CICLO
Mário Jorge Torres, tudo o que o Cinema permite


Isto é só para dizer – os cinco filmes agora programados para lembrar Mário Jorge Torres (1949-2025) podiam ser inúmeros porque desmedida, e lata, era a sua relação com o cinema desde a tenra idade em que se tornou espectador das salas de bairro lisboetas. Aconteceu cedo, com intensidade máxima, antes da descoberta de Audrey Hepburn, em quem viu uma musa, antes de um filme de Ingmar Bergman, sugerido por Virgílio Ferreira, o ter feito olhar o cinema por outro prisma, antes de ver-ler verdadeiramente os filmes de Howard Hawks, antes de fazer suceder os “filmes de capa e espada” da infância pelo melodrama como género superlativo. Foi na elevação emocional do melodrama que Mário Jorge Torres encontrou a possibilidade da catarse e a identificação com a ideia do patético autoconsciente – ele dizia assim. O cinema clássico americano era uma preferência declarada, mas os filmes que via, que ensinava, sobre os quais escrevia, vinham de um campo sem baias que não evidentes desastres ou embirrações pessoais. Nesse caso, tão febris, ou delirantes, como as paixões que desencadeavam idêntico excesso e sentido de humor em adjetivadas tiradas cinéfilas.
Leitor e espectador compulsivo, Mário Jorge Torres descrevia-se a si mesmo como um “extrovertido tímido”, uma pessoa que podia dizer, “não vi o livro, mas li o filme” – dito espirituoso recorrente e título da edição da qual foi responsável na Húmus em 2008. Assim fez o caminho paralelo da investigação e ensino de literatura e cinema, e o da crítica, marcando gerações de alunos e cinéfilos com a transmissão do cinema que conhecia e defendia a fundo. Com conhecimento, curiosidade, entusiasmo ou furor.
Licenciou-se em Filologia Germânica, foi mestre e doutor em Literatura e Cultura Norte-americanas, com teses sobre os poetas Hart Crane e William Carlos Williams. De 1974 a 2017, o seu percurso académico centrou-se na literatura, arte e cultura americanas. Na Faculdade de Letras de Lisboa, onde lecionou múltiplas cadeiras, foi fundamental na criação e estruturação de uma área de estudos fílmicos a partir dos anos 1990. Entre os livros que publicou ou organizou conta-se uma monografia de Manoel de Oliveira. Além dos escritos académicos, publicou continuadamente como crítico de cinema no Público (1991-2011). Foi neste jornal que o obituário o descreveu como “o crítico que lia os filmes; devagar”. No princípio da segunda década do século XXI, coincidindo com o momento de aposentação, foi-lhe devolvido um agradecimento a mais de trinta vozes com a publicação de um volumoso Imitações da Vida – Cinema Clássico Americano, Ensaios para Mário Jorge Torres (coordenação de José Bértolo, Fernando Guerreiro, Clara Rowland, 2020).
Na Cinemateca, participou da vida da programação ao longo dos muitos anos de espectador assíduo das sessões, tal como nas conversas de café tantas vezes associadas, e foi autor de textos importantes em catálogos dedicados a Douglas Sirk, Rouben Mamoulian, Pier Paolo Pasolini ou John Huston. Numa memorável iniciativa de 2019, foi programador-conferencista de uma edição das “Histórias do Cinema” intitulada “O Melodrama: do Trágico ao Operático” que abarrotou de pessoas e alegria. Os cinco filmes deste pequeno ciclo de homenagem são apresentados em 35 mm. As cinco primeiras palavras deste texto correspondem ao início do poema mais popular de William Carlos Williams
 
04/07/2026, 18h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Mário Jorge Torres, tudo o que o Cinema permite

ALL THAT HEAVEN ALLOWS
O Que o Céu Permite
de Douglas Sirk
Estados Unidos, 1955 - 89 min
 
07/07/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Mário Jorge Torres, tudo o que o Cinema permite

SOME CAME RUNNING
Deus Sabe Quanto Amei
de Vincente Minnelli
Estados Unidos, 1958 - 136 min
 
08/07/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Mário Jorge Torres, tudo o que o Cinema permite

VALE ABRAÃO
de Manoel de Oliveira
Portugal, 1993 - 203 min
14/07/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Mário Jorge Torres, tudo o que o Cinema permite

LOST IN TRANSLATION
Lost in Translation – O Amor É Um Lugar Estranho
de Sofia Coppola
Estados Unidos, Japão, 2003 - 102 min
15/07/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Mário Jorge Torres, tudo o que o Cinema permite

AN AFFAIR TO REMEMBER
O Grande Amor da Minha Vida
de Leo McCarey
Estados Unidos, 1957 - 114 min
04/07/2026, 18h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Mário Jorge Torres, tudo o que o Cinema permite
ALL THAT HEAVEN ALLOWS
O Que o Céu Permite
de Douglas Sirk
com Jane Wyman, Rock Hudson, Agnes Moorehead, Conrad Nagel
Estados Unidos, 1955 - 89 min
legendado em castelhano e eletronicamente em português | M/12
projeção seguida de conversa com Clara Rowland, Francisco Frazão, José Bértolo
É um dos grandes Douglas Sirk dos anos 1950, e de modo consciente e assumido, um objeto do mais extremo artifício. Em ALL THAT HEAVEN ALLOWS Jane Wyman é uma viúva, ainda jovem, numa pequena cidade da Nova Inglaterra, e Rock Hudson, um jardineiro cerca de quinze anos mais novo, torna-se seu amante. A oposição dos filhos da viúva e dos habitantes da cidade não inibe que o amor acabe por triunfar, num irónico “happy end”. “Sendo um homem extremamente culto [Sirk diz…] que o melodrama é a tragédia possível da classe média. Aquilo que a tragédia era para o contexto antigo, agora só pode existir no melodrama.” (Mário Jorge Torres, Imitações da Vida, 2020) ALL THAT HEAVEN ALLOWS pode ser visto como “um olhar do outro lado do espelho do kitsh dos anos 1950” (Mário Jorge Torres, Douglas Sirk, 2002).

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07/07/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Mário Jorge Torres, tudo o que o Cinema permite
SOME CAME RUNNING
Deus Sabe Quanto Amei
de Vincente Minnelli
com Frank Sinatra, Dean Martin, Shirley MacLaine, Martha Hyer, Arthur Kennedy
Estados Unidos, 1958 - 136 min
legendado em português | M/12
Um dos mais belos filmes da história do cinema cruza o classicismo e a modernidade. Adaptado de um romance de James Jones, SOME CAME RUNNING conta a história de um soldado escritor desmobilizado, que regressa à terra natal, ligando se a uma prostituta e a um jogador. Shirley MacLaine no papel da sua vida. “Na apoteose da perdição, antes do belíssimo travelling sobre o rio, na cena do funeral, os homens revelam a sua impotência: Sinatra é ‘possuído’ por uma morta, o assassino fica como um zombie, Dean Martin é, ao longo de todo o filme, um fantasma de um mundo passado, conservado em álcool. Resta a que passou demasiado depressa para se aperceber que o seu desejo de amar não era daquele mundo.” (Mário Jorge Torres, “Amores de Perdição”, Público.)

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08/07/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Mário Jorge Torres, tudo o que o Cinema permite
VALE ABRAÃO
de Manoel de Oliveira
com Leonor Silveira, Luis Miguel Cintra, Isabel Ruth
Portugal, 1993 - 203 min
M/12
Um dos mais célebres filmes de Manoel de Oliveira, inspirado na Madame Bovary de Flaubert, tal como foi recriada por Agustina Bessa-Luís no romance homónimo, com Leonor Silveira no papel de Ema. VALE ABRAÃO é um filme “sensualista”, dominado pelas cores, os perfumes, as atmosferas – e pela presença majestosa do rio Douro. “Algures entre a rarefação de Dreyer e a grandiloquência operática de Visconti [… este filme] não abre mão da sua lúcida modernidade contrastante […]. Desenvolvimento e contraponto de filmes anteriores, VALE ABRAÃO exibe a sua sublimidade como um traço distintivo, mas também como um exercício de autoanálise. E, aqui, a função do enquadramento, a noção de um tempo sem tempo, possui um fundamental papel incontornável.” (Mário Jorge Torres, Manoel de Oliveira, ed. Cahiers du cinéma, Público, 2008)

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14/07/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Mário Jorge Torres, tudo o que o Cinema permite
LOST IN TRANSLATION
Lost in Translation – O Amor É Um Lugar Estranho
de Sofia Coppola
com Scarlett Johansson, Bill Murray, Akiko Takeshita, Giovanni Ribisi, Anna Faris
Estados Unidos, Japão, 2003 - 102 min
legendado em português | M/12
Foi a segunda longa-metragem de Sofia Coppola, que se estreou quatro anos antes com THE VIRGIN SUICIDES. Em LOST IN TRANSLATION (o primeiro com argumento próprio da realizadora) um ator solitário e tranquilamente aborrecido, uma rapariga curiosamente enfastiada, ambos americanos e em momento de crise pessoal, cruzam-se num hotel de luxo em Tóquio onde partilham noites de insónia e do que se perde na tradução. Uma comédia de perda, romantismo, karaoke no momento “musical” em que Bill Murray (para quem Sofia escreveu a personagem) cantarola More Than This dos Roxy Music e com Scarlett Johansson em igual estado de graça. “Obra-prima.” (Mário Jorge Torres, Público, 2004)

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15/07/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Mário Jorge Torres, tudo o que o Cinema permite
AN AFFAIR TO REMEMBER
O Grande Amor da Minha Vida
de Leo McCarey
com Cary Grant, Deborah Kerr, Richard Denning, Neva Patterson, Cathleen Nesbitt
Estados Unidos, 1957 - 114 min
legendado em português | M /12
“Beauty makes me cry.” Deborah Kerr e Cary Grant e interpretam as personagens que couberam a Charles Boyer e Irene Dunne na primeira versão deste filme, que McCarey dirigiu em 1939, LOVE AFFAIR, e que, como AN AFFAIR TO REMEMBER, se tornou um filme de culto. Trata-se de uma das mais românticas histórias de amor que o cinema nos mostrou e que até hoje não mais deixou de ser citada ou filmada em novas versões. “A resistência do melodrama tem muito que ver […] com o facto de jogar com as emoções e os sentimentos, que são universais, e talvez por isso possua uma ‘resiliência’ que os outros géneros não têm”. (Mário Jorge Torres, Imitações da Vida, 2020)

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