CICLO
A Casa


“…but a room is not a house / and a house is not a home…”
Burt Bacharach/Hal David

A casa no cinema, as casas no cinema, num ciclo em três partes que apresentaremos ao longo de março, abril e maio. Não é um ciclo sobre arquitetura (que já fizemos, em extensão, e por mais do que uma vez), embora por inerência ela não seja excluída, porque fatalmente, filmando casas, o cinema lança sempre um olhar sobre as formas arquitetónicas (e em certos casos, inventa-as, constrói-as de raiz, cria uma arquitetura para o cinema, como no exemplo flagrante do LADIES’ MAN de Jerry Lewis). É um ciclo sobre outra coisa, a casa como entidade narrativa, a casa dotada de uma anima de personagem não-humana, a casa como depósito de atributos simbólicos, que podem ser lineares mas também podem chocar entre si e criar uma contradição infinita – “a estrutura dupla e dúplice” de que fala João Bénard da Costa a propósito do REBECCA de Hitchcock, porventura o máximo filme sobre casas-personagem, casas animadas, e por isso o filme de abertura do nosso ciclo, para dar o mote.
Há as casas da ficção e as casas reais (sem jogo de palavras, não se trata minimamente de ir às casas da realeza). Das casas reais, das casas autênticas, trataremos na segunda parte, em abril, com um conjunto de filmes em que os realizadores viraram a câmara para o lado de dentro da janela e em vez da rua filmaram a sua própria casa – sem serem propriamente “home movies”, ou sendo-o de uma forma especial (como aqueles últimos filmes de Jean-Claude Brisseau em que ele, sem dinheiro para uma produção cheia de “set design”, usou a realidade da sua casa para aí instalar as mais delirantes ficções).
Mas sobre isto, mais em abril. Para já, as casas da ficção – muitas delas, casas de existência prévia que foram tomadas, transformadas, modificadas pelo olhar da ficção e trazidas para o território do cinema (um exemplo maior: a Villa Malaparte no MÉPRIS de Godard). As casas muito antigas que testemunham a decadência do mundo que as construiu (JALSAGHAR), as casas muito novas que testemunham outro tipo de decadência, mais instantâneo, trazido pela “modernidade” (MON ONCLE); as casas que, de Chaplin a Blake Edwards, são uma sucessão de obstáculos, e as casas, como as de Rozier (DU COTÉ D’OUROUET), que são um espaço desimpedido, o cenário para a alegria e o prazer mais descomprometidos; as casas-refúgio que é preciso defender contra todo o tipo de invasores (JOHNNY GUITAR), e as casas-prisão de que é preciso evadir--se (EL ÁNGEL EXTERMINADOR); as casas que são uma garantia contra a destruição (PO ZAKONU) e a casas que é preciso destruir (SAUTE MA VILLE). Idealmente, cada um destes filmes traz um “projeto” de casa diferente. E as estas diferenças voltaremos nos próximos meses.
 
03/03/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Casa

REBECCA
Rebecca
de Alfred Hitchcock
Estados Unidos, 1940 - 130 min
 
03/03/2026, 22h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Casa

SECRET BEYOND THE DOOR
O Segredo da Porta Fechada
de Fritz Lang
Estados Unidos, 1948 - 98 min
04/03/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Casa

PO ZAKONU
“Dura Lex”
de Lev Kulechov
URSS, 1926 - 80 min
04/03/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Casa

LA BANDE DES QUATRE
O Bando das Quatro
de Jacques Rivette
França, 1988 - 160 min
05/03/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Casa

MON ONCLE
O Meu Tio
de Jacques Tati
França, 1956 - 115 min
03/03/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
A Casa
REBECCA
Rebecca
de Alfred Hitchcock
com Laurence Olivier, Joan Fontaine, Judith Anderson, George Sanders
Estados Unidos, 1940 - 130 min
legendado em português | M/12
REBECCA marca a chegada triunfal de Alfred Hitchcock a Hollywood, já consagrado e com cerca de quinze anos de carreira na Grã-Bretanha. Hitchcock declarou, por sinal, a Truffaut, que achava o filme “demasiado britânico”, pois tanto a autora do romance (Daphne du Maurier) como o ator principal (Olivier) eram britânicos. Romance e filme têm finais bastante diferentes. Trata-se de umas das obras maiores de Hitchcock, a história de uma mulher frágil que se casa com um homem de uma condição social muito mais elevada e vai viver numa mansão, sobre a qual pairam a sombra sinistra da governanta e a lembrança de Rebecca, a primeira mulher do marido. Na personagem, sem nome próprio, da segunda mulher, jovem e vulnerável, Joan Fontaine no seu mais icónico papel. “O segredo da perdurabilidade deste filme fascinante está na sua estrutura dupla e dúplice, tanto quanto na sua estrutura mítica e onírica” (João Bénard da Costa). A exibir em 35 mm.

A sessão repete no dia 12, às 15h30, na sala M. Félix Ribeiro.

consulte a FOLHA da CINEMATECA aqui
 
03/03/2026, 22h00 | Sala M. Félix Ribeiro
A Casa
SECRET BEYOND THE DOOR
O Segredo da Porta Fechada
de Fritz Lang
com Michael Redgrave, Joan Bennett, Anne Revere, Barbara O’Neil
Estados Unidos, 1948 - 98 min
legendado em português | M/12
Um dos mais rigorosos filmes de Fritz Lang em Hollywood, construído como um mecanismo de relógio ou como um desenho arquitetónico. A prodigiosa sequência dos quartos, na qual a perturbação é introduzida por uma quebra de simetria, reflete também um universo mental em que o desequilíbrio se instala. Na década da psicanálise no cinema americano, SECRET BEYOND THE DOOR é o filme onde ela tem mais importância, sendo também aquele em que menos se faz sentir. “É um dos mais fascinantes, encantatórios e complexos filmes de Fritz Lang, uma das suas grandes obras-primas, ou seja, uma das grandes obras-primas da História do Cinema” (João Bénard da Costa). A exibir em 35 mm.

A sessão repete no dia 6, às 15h30, na sala M. Félix Ribeiro.

consulte a FOLHA da CINEMATECA aqui
04/03/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
A Casa
PO ZAKONU
“Dura Lex”
de Lev Kulechov
com Aleksandra Khokhlova, Serguei Komarov, Vladimir Fogel
URSS, 1926 - 80 min
mudo, intertítulos em russo traduzidos eletronicamente em português
com acompanhamento ao piano por João Paulo Esteves da Silva
Autor, entre outros, de “AS AVENTURAS DE MR. WEST NO PAÍS DOS BOLCHEVIQUES”, Kulechov é um dos grandes nomes do cinema soviético mudo e foi um dos grandes teóricos da montagem, embora o seu cinema em nada se assemelhe ao de Eisenstein ou ao de Vertov, outros mestres da montagem da vanguarda soviética. Baseado numa história de Jack London, PO ZAKONU, é uma obra-prima da articulação visual, de montagem e de direcção de actores, e narra a história de dois homens e uma mulher isolados do mundo (no Klondyke, durante a corrida ao ouro). A casa em que vivem é filmada como um último vestígio da civilização, última defesa diante da dissolução moral e civilizacional.

A sessão repete no dia 31, às 19h30, na sala Luís de Pina.

consulte a FOLHA da CINEMATECA aqui
04/03/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
A Casa
LA BANDE DES QUATRE
O Bando das Quatro
de Jacques Rivette
com Bulle Ogier, Benoit Régent, Inês de Medeiros
França, 1988 - 160 min
legendado eletronicamente em português| M/12
Teatro, conspirações, segredos – LA BANDE DES QUATRE desenvolve-se como “súmula” absolutamente rivettiana. Quatro amigas, alunas da mesma escola de teatro, e os encontros com um estranho que as avisa do perigo que corre uma quinta rapariga, colega delas. Visto de hoje, LA BANDE DES QUATRE é um filme que faz a ponte entre o Rivette austero e “ensaístico” dos anos 1970 e 80, e o dos anos 90, um pouco mais claro e mais fluidamente narrativo. É algo a que não será alheio o par de argumentistas formado por Christine Laurent e Pascal Bonitzer, doravante colaboradores frequentes de Rivette. 

A sessão repete no dia 10, às 19h30, na sala Luís de Pina.

consulte a FOLHA da CINEMATECA aqui
05/03/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
A Casa
MON ONCLE
O Meu Tio
de Jacques Tati
com Jacques Tati, Jean-Pierre Zola, Adrienne Servantie
França, 1956 - 115 min
legendado em português | M/12
Talvez o mais célebre filme de Tati, protagonizado pelo alter ego do realizador, o Sr. Hulot. MON ONCLE é uma sátira, ligeiramente passadista, da vida moderna, com particular incidência na arquitectura, o que suscita gags hilariantes numa mansão ultra-moderna e pouco prática, onde se passa grande parte da acção. Incapaz de se adaptar aos novos tempos, Hulot também fracassará no trabalho. A banda sonora, um prodigioso emaranhado de ruídos e trechos de diálogos, torna quase desnecessária a compreensão da palavra.

A sessão repete no dia 25, às 21h30, na sala M. Félix Ribeiro.

consulte a FOLHA da CINEMATECA aqui