CICLO
Realizadoras Britânicas: do Esforço de Guerra ao Free Cinema (1940-1964)


A década de 1940 e, em particular, os anos da Segunda Guerra Mundial, correspondem ao período de maior afluxo às salas de cinema na história do Reino Unido. Talvez tenha sido uma forma de escapismo, mas o certo é que esses anos marcaram a centralidade do cinema na vida cultural britânica e no seu imaginário. Depois surgiria a televisão que, aos poucos, acabaria por destronar a experiência em sala. Esse período áureo na exibição teve equivalente na produção. O número de filmes (nomeadamente filmes de pendor propagandístico) disparou e esse aumento teve como consequência um alargamento das equipas que trabalhavam nos estúdios ingleses. Como muitos homens haviam sido recrutados, foram as mulheres que (como em muitas outras indústrias) ocuparam os seus lugares, assumindo posições de técnicas e artísticas que lhes haviam estado em grande medida vedadas.
O resultado: ao longo da década de 1940 e grande parte da década seguinte, o Reino Unido foi o país do mundo que mais empregou mulheres no cinema e, em consequência, que teve mais filmes realizados por mulheres. O presente Ciclo Realizadoras Britânicas: do Esforço de Guerra ao Free Cinema (1940-1964) foca-se em exclusivo nos filmes realizados por mulheres neste país, destacando a singularidade deste momento histórico que acabaria por se diluir a partir do final da década de 1950.
É certo que esta tendência já vinha do tempo do cinema mudo (Ethyle Batley), da tradição das argumentistas e montadoras, do cinema direcionado para crianças (Mary Field) e, em particular, da prática do documentário. Neste ponto, o papel das irmãs de John Grierson, Ruby e Marion Grierson tem vindo a ser reavaliado nos últimos anos. Se John é considerado o “pai do documentário”, com um pensamento teórico e uma produção avassaladora, Ruby e Marion têm sido chamadas as “irmãs do documentário”. É pelo trabalho de Ruby Grierson que começa (cronologicamente) este Ciclo. Falecida em 1940, vítima de um torpedo nazi que afundou o navio onde viajava (estava a filmar um documentário sobre a evacuação de crianças inglesas para o Canadá), a sua prometedora carreira foi tragicamente interrompida. Ao longo dos anos, John Grierson não poupou elogios à irmã, procurando destacar o seu papel em filmes fundamentais para a história do documentário, como HOUSING PROBLEMS (1935). Neste Ciclo exibimos os seus dois últimos filmes, o último deles estreado já postumamente.
O programa Realizadoras Britânicas começa, justamente, com o cinema realizado durante a Segunda Guerra Mundial (cinema de pendor propagandístico, produzido por diversas entidades estatais), mas extravasa em grande medida esse momento. A maior parte dos filmes corresponde, aliás, à primeira década do pós-Guerra, quando a necessidade de reconstrução do país, a falta de credibilidade do estado, o acolhimento de estrangeiros, a inflação, a crise na habitação ou as lutas sindicais eram os temas dominantes da sociedade britânica. Ora por via do documentário, ora por via da ficção (ora ainda por via do documentário encenado ou da ficção de matriz documental), muitas foram as abordagens desta vaga de mulheres cineastas. Ao longo deste Ciclo apresentam-se filmes de 16 realizadoras (e esta não é, de todo, uma lista exaustiva) organizados em sessões temáticas onde a curta, a média e a longa-metragem convivem.
O principal destaque vai para Muriel Box, a mais prolífica das realizadoras inglesas do século XX. Realizou 13 longas--metragens ao longo das décadas de 1950 e 1960 (e, além disso, foi uma importante argumentista, sendo a primeira mulher a receber um Oscar na categoria de Melhor Argumento Original), das quais vamos apresentar sete. Depois, Wendy Toye, bailarina e atriz que se tornou realizadora, primeiros de curtas-metragens (premiadas em Cannes ou nomeadas ao Oscar) e depois de uma mão cheia de longas de ficção, antes de se dedicar à televisão – apresentamos cinco filmes seus.
E importa ainda referir o caso de Jill Craigie, documentarista cujos filmes tinham um propósito político e social evidente, isto é, propunham uma organização do mundo de acordo com o socialismo e o feminismo – o Ciclo inclui quatro filmes da sua autoria. Fora do contexto do cinema de estúdio e da escola do documentário inglês estão a cineasta experimental Margaret Tait e a jovem estudante italiana Lorenza Mazzetti que realizou (ainda na escola) alguns dos primeiros filmes que viriam a inaugurar o movimento que renovaria o cinema inglês no final da década de 1950: o Free Cinema.
Este Ciclo acontece na sequência do programa Pioneiras do Cinema Português (que em certa medida descreve o mesmo intervalo histórico no contexto português – e que incluiu um filme da realizadora inglesa Mary Field rodado em Portugal) e antecipa uma retrospetiva, a realizar no segundo semestre de 2026, dedicada ao caso singular de Margaret Tait.
 
 
22/06/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Realizadoras Britânicas: do Esforço de Guerra ao Free Cinema (1940-1964)

Mistérios do Quotidiano
 
23/06/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Realizadoras Britânicas: do Esforço de Guerra ao Free Cinema (1940-1964)

Parelhas - Casais
23/06/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Realizadoras Britânicas: do Esforço de Guerra ao Free Cinema (1940-1964)

Mulheres Trabalhadoras
24/06/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Realizadoras Britânicas: do Esforço de Guerra ao Free Cinema (1940-1964)

Esforço de Guerra - I
24/06/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Realizadoras Britânicas: do Esforço de Guerra ao Free Cinema (1940-1964)

Esforço de Guerra - II
22/06/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Realizadoras Britânicas: do Esforço de Guerra ao Free Cinema (1940-1964)
Mistérios do Quotidiano
QUIET MORNING
de Kay Mander
Reino Unido, 1955 – 11 min

THE TECKMAN MYSTERY
do Wendy Toye
com
Margaret Leighton, John Justin, Roland Culver, Michael Medwin
Reino Unido, 1954 – 90 min

Duração total da projeção: 101 min
legendados eletronicamente em português | M/12

Um romancista é desafiado a escrever a biografia de um jovem piloto que faleceu num desastre de avião, durante uma viagem de teste. Ao poucos vai-se apercebendo que este acidente não o foi completamente e que o caso esconde uma complexa rede conspirativa. THE TECKMAN MYSTERY é um noir de espionagem marcado pela Guerra Fria e que conta com uma notável femme fatale (Margaret Leighton), disposta a tudo para cumprir os seus ideais “comunistas”. A primeira longa-metragem de Wendy Toye é um intricado filme de série B pontuado por inúmeras reviravoltas e a secura do humor inglês. A abrir a sessão, um curioso filme institucional produzido com o intuito de ensinar inglês no estrangeiro (ou a estrangeiros em Inglaterra), onde se descreve o dia-a-dia de um subúrbio londrino. Só que tudo parece coberto por uma estranha atmosfera de mistério que nunca se chega a revelar. Primeiras apresentações na Cinemateca, a exibir em cópias digitais.

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23/06/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Realizadoras Britânicas: do Esforço de Guerra ao Free Cinema (1940-1964)
Parelhas - Casais
ONE IS ONE
de Margaret Tait
Itália, Reino Unido, 1950 – 33 min / sem som

TOGETHER
de Lorenza Mazzetti
Reino Unido, 1956 – 50 min

Duração total da projeção: 83 min | M/12

Nesta sessão dão-se a ver os trabalhos de duas das mais singulares realizadoras da década de 1950 a trabalhar no Reino Unido: a poeta das imagens Margaret Tait, e a cineasta das vibrações da rua, Lorenza Mazzetti. ONE IS ONE é um dos primeiros filmes de Tait, realizado em Itália quando estudava no Centro Sperimentale di Cinematographia, em Roma, sobre um casal desavindo nas ruínas romanas (antecipando o filme de Rossellini). Por sua vez, TOGETHER segue o dia-a-dia de dois estivadores surdos, representando de forma desoladora o isolamento vivido na capital britânica no pós-Guerra (e encontrando na incapacidade física um eco da situação de estrangeira da própria Mazzetti). TOGETHER foi exibido no National Film Theatre como parte do primeiro programa de Free Cinema, tendo sido no mesmo ano premiado no Festival de Cannes. É, possivelmente, o filme mais importante do movimento que renovou o cinema britânico. ONE IS ONE é apresentado pela primeira vez na Cinemateca, a exibir em cópias digitais.

A sessão repete no dia 27 às 19h30, na sala Luís de Pina.

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23/06/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Realizadoras Britânicas: do Esforço de Guerra ao Free Cinema (1940-1964)
Mulheres Trabalhadoras
DISTRICT NURSE
de Sarah Erulkar
Reino Unido, 1952 – 27 min

STREET CORNER
À Esquina da Rua
de Muriel Box
com
Anne Crawford, Peggy Cummins,
Rosamund John, Terence Morgan
Reino Unido, 1953 – 94 min

Duração total da projeção: 121 min
legendados eletronicamente em português | M/12

DISTRICT NURSE acompanha a vida atribulada de duas enfermeiras de província. As suas tarefas incluem ensinar um trabalhador agrícola a administrar a injeção diária à sua esposa, tratar a perna ulcerada de um homem de 80 anos, prestar assistência a um motociclista ferido e ajudar no parto de um bebé. O filme tinha como objetivo promover as novas valências do Serviço Nacional de Saúde inglês e cativar jovens enfermeiras a candidatarem-se a postos rurais. Já STREET CORNER versa sobre o trabalho das mulheres-polícia (Anne Crawford, Rosamund John) na cidade de Chelsea, num filme decomposto em três histórias: uma jovem delinquente (Peggy Cummins) que é presa após tentar assaltar uma joalharia; uma jovem militar que abandona o seu posto e acaba por cometer bigamia; e uma criança vítima de maus-tratos pela madrasta que é entregue à sua mãe. Segundo Muriel Box, este foi um filme realizado com uma equipa técnica e artística predominantemente feminina e “nunca fui tão feliz e livre numa rodagem”. DISTRICT NURSE será exibido pela primeira vez na Cinemateca, a exibir em cópias 35 mm.

A sessão repete no dia 26 às 19h30, na sala Luís de Pina.

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24/06/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Realizadoras Britânicas: do Esforço de Guerra ao Free Cinema (1940-1964)
Esforço de Guerra - I
THEY ALSO SERVE
de Ruby Grierson
Reino Unido, 1940 – 10 min

WE JOINED THE NAVY
Siga A Marinha!
de Wendy Toye
Reino Unido, 1962 – 105 min
[CORTES DA CENSURA PORTUGUESA A ‘WE JOINED THE NAVY’]

Duração total da projeção: 117 min
 legendados eletronicamente em português | M/12

THEY ALSO SERVE é o mais antigo título deste Ciclo, realizado por Ruby Grierson, figura importante do documentário inglês dos anos 1930 (irmã de John Grierson, o “Pai do Documentário”) que morreu em 1940, vítima de um torpedo nazi, aos 36 anos. Este é o seu último filme, já lançado postumamente, dedicado às mulheres britânicas que ajudam no esforço de guerra através de pequenos gestos no dia-a-dia. Já WE JOINED THE NAVY apresenta-nos o Comandante Bagder, da Marinha Inglesa. Ele é um homem com um problema, não consegue mentir e, mais que isso, diz a verdade nos momentos mais inoportunos. A consequência disso é ver-se transferido para a Academia da Marinha onde espalha a sua pedagogia antimilitarista pelos alunos. Eis uma comédia provocadora e bastante desconcertante, que inclui – no final – a intervenção da marinha inglesa num país em revolução (cuja bandeira é uma versão adulterada da bandeira portuguesa). Como seria de esperar, o filme foi muito cortado pela Censura portuguesa e os cortes fazem parte da Coleção da Cinemateca. Serão apresentados no final da sessão. Os dois filmes serão apresentados pela primeira vez na Cinemateca, a apresentar respetivamente em 35 mm e cópia digital.

A sessão repete no dia 29 às 19h30, na sala Luís de Pina.

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24/06/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Realizadoras Britânicas: do Esforço de Guerra ao Free Cinema (1940-1964)
Esforço de Guerra - II
WHAT’S FOR DINNER
de Ruby Grierson
Reino Unido, 1940 – 9 min

ONCE WE WERE FOUR
de Mary Field
Reino Unido, 1942 – 9 min

VICTORY WEDDING
de Jessie Mathews
Reino Unido, 1944 – 20 min

CRITICAL HARVEST
de Sylvia Cummins
Reino Unido, 1946 – 9 min

STOOKING AND STACKING
de Rosanne Hunter
Reino Unido, 1943 – 12 min

THE KING’S BREAKFAST
de Wendy Toye
Reino Unido, 1963 – 28 min

Duração total da projeção: 87 min
legendados eletronicamente em português | M/12

Uma sessão de curtas-metragens de propaganda realizadas durante e logo após a Segunda Guerra Mundial e dedicadas, quase sempre, à forma como os cidadãos comuns podem participar no esforço de Guerra através de pequenos gestos do dia-a-dia. Ora através do que põem na mesa (que refeições preparar quando os produtos escasseiam), ora através do investimento das poupanças em Certificados do Tesouro, ora voluntariando-se para participar nas campanhas agrícolas de 1946, ora ainda cumprindo as orientações para preparar as meadas de cereais. O último filme da sessão destoa em termos cronológicos e tonais: um filme de época musical (encomendado por uma empresa de manteigas), onde o slapstick se combina com o bailado e que é toda uma ode ao excesso e à abundância. Depois da míngua, a fartura. Todas primeiras apresentações na Cinemateca, a apresentar respetivamente em 16 mm, cópia digital, 35 mm, cópia digital, 35 mm e cópia digital.

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