CICLO
A Cinemateca com o Indielisboa: Doris Wishman e Director’s Cut


A habitual colaboração entre a Cinemateca e o IndieLisboa – Festival Internacional de Cinema, em 2022 na sua 19ª edição, começa nos três últimos dias do mês e continua na primeira semana de maio (o programa da Cinemateca acompanha as datas do festival, que decorre em várias salas em Lisboa entre 28 de abril e 8 de maio). Este ano a colaboração assenta em três eixos: a organização conjunta de uma retrospetiva dedicada à redescoberta de Doris Wishman, pioneira do sexploitation; na apresentação de filmes da secção  Director’s Cut (em rima com sessões “em contexto”, refletindo sobre a História do cinema, a sua memória e o seu património), e num foco (a apresentar em maio) sobre o vasto “património” da Light Cone, fundamental distribuidora e produtora de cinema experimental.
 
DORIS WISHMAN - O INFERNO PODE ESPERAR
“Quando morrer, vou fazer filmes no Inferno” é uma das citações mais conhecidas e mais significativas de Doris Wishman (1912-2002), figura fundamental do cinema de exploitation americano que, depois de décadas de esquecimento, tem vindo progressivamente a ser redescoberta e recuperada da marginalidade do estatuto menor do cinema desse género e integrada na cinefilia mais “aceitável”. 
Uma das primeiras mulheres a filmar e a vingar no mundo vincadamente masculino (e potencialmente misógino) da produção sexploitation americana no início dos anos 1960, Wishman começa uma longa e prolífica carreira (cerca de 25 filmes, um número que só raras outras mulheres cineastas atingiram ou ultrapassaram) depois de uma tragédia pessoal que foi determinante para a mudança de rumo da sua vida. Tendo enviuvado apenas cinco meses depois do seu casamento, a jovem Wishman deixou a pacatez do destino que lhe estava reservado de dona de casa de classe média na Flórida e virou-se para o cinema enquanto forma de fazer o luto (nas suas palavras, realizar filmes permitia-lhe não ter que pensar no que lhe tinha acontecido) e de ganhar a vida. Não que fosse completamente acidental a escolha do cinema enquanto terapia ocupacional e profissão de recurso pois Wishman tinha estudado representação em Nova Iorque onde nascera, tendo sido colega de curso de Shelley WInters. Mas abandonara a ambição de ser atriz para começar a trabalhar na indústria, mas na componente de distribuição, experiência que se revelaria posteriormente bastante importante para as suas escolhas como realizadora. A estreia de Wishman na realização faz-se em 1960 em circunstâncias muito particulares da reconfiguração do cinema americano na viragem das décadas de 1950 para 1960, com o fim do sistema de estúdios e do código de censura a permitir o boom de produções independentes de baixo orçamento que se aproveitavam da liberalização do que era possível mostrar no ecrã para levar os espectadores americanos ao florescente circuito de exibição alternativo às salas tradicionais. Foi nesta nova economia de produção e exibição cinematográficas que o género exploitation e os seus vários subgéneros vingaram, criando uma indústria e um mercado paralelos ao do cinema mainstream, de que o nome mais célebre será possivelmente o do produtor e realizador Roger Corman, mas em cujas fileiras se encontravam dezenas de outros realizadores que se podem facilmente encaixar na categoria de “autores” (embora conotados com os objetivos escancaradamente comerciais do cinema de exploitation). 
De todos, talvez Doris Wishman seja a mais merecedora desta “política dos autores” paralela ao cânone da história do cinema, já que corresponde plenamente à ideia do “autor total”. Sob a capa de diferentes pseudónimos nos genéricos dos seus filmes, Wishman foi responsável pela produção, argumento e realização de cada um dos seus filmes desde o início até ao fim, sendo uma evidência os sinais de continuidade que existem ao longo da sua obra, a qual se estende por mais de quatro décadas, acompanhando a evolução do gosto por emoções fortes das plateias populares e os temas transgressores do dia que constituem o alimento do exploitation. Em função dessa relação muito direta com o público (tirando o seu primeiro filme, que foi feito com dinheiro emprestado pela família, Wishman financiou cada filme com a receita que conseguia tirar do anterior), a obra de Wishman tem sido dividida em três partes. À primeira, pertencem os seus primeiros oito filmes, designados por nudie cuties, que resultam da simples possibilidade de, no início dos anos 1960, se passar a poder mostrar a nudez nos ecrãs americanos (ainda que com algumas restrições). À exceção da permanente exposição da nudez feminina (e, em menor grau, masculina) são filmes relativamente convencionais do ponto de vista do argumento e do tratamento formal, mas a fervilhante imaginação de Wishman e o cuidado posto nos “acabamentos” (são maravilhosas a fotografia a cores e a banda sonora de vários deles) resgatam-nos de serem meras curiosidades cinematográficas e testemunhos da revolução sexual então em curso. Para a segunda fase, a dos roughies, é determinante a vontade de Wishman acompanhar a evolução do mercado exploitation e deixar para trás a candura da mera exposição da nudez nos filmes anteriores (em que há quase sempre alguém nu mas muito pouco ou nenhum sexo) para passar a integrar a sexualidade como matéria temática principal, geralmente associada a comportamentos violentos sobre as mulheres que ocupam invariavelmente o centro destas histórias.
Filmados em preto e branco, são filmes com uma pulsão experimental surpreendente que ecoam gestos semelhantes de outros cineastas ligados ao movimento de vanguarda (Andy Warhol não andará longe), mas os torna absolutamente únicos pela sensibilidade singular com que mistura uma aparência realista com uma surpreendente componente onírica (que David Lynch não desdenharia a estranheza de alguns dos filmes deste período). Por último, a fase gimmick (para usar a terminologia de um comentador da sua obra), menos fácil de definir e mais porosa às interferências de circunstâncias de produção marcadas pela concorrência cada vez mais difícil ditada pelo cinema pornográfico, integra uma maior variedade de abordagem e de mistura do sexploitation com outros géneros (o policial em DOUBLE AGENT 73 e DEADLY WEAPONS, a comédia em KEYHOLES ARE FOR PEEPING, o documentário em LET ME DIE A WOMAN, o terror em A NIGHT TO DISMEMBER ou o próprio porno em SATAN WAS A LADY).
Quando morreu em 2002 de uma doença inesperada e fulminante, Wishman tinha completado 90 anos e estava em plena preparação de um novo filme. Depois de um hiato silencioso, nos últimos anos de vida, Wishman tinha recomeçado a escrever e a realizar alimentada pelo entusiasmo de um grupo cada vez mais numeroso de admiradores que, sem vergonha ou preconceito, pediam o reconhecimento das qualidades da sua obra, entre as quais destacam a imaginação sem limites dos seus argumentos, o risco formal e o conteúdo subversivo do seu discurso sobre a normatividade social (e designadamente sobre as questões de género). 
Nesta retrospetiva retivemos dez dos títulos que mais terão contribuído para o culto construído à volta da sua figura e da sua obra.  Em abril, apresentamos dois dos seus irresístiveis nudie cuties, DIARY OF A NUDIST e NUDE ON THE MOON, e três dos seus roughies mais célebres: BAD GIRLS GO TO HELL, ANOTHER DAY ANOTHER MAN e INDECENT DESIRES.  O programa continua em maio com mais cinco títulos (a “trilogia” composta por DOUBLE AGENT 73, DEADLY WEAPONS e THE IMMORAL THREE, a sua única incursão na comédia com KEYHOLES ARE FOR PEEPING e o schockumentary sobre operações de mudança de sexo, LET ME DIE A WOMAN) e com segundas passagens dos seus filmes exibidos em abril.  À exceção de LET ME DIE A WOMAN (aqui exibido no já distante ano de 2003 no âmbito do Ciclo Trash - É Tão Mau que É Bom), todos os filmes são primeiras apresentações na Cinemateca. Todos os filmes do programa são apresentados em cópias digitais restauradas.
 
 
28/04/2022, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o Indielisboa: Doris Wishman e Director’s Cut

Bad Girls Got to Hell
de Doris Wishman
Estados Unidos, 1965 - 65 min
 
29/04/2022, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o Indielisboa: Doris Wishman e Director’s Cut

Diary of a Nudist
de Doris Wishman
Estados Unidos, 1962 - 72 min
29/04/2022, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o Indielisboa: Doris Wishman e Director’s Cut

Nude on the Moon
de Doris Wishman, Raymond Phelan
Estados Unidos, 1961 - 70 min
30/04/2022, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o Indielisboa: Doris Wishman e Director’s Cut

Istoriya Grazhdanskoy Voyny
“História da Guerra Civil”
de Dziga Vertov
Rússia, 1921 - 94 min
30/04/2022, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o Indielisboa: Doris Wishman e Director’s Cut

Another Day Another Man
de Doris Wishman
Estados Unidos, 1966 - 71 min
28/04/2022, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o Indielisboa: Doris Wishman e Director’s Cut
Bad Girls Got to Hell
de Doris Wishman
com Gigi Darlene, Barnard L. Sackett, Sam Stewart
Estados Unidos, 1965 - 65 min
legendado eletronicamente em português | M/16
Doris Wishman

sessão com apresentação
O primeiro roughie oficial de Doris Wishman depois de vários nude cuties (que já não eram suficientemente atrativos para continuar a alimentar o voyeurismo de espectadores então a viver em pleno a revolução sexual dos anos 1960) é uma obra delirante e ainda hoje absolutamente transgressora. BAD GIRLS GO TO HELL conta a história de Meg (Gigi Darlene), uma dona de casa de Boston que, após ser violada pelo porteiro do prédio onde vive, mata o seu agressor e foge para Nova Iorque, onde passa por uma série de encontros violentos e sexuais enquanto tenta escapar à polícia. As insuficiências dos valores de produção e do enredo são superadas pelo estilo visual surpreendentemente idiossincrático de Wishman e pelo compromisso singular com uma visão excêntrica e surreal da sexualidade. Filmado num belíssimo preto e branco (a qualidade da direção de fotografia dos seus filmes foi sempre um dos pontos fortes de Wishman quando comparado com os seus colegas do exploitation row).

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29/04/2022, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o Indielisboa: Doris Wishman e Director’s Cut
Diary of a Nudist
de Doris Wishman
com Davee Decker, Norman Casserly, Dolores Carlos
Estados Unidos, 1962 - 72 min
legendado eletronicamente em português | M/16
Doris Wishman
No princípio era a nudez. DIARY OF A NUDIST, uma das primeiras incursões de Doris Wishman no subgénero dos nudie cuties, explora as possibilidades literais do seu título para mostrar a nudez em toda a sua variedade humana. Indignado pela abertura de uma colónia de nudistas perto da sua cidade, o diretor de um jornal envia uma jornalista undercover para fazer uma reportagem de denúncia sobre o local. A repórter, no entanto, é conquistada pelos ideais naturistas e decide juntar-se à causa. Filmado on location numa verdadeira colónia nudista na Flórida, o que permitiu que o filme fosse distribuído por se tratar de uma exceção permitida pela censura da época em alguns estados americanos.

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29/04/2022, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o Indielisboa: Doris Wishman e Director’s Cut
Nude on the Moon
de Doris Wishman, Raymond Phelan
com Marietta, William Mayer, Lester Brown
Estados Unidos, 1961 - 70 min
legendado eletronicamente em português | M/16
Segundo filme dos oito nudies que Doris Wishman dirigiu no início da sua carreira, NUDE ON THE MOON é uma fantasia de ficção científica kitsch inspirada na corrida espacial desses anos 1960. Inocentemente excitante, confere um toque único ao género sexploitation, transferindo a ação da habitual colónia naturista para o espaço sideral. Depois de herdar uma fortuna inesperada, dois cientistas usam o dinheiro para construir um foguete que os levará numa missão até à Lua (que aqui é mesmo a última fronteira e tem uma notável semelhança com a Flórida), onde descobrem uma civilização de extraterrestres em topless que comunicam telepaticamente (o que permite a Wishman dispensar quase completamente os diálogos síncronos, uma das suas caraterísticas estilísticas mais distintivas).

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30/04/2022, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o Indielisboa: Doris Wishman e Director’s Cut
Istoriya Grazhdanskoy Voyny
“História da Guerra Civil”
de Dziga Vertov
Rússia, 1921 - 94 min
mudo, com intertítulos em russo, legendas em inglês e legendas eletrónicas em português | M/12
Director’s Cut
Um exemplo por excelência do cinema agitprop russo, e um dos primeiros filmados por Dziga Vertov, este documentário mostra os violentos episódios da guerra civil que se seguiu à revolução comunista na Rússia. Louvam-se os esforços dos bolcheviques no combate contra as forças contrarrevolucionárias do “exército branco” nos anos que se seguiram à revolução, mostrando-se também os confrontos existentes no próprio seio dos revolucionários. É, para além do mais, um retrato vivo da presença e da ação de figuras históricas que transformaram o mundo no século XX, entre os quais Trotski. Considerado perdido, destruído e cortado pelo próprio Dziga Vertov para reutilizar imagens noutros projetos, ISTORIYA GRAZHDANSKOY VOYNY pode ser apresentado, cem anos após a sua realização, graças ao metódico trabalho de reconstrução do académico Nikolai Izvolov, acompanhado por uma nova banda sonora interpretada pela Anvil Orchestra.

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30/04/2022, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o Indielisboa: Doris Wishman e Director’s Cut
Another Day Another Man
de Doris Wishman
com Agustin Mayor, Barbara Kemp, Sam Stewart
Estados Unidos, 1966 - 71 min
legendado eletronicamente em português | M/16
Doris Wishman
Em ANOTHER DAY ANOTHER MAN (como tantas vezes acontece nos filmes de Wishman, o título é todo um programa) um jovem casal muda-se para um apartamento novo e caro quando o marido recebe um aumento salarial. Infelizmente, ele é logo acometido por uma doença misteriosa e fica acamado. A esposa, incapaz de encontrar um emprego e com as contas a acumular-se, conhece um proxeneta que lhe sugere uma maneira de ganhar muito dinheiro em pouco tempo. A idealização do amor romântico encontra aqui o seu contraponto na realidade crua do sexo pago numa história que caminha em direção à tragédia, tudo filmado no estilo único e inimitável do “realismo onírico“ de Doris Wishman (como o recurso frequente à voz off como forma de contornar limitações de produção e os inserts inesperados e de grande expressividade poética).

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