 2000 - 72 min
M/12
A BRANCA DE NEVE de João César Monteiro adapta uma peça de Robert Walser que retoma o conto dos irmãos Grimm: salva pelo beijo do Príncipe ao sono das trevas, Branca de Neve confronta a madrasta e o caçador que esta incita a apunhalar a enteada. João César Monteiro deixou a tela quase sempre negra, com raras imagens de outra cor e as imagens sonoras (as vozes dos atores). Na altura deu brado e foi o escândalo, mas já não vale a pena voltar a ele. Vale a pena é voltar a ver BRANCA DE NEVE, outra vez e outra vez, no escuro da sala, no quarto escuro.

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