Entre o início de dezembro de 2025 e abril de 2026, a Cinemateca Portuguesa–Museu do Cinema apresenta em Espanha um ciclo itinerante dedicado ao cinema português, organizado em colaboração com a Filmoteca de València, a Filmoteca de Andalucía, a Filmoteca de Cantabria, a Filmoteca de Navarra e a Filmoteca de Albacete. O ciclo conta também com o contributo da Filmoteca Española que colaborou na legendagem em castelhano de alguns dos títulos.
O programa propõe um percurso através de obras fundamentais da História do cinema português, atravessando géneros, épocas e olhares muito distintos. A viagem começa com FADO, HISTÓRIA D’UMA CANTADEIRA (Perdigão Queiroga, 1947), melodrama popular musical centrado na figura mítica de Amália Rodrigues, que revela a Lisboa do pós-Guerra. Segue-se MUDAR DE VIDA (Paulo Rocha, 1966), marco decisivo do Novo Cinema Português, que traduz na paisagem da Ria de Aveiro o conflito entre tradição e mudança.
O ciclo avança para o período revolucionário com AS ARMAS E O POVO (Coletivo de Trabalhadores da Actividade Cinematográfica, 1974-75), filme coletivo que documenta o ímpeto da Revolução dos Cravos e a energia popular das ruas de Lisboa durante as manifestações do 1º de Maio, e com MÁSCARAS (Noémia Delgado, 1976), notável testemunho da riqueza simbólica dos caretos e dos rituais populares de Trás-os-Montes. Ainda no contexto do diálogo entre política, memória e identidade, ACTO DOS FEITOS DA GUINÉ (Fernando Matos Silva, 1980) revisita a Guerra Colonial através de uma poderosa reflexão sobre as guerras coloniais e as feridas deixadas pela descolonização.
De Manoel de Oliveira, FRANCISCA (1981) convoca o século XIX e a literatura de Agustina Bessa-Luís para uma das suas mais complexas e belas explorações da relação entre amor, destino e escrita. Do mesmo ano, SILVESTRE (João César Monteiro, 1981) reinterpreta contos populares portugueses em chave de ironia e encantamento visual, apresentando Maria de Medeiros na sua estreia no cinema.
O programa prossegue com O SANGUE (Pedro Costa, 1989), a estreia de um dos cineastas centrais do cinema contemporâneo português, onde este constrói uma fábula de iniciação e perda. O ciclo apresenta também XAVIER (Manuel Mozos, 1992), obra de culto do início dos anos 1990, que capta com delicadeza e melancolia o retrato de uma juventude em busca de sentido num Portugal que se tenta definir em relação à Europa.
Os filmes circularão através das novas cópias digitalizadas pela Cinemateca Portuguesa, produzidas no âmbito do Plano de Digitalização do Cinema Português.
Resultado de uma colaboração entre a Cinemateca Portuguesa e as filmotecas espanholas, este ciclo reforça o diálogo entre arquivos e a circulação internacional do património cinematográfico português, promovendo o encontro entre diferentes públicos e a redescoberta de um cinema que reflete a história e o imaginário coletivo do país.