CICLO
In Memoriam Gita Cerveira


A alegria e a elegância eram certas entre as muitas equipas das rodagens que em Angola, Portugal, França, Estados Unidos, Moçambique ou África do Sul puderem contar, no som, com Gita Cerveira (1959-2025), Gita, o Gita, “o nosso Gita”, como tantos amigos do cinema o chamavam. Na filmografia de muitas entradas, na captação, direção ou mistura de som, também se encontra episodicamente creditado como Gita Serverra ou Gita Baptista, o Gita, pelo menos desde meados dos anos 1980 quando foi assistente, ou operador de som de Joaquim Pinto em LE SOULIER DE SATIN e MON CAS de Manoel de Oliveira e L’ÎLE AU TRÉSOR de Raúl Ruiz. Já na década seguinte, foi também assistente de Vasco Pimentel em ZÉFIRO de José Álvaro de Morais, produzido por Joaquim Pinto, ao lado de quem se sintonizou com o cinema português.
Por altura de ZÉFIRO, já Gita Cerveira fora diretor de som de A BALADA DA PRAIA DOS CÃES de José Fonseca e Costa, tal como aconteceu, nessa primeira fase dos anos 1980, início dos anos 1990, em SERENIDADE de Rosa Coutinho Cabral, COMBOIO DA CANHOCA de Orlando Fortunato de Azevedo, LE TRÉSOR DE LES ÎLES CHIENNES de F. J. Ossang, O SOM DA TERRA A TREMER de Rita Azevedo Gomes, ALENTEJO SEM LEI de João Canijo, NON OU A VÃ GLÓRIA DE MANDAR, A DIVINA COMÉDIA e O DIA DO DESESPERO de Oliveira, ou O ÚLTIMO MERGULHO de João César Monteiro. João Ribeiro, Greta Schiller, Ariel de Bigault, Fernando Vendrell, Jean-Pierre Vergne, Maria João Ganga, Khalo Matabane, Licínio de Azevedo, Sol de Carvalho, Yara Costa, Daniel Buckland, André Godinho, João Nuno Pinto são outros dos diversos realizadores com quem Gita atravessou anos e continentes seguindo os filmes nos plateaux e nos estúdios de mistura e pós-produção. O último trabalho, ainda por estrear, foi uma nova colaboração com Zezé Gamboa, cineasta e amigo de quem era especialmente próximo e com quem fez O HERÓI e O GRANDE KILAPY: ALELUIA, recentemente rodado em Cabo Verde.
Nascido e criado em Angola, Luanda, no bairro da Vila Alice, Gita Cerveira iniciou-se no ofício em 1975, ano da Independência do país, na estação pública Televisão Popular de Angola, onde teve formação com o engenheiro de som Antoine Bonfantti, e trabalhou com realizadores como Ruy Duarte de Carvalho, António Ole, João Jardim ou os irmãos Carlos, Vitorino e Francisco Henriques. O trabalho na televisão em Luanda levou-o ao cinema, e daí para Paris, onde se radicou em 1980 e a partir de onde trabalhou com Bonfantti e Joaquim Pinto, aprofundando a formação em som e consolidando, depois, o seu próprio percurso. A importância do seu trabalho no cinema alicerçou-se na variedade de projetos, pessoas e territórios que constituem o corpo da filmografia distinguida com nomeações e prémios em França, África do Sul ou Portugal. Destaca-se a homenagem em Angola do DOCLUANDA – Festival Internacional de Cinema Documental que, em 2022, na sua primeira edição, salientou a abrangência e a dimensão internacional da obra como sonoplasta. A par do profissionalismo, o relevo deste percurso no cinema reflete-se também, muito, na originalidade e na humanidade da presença de Gita Cerveira nas várias comunidades de cinema que conheceu e marcou.
 
 
 
14/05/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo In Memoriam Gita Cerveira

O Herói
de Zezé Gamboa
Angola, França, Portugal, 2004 - 97 min
 
15/05/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo In Memoriam Gita Cerveira

O Último Mergulho
de João César Monteiro
Portugal, França , 1992 - 90 min
16/05/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo In Memoriam Gita Cerveira

Virgem Margarida
de Licínio Azevedo
Moçambique, Portugal, França, 2011 - 85 min
14/05/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
In Memoriam Gita Cerveira
O Herói
de Zezé Gamboa
com Makena Diop, Milton ‘Santo’ Coelho, Maria Ceiça
Angola, França, Portugal, 2004 - 97 min
M/12
Sessão com apresentação
A estreia de O HERÓI, simultânea com a de COMBOIO DA CANHOCA e de NA CIDADE VAZIA parecia prometer novo alento para o cinema angolano, finda a guerra civil. Vitório, que pisou uma mina, é desmobilizado para logo descobrir que, nas ruas da capital, a guerra se trava em cada esquina. Com o conflito bem vivo na memória e inscrito no corpo, sonha um amor impossível com Joana, uma professora que ainda acredita num futuro para o país, reencontrando-se com a sua humanidade com uma prostituta que o ajuda, Maria Bárbara, e com Manu, que busca o pai desaparecido e com o qual inventa uma família possível. Grande prémio do júri no Festival de Sundance de 2005, foi melhor primeira obra nas jornadas cinematográficas de Cartago, entre várias outras distinções em vários festivais.
 
15/05/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
In Memoriam Gita Cerveira
O Último Mergulho
de João César Monteiro
com Fabienne Babe, Canto e Castro, Francesca Prandi, Rita Blanco, Dinis Neto Jorge
Portugal, França , 1992 - 90 min
legendado em português | M/12
O ÚLTIMO MERGULHO é o “esboço de filme” em que João César Monteiro filma “A Água”, a pretexto da série “Os Quatro Elementos”. As personagens são três prostitutas, uma delas muda, e, de novo na obra de César, Lisboa, aqui sobretudo noturna. Neste filme de risco, há tangos, fados, um plano a bordo de um barco para um par dançarino ao som de Par les vallées et les colines (Kapsa) e duas sequências ímpares: a do campo de girassóis, em que “a canção” da banda sonora é água marítima; a do bando de flamingos que leva ao desfecho a negro com Hölderlin na voz de Luis Miguel Cintra sobre uma ária das Variações Goldberg de Bach.
 
16/05/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
In Memoriam Gita Cerveira
Virgem Margarida
de Licínio Azevedo
com Iva Mugalela, Hermelinda Cimela, Rosa Mário, Ana Maria Albino
Moçambique, Portugal, França, 2011 - 85 min
M/12
Em finais de 1975, prostitutas moçambicanas foram levadas para “centros de reeducação” onde lhes eram impostos trabalhos forçados e disciplina militar. Um depoimento sobre como uma camponesa que estava na cidade para comprar o enxoval foi levada por engano pela polícia originou a longa-metragem de ficção VIRGEM MARGARIDA, inspirada em situações e personagens reais: “É sobre os antagonismos da libertação [das mulheres]. Remete para a emancipação das mulheres africanas em situações distintas: alfabetizadas ou não, a mulher colonizada e a mulher revolucionária, que percebe a disciplina imposta pelo homem. […] A reeducação de prostitutas, militares e camponesas foi afinal um processo de mútuo conhecimento, que as leva a unirem-se para se libertarem” (Licínio Azevedo).