No final de outubro, a
Cinemateca dedica um ciclo à obra de Margaret Tait, colocando-a em diálogo com trabalhos de outros cineastas que se inspiraram ou que se dedicaram à sua figura, como
Peter Todd (que estará presente a partir de dia 29),
Charlotte Wells, Ute Aurand e
Luke Fowler.
A realizadora, poeta e escritora (artista, sem mais) produziu a sua filmografia ao longo de cinco décadas na Escócia, entre Edimburgo e o arquipélago de Orkney, e focou-se em lugares-comuns – não no sentido de “chavão” ou “banal”, mas no sentido mais representativo de ter dado atenção ao que é particular, aos lugares quotidianos ou domésticos, aos gestos do dia-a-dia. Os seus filmes não estão longe dos seus poemas, porque lida sempre com aquilo que é diarístico, encontrando o sublime no mundano. É através deste olhar sobre as coisas pequenas, sobre o que existe na sua simplicidade, que Margaret Tait as retira do fluxo inexorável do tempo e imprimindo-as em película, eterniza-as e enobrece-as.
O programa, que se intitula
O Cinema de Margaret Tait em diálogo, reúne curtas-metragens – retratos, diários e trabalhos ligados à memória, aos lugares e à experiência quotidiana – e inclui a sua única longa ficcional, BLUE BLACK PERMANENT, para colocar estas obras em interação com outros artistas que se refletem no ou que refletiram sobre o cinema da cineasta escocesa.
Pelo universo poético fascinante que desenvolveu, seja cinematográfico ou escrito, muitas confabulações se criaram no seu eco e muitos emparelhamentos se conceberam para este ciclo. Um deles é a conjugação de AFTERSUN, de Charlotte Wells, que aponta para um dos livros de Tait (Poems, Stories and Writings) e para a influência desta no seu trabalho, com THESE WALLS, onde Tait revela o seu estúdio; o outro emparelhamento é o de ONE IS ONE (1951) de Tait com VIAGGIO IN ITALIA (1954) de Rossellini, colocando-se o primeiro como inadvertido precursor do outro, num diálogo teórico. O programa coloca GLIMPSES FROM A VISIT TO ORKNEY IN SUMMER 1995 de Ute Aurand, que se dedicou a divulgar o cinema de Tait e que recupera aqui um projeto com a realizadora e imagens de uma visita de Aurand a Orkney, em conversa com outras curtas da realizadora escocesa onde o arquipélago de Orkney é o ponto focal. O artista Luke Fowler dedicou-se a revisitar o acervo da realizadora e daí produziu um retrato da artista a partir dos seus materiais inacabados (BEING IN A PLACE: A PORTRAIT OF MARGARET TAIT). Este filme estará num diálogo a três, com ON THE MOUNTAIN, um dos filmes mais conhecidos de Margaret Tait, e FOR LUKE, onde Peter Todd observa o amigo que observou, por sua vez, Tait.
Realizador, curador e grande especialista da obra de Tait, Peter Todd, tem sido incansável na forma como tem mantido o seu cinema vivo – organizando retrospetivas, reunindo textos, acompanhando a preservação dos seus filmes. Todd estará em Lisboa a partir de dia 29 de outubro para acompanhar o ciclo e para apresentar filmes seus em nome próprio que harmonizam em perfeição com os de Margaret Tait por serem tão vinculados ao seu cinema.