CICLO
Lisboa, Capital da Intriga Internacional


São várias as ligações de Lisboa ao cinema, tendo algumas delas já justificado Ciclos passados nesta casa. Uma faceta pouco reconhecida é a inserção da cidade num subgénero do thriller, centrado em tramas de espionagem, redes criminosas e outros tipos de intriga internacional. São mais de meia centena as obras em que conspiradores, traficantes e agentes secretos de várias estirpes se perseguem e matam em Lisboa, que aparece ora como palco central ora como cenário passageiro, atraindo espiões fictícios e cineastas reais, ainda que em regra sob a forma de enredos mirabolantes e abertamente artificiais, desde grandes produções a filmes de série B. A maioria ficou excluída deste Ciclo, as suas cópias perdidas ou demasiado deterioradas. Ainda assim, os filmes incluídos percorrem grande parte do século XX, oriundos dos EUA, Itália, França, Espanha, Reino Unido, Alemanha e União Soviética, deixando entrever na sua diversidade uma continuidade cinematográfica, com situações, personagens-tipo e espaços recorrentes, do Terreiro do Paço ao Castelo de São Jorge.
Se encontramos Lisboa já num par de thrillers alemães dos anos 30, é nas décadas seguintes que a cidade se afirma enquanto lugar estereotípico do género, fruto de três encontros entre geopolítica e economia do cinema. O primeiro encontro dá-se durante a Segunda Guerra Mundial, quando refugiados e agentes dos dois campos se cruzam num Portugal oficialmente neutro. O governo americano estimula Hollywood a produzir obras que mobilizem o público para o esforço de guerra, elegendo CASABLANCA (cujos protagonistas procuram alcançar Lisboa) como exemplo máximo de sucesso financeiro, aclamação crítica e dramatização política. A tentativa de evocar um espírito de continuação dessa obra (até pelo retomar do elenco em THE CONSPIRATORS), origina de imediato várias produções em que Lisboa é recriada nos estúdios de Los Angeles. É tão forte a associação a este conflito no grande ecrã (incluindo uma breve aparição noutro clássico do género: THE HOUSE ON 92ND STREET) que a cidade manterá uma presença regular em narrativas posteriores sobre a guerra, como THE SECRET DOOR (1964), que apresentamos pela primeira vez em salas portuguesas.
Por seu turno, a viragem para os anos 50 é marcada por um declínio dos recursos de Hollywood, fruto de novas regras antimonopolistas, optando muitos produtores americanos por rodar na Europa, onde os salários são mais baixos e as paisagens filmadas a cores proporcionam um espetáculo visual e “exótico” com o qual a televisão ainda não pode competir. Estas “runaway productions” gravitam até Lisboa, socorrendo-se da sua conotação com romance e espionagem, atualizada ao contexto da Guerra Fria, elo que se torna a tal ponto icónico que já o vemos parodiado neste Ciclo por comediantes como Jerry Lewis. Vemos também, nas ruas da capital, adaptações dos dois extremos do espectro da ficção de espionagem: as aventuras de James Bond (ON HER MAJESTY’S SECRET SERVICE) e o realismo psicológico de John le Carré (THE RUSSIA HOUSE).
Para além da luz fotogénica e custos reduzidos, a cidade oferece cada vez melhores condições às equipas vindas de fora, com o aparelho de propaganda do Estado Novo empenhado em promover o país, sobretudo o seu potencial turístico, importante fonte de receitas. As produtoras europeias aproveitam a oportunidade, desde thrillers próximos do film noir (PASSAPORTO FALSO) até policiais com contornos de giallo (QUEL FICCANASO DELL’ISPETTORE LAWRENCE). A série 007 origina uma vaga de imitações a meio dos anos 60, com menor orçamento e, em regra, mais sexo e violência. É, portanto, uma Lisboa pop, moderna, dinâmica e erotizada a que aparece em filmes como COMANDO DE ASESINOS, em contraste com o cinzentismo frequentemente associado à memória desta época. De resto, o Ciclo inclui duas obras portuguesas (OPERAÇÃO DINAMITE e 7 BALAS PARA SELMA) que aderem justamente a esse jogo, representando a capital sob o prisma das aventuras de superespiões feitas lá fora.
Por detrás das bombásticas cenas de ação no Estoril e Alfama, paira a clandestinidade e o conflito político que eram há muito parte do quotidiano lisboeta. Com a exceção de LA VITA È BELLA, no entanto, essa realidade permanece secreta nas histórias levadas ao ecrã.
Este Ciclo resulta de uma colaboração entre a Cinemateca e a NOVA-FCSH através do Instituto de História Contemporânea (IHC) e o projeto ExPORT (baseado no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa), com apoios da Fundação Luso-America para o Desenvolvimento, Istituto Italiano di Cultura di Lisbona, Institut français du Portugal e Instituto Cervantes de Lisboa.
O IHC e o ExPORT são financiado por fundos nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito dos projetos UID/04209/2025, LA/P/0132/2020 e 2022.08653.PTDC.
 
02/03/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Lisboa, Capital da Intriga Internacional

Lisbon
Lisboa
de Ray Milland
Estados Unidos, 1956 - 91 min
 
02/03/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Lisboa, Capital da Intriga Internacional

7 BALAS PARA SELMA
de António de Macedo
Portugal, 1967 - 108 min
03/03/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Lisboa, Capital da Intriga Internacional

A UFA EM LISBOA | DER WEISSE DÄMON
03/03/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Lisboa, Capital da Intriga Internacional

LA VITA È BELLA
“A Vida é Bela”
URSS, Itália, 1979 - 105 min
04/03/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Lisboa, Capital da Intriga Internacional

ON HER MAJESTY’S SECRET SERVICE
007 - Ao Serviço de Sua Majestade
de Peter R. Hunt
Reino Unido, 1969 - 122 min
02/03/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Lisboa, Capital da Intriga Internacional

Em colaboração com a NOVA-FCSH
Lisbon
Lisboa
de Ray Milland
com Ray Milland, Maureen O’Hara, Yvonne Furneaux, Claude Rains
Estados Unidos, 1956 - 91 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Segundo dos cinco filmes realizados por Ray Milland, e porventura o mais famoso, juntamente com PANIC IN YEAR ZERO! (1962). Para o público português, o interesse de LISBON tem sobretudo que ver com a sua ambientação. Rodado em Lisboa e arredores, com as cenas de interiores filmadas nos estúdios da Tobis, LISBON foi a primeira produção americana inteiramente feita em Portugal. E é um filme que tenta aproveitar o “exotismo” da capital portuguesa com ele construindo uma espécie de CASABLANCA para o tempo da Guerra Fria, ao conciliar o thriller de espionagem e o romantismo. Ultrapassando o inevitável “folclorismo” de algumas passagens, é um filme tenso, mais complexo do que parece, numa Lisboa que oferece paisagens novas, pitorescas e românticas, bem como uma crescente dimensão turística (restaurantes, casas de fado) para os protagonistas americanos.

A sessão repete no dia 6, às 19h30, na sala Luís de Pina.

consulte a FOLHA da CINEMATECA aqui
02/03/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Lisboa, Capital da Intriga Internacional

Em colaboração com a NOVA-FCSH
7 BALAS PARA SELMA
de António de Macedo
com Florbela Queirós, Sinde Filipe, Tomás de Macedo, Osvaldo Medeiros, Lia Gama
Portugal, 1967 - 108 min
M/12
Segunda longa-metragem de António de Macedo, 7 BALAS PARA SELMA é uma resposta portuguesa aos filmes de espionagem psicadélicos que vinham ganhando popularidade na Europa, transpondo esse universo para Lisboa. Foi na época da sua estreia “um caso” no cinema português, alvo de críticas severas e a acusação de cedência a expectativas comerciais. É um filme que se distingue pela singularidade da respetiva proposta e a abertura a dimensões cuja variedade o realizador viria a trabalhar ao longo da sua obra. Macedo assina a realização, argumento, diálogos, planificação e montagem. A fotografia é de Acácio de Almeida, a música do Quinteto Académico e a letra das canções, interpretadas por Florbela Queirós, de Alexandre O’Neill. A produção é da Imperial Filmes.

A sessão repete no dia 30, às 19h30, na sala Luís de Pina

consulte a FOLHA da CINEMATECA aqui
03/03/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Lisboa, Capital da Intriga Internacional

Em colaboração com a NOVA-FCSH
A UFA EM LISBOA | DER WEISSE DÄMON
A UFA EM LISBOA
de José Nunes das Neves
Portugal, 1932 – 5 min

DER WEISSE DÄMON
Estupefacientes
de Kurt Gerron
com Hans Albers, Gerda Maurus, Peter Lorre
Alemanha, 1932 – 107 min / legendados eletronicamente em português | M/12

Duração total da projeção: 112 min
A carreira de Kurt Gerron, como ator e realizador, dava um “Eurospy”: nasceu na Alemanha, mas, por ser judeu, refugiou-se em França durante a ascensão do nazismo, acabando por se fixar nos Países Baixos. Foi detido e usado pelos alemães posteriormente para produzir o infame documentário acerca do campo de concentração de Terezín. DER WEISSE DÄMON, na sua versão alemã, é protagonizado pelo então célebre ator alemão Hans Albers (faz de Mazeppa, o rival de Emil Jannings, em DER BLAUE ENGEL), sendo ainda coadjuvado pelo grande Peter Lorre. A sua história, envolvendo o narcotráfico (o “demónio branco” aludido no título alemão diz respeito ao vício de morfina que aflige a irmã do protagonista interpretado por Albers), decorre parcialmente em Lisboa, que aqui surge como um espaço cosmopolita, ponto de passagem e de encontro para polícias e criminosos. DER WEISSE DÄMON insere-se numa longa relação entre os cinemas da Alemanha e de Portugal (recorde-se que, justamente em 1932, a Tobis Portuguesa é criada enquanto sucursal da produtora-distribuidora alemã Tobis). Neste caso, trata-se de uma produção da UFA rodada em Portugal que foi objeto de um documentário, A UFA EM LISBOA, cuja parte sobrevivente será exibida em complemento ao filme de Gerron. Primeira apresentação do DER WEISSE DÄMON na Cinemateca.

A sessão repete no dia 10, às 21h30, na sala M. Félix Ribeiro.

consulte a FOLHA da CINEMATECA aqui
03/03/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Lisboa, Capital da Intriga Internacional

Em colaboração com a NOVA-FCSH
LA VITA È BELLA
“A Vida é Bela”
com Giancarlo Giannini, Ornella Muti, Otar Koberidze
URSS, Itália, 1979 - 105 min
legendado eletronicamente em português | M/12
O realizador russo Grigori Chukhrai, autor do clássico BALLADA O SOLDATE, assina este filme de espionagem pouco visto e que tem Lisboa como motivo de grande interesse. Trata-se de uma produção italo-soviética que retrata um homem (Giancarlo Giannini), taxista de profissão, apaixonado por uma resistente antifascista (Ornella Muti) em pleno Portugal salazarista. É um filme sobre uma certa conversão política através do amor e vale como uma espécie de “documentário”, de magníficas cores, rodado em vários pontos de uma cidade sob o efeito da recente Revolução dos Cravos, apesar de ainda assombrada pelos tempos da ditadura. Primeira apresentação na Cinemateca.

consulte a FOLHA da CINEMATECA aqui
04/03/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Lisboa, Capital da Intriga Internacional

Em colaboração com a NOVA-FCSH
ON HER MAJESTY’S SECRET SERVICE
007 - Ao Serviço de Sua Majestade
de Peter R. Hunt
com George Lazenby, Diana Rigg,Telly Savalas
Reino Unido, 1969 - 122 min
legendado eletronicamente em português | M/16
Nos intervalos do “reinado” de Sean Connery como o agente secreto mais famoso do mundo houve o australiano George Lazenby, que face à renúncia temporária de Connery (retomaria o franchise em DIAMONDS ARE FOREVER) assumiu esse desafiante papel de se tornar James Bond. O desafio foi superado por este algo inexperiente modelo e ator, até então, de pequenos papéis, já que ON HER MAJESTY’S SECRET SERVICE, o filme que se segue ao bem-sucedido YOU ONLY LIVE TWICE, é hoje considerado um dos melhores títulos da série, mesmo que tenha sido para Lazenby uma tentativa única no famoso papel. O casamento de James Bond, rodado no Estoril (um dos vários pontos em Portugal onde o filme foi rodado), chamou a atenção popular e mediática, como atestam os excertos da reportagem feita pela televisão pública, disponíveis na RTP Arquivos. Primeira apresentação na Cinemateca.

A sessão repete no dia 14, às 21h30, na sala M. Félix Ribeiro.

consulte a FOLHA da CINEMATECA aqui