A Cinemateca Portuguesa apresenta um ciclo que pretende iluminar, resgatar e contextualizar a filmografia de Hugo Fregonese, um realizador argentino com uma passagem em Hollywood e outra pela Europa e um pé no cinema de género, cujos filmes viscerais e atmosféricos merecem ser redescobertos.
Em julho, Hugo Fregonese – O Desenraizado mostra a proficuidade de alguém que realizou, em três décadas, 28 longas-metragens, atravessando três continentes e seis países. O ciclo cinge-se a 16 títulos que são exemplificativos não só das características dos seus filmes – numa carreira polvilhada de noirs e westerns –, mas também das geografias por onde passou: de origem argentina, foi nesse país que começou a fazer filmes antes de se lançar numa aventura em Hollywood, para depois trilhar terras italianas, inglesas, alemãs e espanholas antes de regressar à terra natal.
Fregonese tinha o condão de conseguir transformar material humilde em algo que, nas suas mãos, ganhava vigor e esplendor. Era um realizador aliciado por ambientes habitados por personagens ora cruéis ora irrequietas, pessoas à beira das normas (sociais ou legais), personagens que não se enquadravam num mundo simples. Assim eram, por exemplo, o patologista no sótão de MAN IN THE ATTIC (uma variação da narrativa de Jack, o Estripador, o primeiro filme do realizador nos Estados Unidos), ou os renegados de OLD SHATTERHAND (1964, realizado na Europa).
Esta noção de um certo “estar à margem”, traz consigo também o tema da itinerância, algo recorrente no seu cinema – desde a personagem de Joel McCrea em SADDLE TRAMP que foge para se esconder no México, ao homem-em-fuga de James Mason em ONE WAY STREET. Ao mesmo tempo, a figura da prisão e a representação da sua escapatória (seja da prisão ou de um país, como foi fazendo na sua própria vida) é algo que se desdobra (ou reflete) em muitos dos seus filmes. Em APENAS UN DELINCUENTE, José Moran está sempre apressado e quando o questionam porquê, diz apenas que busca algo “mais”; em SEVEN THUNDERS, temos um grupo de prisioneiros britânicos que se escondem na França ocupada da Segunda Grande Guerra; já em BLACK TUESDAY (o seu último filme em Hollywood), o gangster Vincent Canelli engendra uma ousada fuga da prisão.
As suas personagens, tal como o próprio realizador, vivem vidas de ritmo acelerado, dinâmico, com os nervos à flor da pele e em franja. O que nos espera, como espectadores do ciclo, é uma fronteira selvagem, povoada por estrelas como James Mason, Ricardo Montalban, Cyd Charisse, Jack Palance, Gary Cooper, Barbara Stanwyck, Edward G. Robinson, Anne Bancroft, Shelley Winters, Lee Van Cleef ou Joan Fontaine.