CICLO
MARTIN SCORSESE, ENTRE A RAIVA E O SILÊNCIO


Se hoje há um realizador que não careça de apresentações demoradas, ele é Martin Scorsese. “Toda a gente” sabe quem é Martin Scorsese, várias gerações cresceram com os seus filmes, e entre esses filmes – são já mais de 60 anos de atividade – estão alguns dos títulos que se instalaram com mais força no imaginário cultural das últimas décadas, muito além do universo “cinéfilo”. TAXI DRIVER, RAGING BULL, GOODFELLAS, e possivelmente ainda outros, são filmes inscritos numa memória coletiva básica e geracionalmente transversal, e continuam a dizer tanto a quem os descobre agora como a quem os descobriu na época em que estrearam. É um realizador-estrela como não há muitos, aquele tipo de realizador que contraria a ideia de que o “grande público” vai ao cinema por causa dos atores e não por causa dos autores dos filmes, só comparável, na sua geração do cinema americano, a Steven Spielberg (considerando que a “estrela” de Francis Ford Coppola terá empalidecido um pouco nas últimas décadas). Mas no caso de Scorsese, foi a sua própria personalidade que se tornou popularíssima, reverenciada pelos seus pares e pelos espectadores, e o seu trabalho em prol da divulgação e redescoberta da História do cinema, quer nos vários filmes e séries a ela dedicadas que Scorsese dinamizou, quer no precioso trabalho de apoio ao restauro de muitos filmes oriundos de cinematografias ditas “periféricas” desenvolvido pela sua Film Foundation, fez dele, também nesse campo, uma referência transversal.
Aos 83 anos, em plena atividade, Martin Scorsese está, portanto, no “topo do mundo”, para usar uma expressão (tirada do WHITE HEAT de Raoul Walsh) que é cara à sua cinefilia. Ora, são estes realizadores, aqueles que julgamos conhecer muito bem, os que frequentemente guardam mais surpresas. A convicção de que “já vimos” é tão forte que se corre o risco de na verdade “não se ter visto”, ou “não se ter visto bem”, ou sobretudo não se ter atualizado a “visão”. Numa obra com a dimensão e a regularidade pendular da de Scorsese, esse risco aumenta. É aí que nasce este Ciclo: “toda a gente” conhece os filmes de Martin Scorsese; mas será que os conhece mesmo? E será que sabemos “ligar” os títulos avulsos, mesmo esses mais famosos, uns aos outros, e encontrar um fio que unifique a obra para além das aparências e das superfícies? Em que é que um filme recente, por exemplo KILLERS OF THE FLOWER MOON, ilumina ou obscurece títulos mais antigos (por exemplo, MEAN STREETS), e em que medida pode ser iluminado ou obscurecido por eles?
Esta é a virtude da visão de conjunto proporcionada por uma retrospetiva de autor: seguimos um fio, que pode ter ramificações e descontinuidades (e a obra de Scorsese tem-nas certamente: repare-se, por exemplo, em como o universo italo-americano, tão presente nos filmes dos anos 1970, e quase um ex-libris do cinema de Scorsese, praticamente desapareceu a partir dos anos 1990), e ficamos a sós com o que esse fio tem (ou não tem) para nos dizer, sobre o cinema e sobre o mundo. Pensamos que é a altura certa para fazer esta operação com o cinema de Scorsese (tanto mais que a Cinemateca não lhe dedicava um ciclo específico desde 1991), reunindo toda a ficção que ele dirigiu, mais os documentários feitos para exibição em sala de cinema e uma seleção do trabalho documental que, sobretudo nos últimos anos, desenvolveu para a televisão ou para as plataformas de “streaming”. Sem querer impor conclusões ao espectador, antevemos um percurso mais surpreendente do que o prometido pelas ideias feitas sobre o cinema de Scorsese, normalmente redutoras porque excluem as contradições – como essa antítese crucial, que perpassa toda a obra do realizador, entre a “raiva” (a dos RAGING BULLS e afins), física, expressiva e espetacular, e a ânsia por um silêncio espiritual, e que muitas vezes, se não sempre, são permutáveis, e se colocam uma no lugar, ou como máscara uma da outra. Entre esta raiva e este silêncio, vamos então à obra de Martin Scorsese.
 
01/09/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo MARTIN SCORSESE, ENTRE A RAIVA E O SILÊNCIO

GOODFELLAS
Tudo Bons Rapazes
de Martin Scorsese
Estados Unidos, 1990 - 146 min
 
01/09/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo MARTIN SCORSESE, ENTRE A RAIVA E O SILÊNCIO

MEAN STREETS
Os Cavaleiros do Asfalto
de Martin Scorsese
Estados Unidos, 1973 - 110 min
01/09/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo MARTIN SCORSESE, ENTRE A RAIVA E O SILÊNCIO

WHAT’S A NICE GIRL LIKE YOU DOING IN A PLACE LIKE THIS | IT’S NOT JUST YOU, MURRAY! | WHO’S THAT KNOCKING AT MY DOOR
02/09/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo MARTIN SCORSESE, ENTRE A RAIVA E O SILÊNCIO

BOXCAR BERTHA
Uma Mulher da Rua
de Martin Scorsese
Estados Unidos, 1972 - 92 min
02/09/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo MARTIN SCORSESE, ENTRE A RAIVA E O SILÊNCIO

ALICE DOESN’T LIVE HERE ANYMORE
Alice Já Não Mora Aqui
de Martin Scorsese
Estados Unidos, 1975 - 110 min
01/09/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
MARTIN SCORSESE, ENTRE A RAIVA E O SILÊNCIO
GOODFELLAS
Tudo Bons Rapazes
de Martin Scorsese
com Robert De Niro, Ray Liotta, Joe Pesci, Lorraine Bracco, Paul Sorvino
Estados Unidos, 1990 - 146 min
legendado eletronicamente em português | M16
Um dos mais conhecidos e importantes filmes de Martin Scorsese, de novo abordando um tema frequente na sua obra, o mundo marginal ou, mais precisamente, as organizações mafiosas num bairro de Brooklyn, numa adaptação do livro de Nicholas Pileggi e das memórias de um “arrependido”, Henry Hill. É um dos mais perfeitos carrosséis de Scorsese, que como noutras ocasiões (por exemplo, TAXI DRIVER), sinaliza a dissociação, a impossibilidade de acompanhar as personagens no plano moral, através do riso delas – sempre, ou quase sempre, obsceno, alarve.

A sessão repete no dia 11 às 21h30, na Sala M. Félix Ribeiro

consulte a FOLHA da CINEMATECA aqui






 
01/09/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
MARTIN SCORSESE, ENTRE A RAIVA E O SILÊNCIO
MEAN STREETS
Os Cavaleiros do Asfalto
de Martin Scorsese
com Robert De Niro, Harvey Keitel, David Proval, Amy Robinson, Richard Romanus
Estados Unidos, 1973 - 110 min
legendado em francês e eletronicamente em português | M/12
Em vários sentidos MEAN STREETS é o Scorsese “seminal”, que lança para a rua (propriamente dita) os dados essenciais do seu trabalho futuro, sobretudo do seu trabalho ao longo do resto da década, até ao princípio dos anos 80. A raiz do filme é uma espécie de memória distorcida (como “distorcida” é a personagem principal, o hiper-neurótico Harvey Keitel) da juventude de Scorsese em Little Italy, os traumas católicos a coexistirem com a marginalidade social, as zaragatas de rua, os gangs mais ou menos à margem da lei, a relação com as mulheres marcada por uma mistura de preconceitos religiosos e uma misoginia de rejeitado. Já cheio de “rock and roll” na banda sonora (a primeira sequência do filme traz logo os Rolling Stones, que Scorsese mais tarde filmaria em carne e osso), é o filme onde Scorsese mergulha na mise en scène como exercício de euforia e violência sempre vorazes – como nas cenas de zaragata geral, as melhores cenas do género desde as célebres cenas “corais” de pancadaria de John Ford.


A sessão repete no dia 04 às 15h30, na Sala M. Félix Ribeiro

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01/09/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
MARTIN SCORSESE, ENTRE A RAIVA E O SILÊNCIO
WHAT’S A NICE GIRL LIKE YOU DOING IN A PLACE LIKE THIS | IT’S NOT JUST YOU, MURRAY! | WHO’S THAT KNOCKING AT MY DOOR
WHAT’S A NICE GIRL LIKE YOU DOING IN A PLACE LIKE THIS
de Martin Scorsese
com Zeph Michaelis, Mimi Stark
Estados Unidos, 1963 – 9 min

IT’S NOT JUST YOU, MURRAY!
de Martin Scorsese
com Ira Rubin, Sam de Fazio
Estados Unidos, 1964 – 15 min

WHO’S THAT KNOCKING AT MY DOOR
de Martin Scorsese
com Zina Bethune, Harvey Keitel, Ann Collette
Estados Unidos, 1967 – 86 min

Duração total da projeção: 110 min / legendados eletronicamente em português | M/14
Uma sessão com “o princípio de Martin Scorsese”, que tinha 21 anos quando rodou WHAT’S A NICE GIRL LIKE YOU DOING IN A PLACE LIKE THIS, feito como um exercício para escola de artes nova-iorquina que frequentava, e sob o feitiço do OTTO E MEZZO de Federico Fellini, que tinha acabado de estrear em Nova Iorque – história de um escritor obcecado com um quadro (a rapariga mencionada no título é a que o vai distrair da obsessão), revela à primeira uma preocupação com as angústias ligadas à criação artística. IT’S NOT JUST YOU, MURRAY! também foi feito em ambiente escolar (agora, a New York University), e marca o primeiro encontro de Scorsese com um universo a que voltaria muitas vezes, a Máfia (o protagonista é um gangster a remoer a crise de meia idade). A primeira longa, WHO’S THAT KNOCKING AT MY DOOR, centra-se num domínio, a intimidade conjugal, que está sempre presente no cinema de Scorsese, embora normalmente rodeado de coisas à volta, enquanto aqui o foco é total na relação do casal formado por Harvey Keitel e Zina Bethune. Também é o filme do encontro de Scorsese com Keitel (em estreia absoluta como ator de cinema), tal como WHAT’S A NICE GIRL... fora o encontro do realizador com uma personalidade que esteve sempre,
sempre, na órbita do seu cinema, a montadora Thelma Schoonmaker.

A sessão repete no dia 8 às 19h00, na Sala M. Félix Ribeiro

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02/09/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
MARTIN SCORSESE, ENTRE A RAIVA E O SILÊNCIO
BOXCAR BERTHA
Uma Mulher da Rua
de Martin Scorsese
com Barbara Hershey, David Carradine, Barry Primus
Estados Unidos, 1972 - 92 min
legendado eletronicamente em português | M/14
Como BONNIE AND CLYDE, um olhar sobre os anos 30 da Depressão, com um par de protagonistas inspirado nos gangsters do filme de Arthur Penn. O jovem Martin Scorsese fazia-se notar, numa produção “rápida” (21 dias de rodagem) para a “fábrica” de Roger Corman onde se reconhecem já, minimamente estabilizados, os traços principais do seu estilo áspero e nervoso.

A sessão repete no dia 8 às 19h30, na Sala Luis de Pina

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02/09/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
MARTIN SCORSESE, ENTRE A RAIVA E O SILÊNCIO
ALICE DOESN’T LIVE HERE ANYMORE
Alice Já Não Mora Aqui
de Martin Scorsese
com Ellen Burstyn, Kris Kristofferson, Harvey Keitel, Jodie Foster
Estados Unidos, 1975 - 110 min
legendado eletronicamente em português | M/12
A quarta longa-metragem de Martin Scorsese) encerra o que pode ser considerado o “primeiro período” do seu trabalho. ALICE DOESN’T LIVE HERE ANYMORE, um dos melhores exemplos da Nova Hollywood e uma bonita crónica sobre as personagens frustradas do “sonho americano”, é a história de uma  mulher que, ao enviuvar do marido, resolve retomar a sua antiga carreira de cantora enquanto luta contra as dificuldades em sustentar-se a si e ao seu filho. Um filme centrado em Ellen Burstyn (que recebeu o Oscar de Melhor Atriz por este filme) e inspirado na liberdade e improvisação de John Cassavetes, um dos mentores de Scorsese.

A sessão repete no dia 04 às 19h30, na Sala Luis de Pina

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