Lino Brocka (1939–1991) foi um importante cineasta filipino, especialmente conhecido pelos seus filmes sobre a pobreza, a desigualdade, a sexualidade e a vida nas comunidades marginalizadas. O ciclo Lino Brocka – Matem o Artista Nacional, organizado em conjunto com o Doclisboa e elaborado em diálogo com o artista Khavn (Khavn de la Cruz, também autor do documentário NATIONAL ANARCHIST: LINO BROCKA, 2023, e membro do grupo musical The Brockas, que se descrevem como “post-world post-noise post-punk post-rock”), expande um mini-ciclo que teve lugar na Cinemateca em 1982 e um ciclo com Carta Branca onde Augusto M. Seabra programou BAYN KO: KAPIT SA PATALIM/ MEU PAÍS: NO FIO DA LÂMINA (1984).
O inconformista Brocka politizou o género do melodrama, tornando-o uma forma de ação política face à ditadura implacável de Ferdinand e Imelda Marcos. O seu cinema, retrato social mesclado com desenlaces melodramáticos, não glamoriza, mas mostra a realidade filipina: os bairros, o crime, a corrupção, as dificuldades da classe trabalhadora e das pessoas marginalizadas.
Os melodramas de Brocka incorporam ainda o tema da homossexualidade, que, segundo Nick Deocampo (historiador, realizador e pedagogo), no Caderno da Cinemateca dedicado ao realizador filipino que ficará disponível no início da retrospetiva, “enriqueceu o discurso fílmico dos seus filmes”. Apenas três dos seus filmes podiam ser «considerados “oficialmente” gays», mas a forma como representou a homossexualidade não foi “isenta de críticas”. A queerness dos seus melodramas, se só alguns são melodramas queer, está patente na exploração sistemática de “temas de marginalização, exclusão social, desejo reprimido e identidade performativa de pessoas pertencentes a minorias que vivem nas margens da sociedade”.
Com a exceção de JAGUAR, que será exibido em 35mm, os filmes programados serão mostrados em cópias digitais, nos quais se incluem muitos restauros recentes em 4K. Dois deles – ORAPRONOBIS (“Os Insubmissos”) e GUMISING KA... MARUJA (“Acorda... Maruja”) – serão estreias mundiais desses mesmos restauros. Os filmes não restaurados estão, vários deles, em condições frágeis; nessas sessões, a presença de Khavn (que também integra a mesa-redonda de dia 20 de outubro, terça-feira, às 14h) poderá iluminar questões em torno da preservação e da difusão do cinema de Brocka.
Para acompanhar o ciclo, o programador Luís Mendonça organizou a edição de um Caderno da Cinemateca que pretende servir como acompanhamento ao longo ciclo. Através das suas três partes, propõe-se uma visão abrangente dos filmes e do próprio realizador, com textos de Luís Mendonça, Manuel S. Fonseca, Pierre Rissient, Antonio Rodrigues, Carlos Natálio, Nick Deocampo e Khavn.