CICLO
A Casa


Esta segunda parte de A CASA mostra o que acontece quando os cineastas voltam a câmara “para dentro”; não para o mundo em redor, mas para o interior, para a sua própria casa. Por acaso, será mesmo um filme português o exemplo maior e mais absoluto deste movimento para o interior: VISITA OU MEMÓRIAS E CONFISSÕES, o filme “póstumo” de Manoel de Oliveira, construído como um olhar sobre a casa em que viveu durante décadas no momento em que teve que a vender. Outros cineastas filmaram os seus redutos domésticos, muitas de forma indissociável de um registo ou de uma investigação sobre a família – casos de Sacha Guitry, de Martin Scorsese, de Marco Bellocchio, de Chantal Akerman – mas de uma forma que é sempre “única”, movida por preocupações precisas, e precisa portanto de ser “inventada” a cada momento (e é por isso que todos estes vários filmes, partindo de um princípio mais ou menos comum entre eles, resultam em objetos completamente distintos uns dos outros). Quase sempre, em termos de “género”, estes filmes se aproximam do “documentário”, porque afinal de contas o espaço doméstico é uma realidade tão poderosa que repele qualquer ideia de falsificação. Mas o que acontece quando a ficção se instala “em casa”? Isso é o que se vê, caso quase único na história do cinema, nos derradeiros filmes de Jean-Claude Brisseau (mostramos o último, QUE LE DIABLE NOUS EMPORTE, que o diabo nos carregue), em que a sua casa se transformou num estúdio e a mais delirante e sobrenatural ficção veio habitar a sua sala de estar, o seu escritório, jogar-se com os seus objectos quotidianos, as suas estantes de livros, as suas prateleiras de DVDs. Em maio, teremos uma terceira (e última) parte deste ciclo.
 
10/04/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Casa

TRYING TO KISS THE MOON
de Stephen Dwoskin
Estados Unidos, 1994 - 95 min
 
11/04/2026, 15h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo A Casa

LOST, LOST, LOST
de Jonas Mekas
Estados Unidos, 1976 - 176 min
11/04/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Casa

NO HOME MOVIE
de Chantal Akerman
Bélgica, França, 2015 - 115 min
13/04/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Casa

CEUX DE CHEZ NOUS + ITALIANAMERICAN
14/04/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Casa

ANA
de António Reis, Margarida Cordeiro
Portugal, 1982 - 114 min
10/04/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
A Casa
TRYING TO KISS THE MOON
de Stephen Dwoskin
Estados Unidos, 1994 - 95 min
legendado eletronicamente em português | M/16
Como sempre, Stephen Dwoskin filma a partir dos limites da sua própria mobilidade (vítima da poliomielite em criança, passou a vida dependente de uma cadeira de rodas), e essa escala é determinante. Mas TRYING TO KISS THE MOON alia o auto-retrato à auto-biografia, montando imagens colhidas por Dwoskin no seu quotidiano com os “home movies” que o seus pais filmaram em Nova Iorque, em 1939 (precisamente, o sítio e o ano do nascimento de Dwoskin).

A sessão repete no dia 18 às 19h30, na sala Luís de Pina.

consulte a FOLHA da CINEMATECA aqui
 
11/04/2026, 15h30 | Sala Luís de Pina
A Casa
LOST, LOST, LOST
de Jonas Mekas
Estados Unidos, 1976 - 176 min
legendado eletronicamente em português | M/12
O diário filmado com o qual o lituano Jonas Mekas (1922-2019) documenta os anos 1949-1963 conta as histórias de desapego e pertença que acompanharam a sua chegada aos EUA, e a vida de exílio que aí levou, ao lado do irmão Adolfas, integrando-se na comunidade artística da baixa de Nova Iorque das décadas de 1950 e 60. “Lido, nestas seis bobines, com um período de desespero, de tentativas desesperadas para lançar raízes em terra nova, de construir novas memórias. Nestas dolorosas seis bobines tentei sinalizar qual é a sensação de alguém no exílio, tal como a senti nesses anos. Descrevem o estado de espírito de uma Pessoa Deslocada que ainda não esqueceu o seu país de origem, mas que ainda não conquistou um novo país. A sexta bobine é uma bobine de transição em que começamos a ver alguma descontração, em que eu comecei a vislumbrar momentos de felicidade. A nova vida começa…” (Jonas Mekas).

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11/04/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
A Casa
NO HOME MOVIE
de Chantal Akerman
Bélgica, França, 2015 - 115 min
legendado eletronicamente em português | M/12
A casa da mãe: de uma profunda delicadeza e generosidade, NO HOME MOVIE é simultaneamente um diário, um aceno, uma despedida, uma visita repleta de entrelinhas confessionais. “Este filme é acima de tudo sobre a minha mãe, a minha mãe que já não se encontra entre nós. Sobre essa mulher que chegou à Bélgica em 1938, em fuga da Polónia, dos pogroms e da violência. Essa mulher que é sempre apenas vista dentro do seu apartamento. Um apartamento em Bruxelas. Um filme acerca de um mundo em movimento que a minha mãe não vê.” Belíssimo, NO HOME MOVIE seria o último filme de Chantal Akerman, que afirmou que a mãe, Natalia, era o centro da sua obra.

A sessão repete no dia 18 às 16h00, na sala Luís de Pina.

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13/04/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
A Casa
CEUX DE CHEZ NOUS + ITALIANAMERICAN
CEUX DE CHEZ NOUS
de Sacha Guitry
França, 1915/1952 - 44 min

ITALIANAMERICAN
de Martin Scorsese
com Catherine, Charles e Martin Scorsese
Estados Unidos, 1974 – 45 min

Duração total da projeção: 89 min / legendados eletronicamente em português | M/12

Filho de Lucien Guitry, Sacha cresceu no ambiente da aristocracia cultural francesa. CEUX DE CHEZ NOUS (“Os Lá de Casa”), o seu primeiro contacto com o cinema (que ele desprezou durante décadas, e a que só se dedicou a partir dos anos 30), nasceu da vontade do jovem Guitry de registar as visitas famosas da casa paterna: Sarah Bernhardt, Edgar Degas, Octave Mirbeau, Auguste Renoir, Auguste Rodin, e etc…, num mostruário da elite artístico-cultural francesa do princípio do século XX (e para vários desses vultos, são as únicas imagens filmadas de que há registo). Filmado nos anos 1910, só se tornou mais acessível a partir de 1952, quando Guitry o remontou e lhe acrescentou um comentário em “off” (é esta versão, a “definitiva”, a que vamos ver). Também é “a casa dos pais” que se vê em ITALIANAMERICAN, filme de família ancorado num almoço de Martin com o pai e a mãe Scorsese. Entre outras coisas, é um retrato vivo da imigração italiana em Nova Iorque, e da vida em Little Italy. A receita das almôndegas que Catherine Scorsese prepara para a refeição tornou-se objeto de culto, um belo cruzamento gastronómico-cinéfilo.

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14/04/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
A Casa
ANA
de António Reis, Margarida Cordeiro
com Ana Maria Martins Guerra, Manuel Ramalho Eanes, Octávio Lixa Filgueiras
Portugal, 1982 - 114 min
M/12
Passado e presente, realidade e mito, trabalho e tradições, formam uma teia singular no mais belo e “puro” filme de António Reis e Margarida Martins Cordeiro, e sintetizam uma visão do mundo, de que a terra de Trás-os-Montes parece ser o centro, onde a personagem de Ana representa o equilíbrio cósmico, uma mulher que é “um pouco mais do que uma avó e um pouco menos do que um símbolo” (Serge Daney). Cópia restaurada e ampliada para o formato 35mm.

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