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Assunto: In Memoriam
Data: 22/12/2025
Manuel Faria de Almeida (1934-2025)
Manuel Faria de Almeida (1934-2025)
Lembramos Manuel Faria de Almeida (1934-2025), realizador que nos últimos anos ficou conhecido como o autor de Catembe – Sete Dias em Lourenço Marques (1964), descrito como o filme mais censurado da História do Cinema Português, face aos mais de cem cortes, que o reduziram a uma pálida imagem do filme original. Mesmo amputado e remontado, o filme acabaria por não estrear, embora tivesse data marcada para o Cinema Império, em Lisboa. Catembe foi o filme que marcou a sua vida como cineasta, mas também aquele que, muitos anos depois, viria a gerar muitas cumplicidades e amizades, como a que mantivemos, que cresceu precisamente a partir de uma investigação em torno do seu filme, como também cresceu a amizade com a investigadora Maria do Carmo Piçarra, que nos últimos anos teve um papel inestimável na divulgação desta e de outras obras de Faria de Almeida.
 
Como se escrevia hoje, Manuel Faria de Almeida é muito mais que o autor de Catembe. Nome fundamental do Cinema Novo Português, mesmo se não foi inscrito no movimento por esse seu filme maior, extremamente influenciado pelos Cinemas Novos europeus, mas também pelo Free Cinema, Faria de Almeida foi único no modo como filmou a cidade de Lourenço Marques, onde nasceu, como percebemos pelo que restou do filme, pelos cortes de censura que subsistiram, e pelo guião recentemente publicado, permitindo reconstituir a ideia do filme original.
Depois de uma intensa atividade nos Cineclubes ainda em Moçambique, Faria de Almeida estudaria cinema em Londres, para onde partiu com uma bolsa, mas também em Paris. Paralelamente aos vários filmes que realizou, na sua maioria curtas-metragens, foi presidente do Instituto Português de Cinema e da Tobis Portuguesa, diretor de programas da RTP e do centro de formação da mesma, trabalho de que se orgulhava. Em 2023 foi distinguido com uma Medalha de Mérito Cultural, ao mesmo tempo que Catembe estreava finalmente no cinema, na sequência de novas cópias digitais do filme, que a Cinemateca produziu no âmbito do projeto FILMar. Numa dessas sessões, que se realizaram no Cinema Ideal, apareceu, sem pré-aviso, a jovem protagonista de Catembe, que só mais de cinquenta anos passados viu o filme.
 
2026 será ocasião para mais uma justa homenagem ao cinema de Manuel Faria de Almeida, que como mencionava o próprio nas nossas conversas, englobava outros filmes importantes como Para um Álbum de Lisboa (1966), A Embalagem de Vidro (1966) ou Streets of Early Sorrow, filme premiado que realizou enquanto aluno da London School of Film Technique, que fez o circuito dos Cineclubes do Reino Unido como complemento A Dama de Xangai, de Orson Welles.
 
Joana Ascensão

Notas

Fotografia de Arlindo Homem/DGPC - cerimónia de entrega de medalhas de Mérito Cultural na área do Cinema, 31 outubro 2023