CICLO
Robert Beavers, O Cinema como Revelação


“O acto de filmar deve ser uma fonte de pensamento e de descoberta.”
Robert Beavers
Os filmes de Robert Beavers distinguem-se pelo modo como aliam um trabalho sobre as texturas, as cores, os sons e as formas, ao estudo do mundo que o rodeia, numa exploração plena das possibilidades de um cinema artesanal com uma extraordinária força visual. Beavers (n. 1949) é um dos grandes nomes do cinema experimental norte-americano que emergiu em Nova Iorque no final dos anos sessenta, embora tenha realizado a maior parte do seu trabalho cinematográfico fora dos Estados Unidos.  Mudou-se de Massachusetts para Nova Iorque aos dezasseis anos para aí fazer cinema, mas deixou a cidade logo em 1967, quando juntamente com o seu companheiro, Gregory Markopoulos (1928-1992), que era já um reconhecido cineasta de vanguarda, partiu para a Europa, onde continuaram a fazer filmes. Nos anos seguintes viveram e filmaram na Grécia, Suíça, Alemanha e Itália, e, no início da década de 1990, Beavers iniciou um projeto de remontagem do seu trabalho anterior, reunindo dezoito das obras que filmou entre 1967 e 1993 num ciclo a que chamou “My Hand Outstretched to the Winged Distance and Sightless Measure”, que parte de EARLY MONTHLY SEGMENTS e terminaria em 2002, com o trabalho sobre THE HEDGE THEATER. As versões finais dos filmes que o constituem são geralmente mais curtas do que as originais e contam com novas bandas sonoras, revelando o rigor do cinema de Beavers.
Como afirmou numa entrevista recente: “Os filmes de ‘My Hand Outstretched’ são o resultado da minha vida com Markopoulos; os filmes realizados a partir de 2000 surgiram de um estilo de vida diferente. Nos últimos anos, tenho sido um cineasta-arquivista-organizador de eventos. Há o meu trabalho atual como cineasta em Berlim e noutros lugares, o arquivo na Suíça, e os eventos que organizo, especialmente o Temenos, em Lyssarea, e há a minha vida com Ute Aurand.”  Beavers refere-se à sua vida em comum com a cineasta Ute Aurand, com quem vive atualmente em Berlim; a Temenos, as famosas projeções ao ar livre na Grécia, iniciadas na década de 1980 por Beavers e Markopolous; mas também ao arquivo Temenos que constituiu em Uster, na Suíça, para preservar o trabalho de ambos e o seu legado.
Inspirados pela arte e pela cultura clássica, mas também por tudo aquilo que lhe é mais próximo, os filmes de Beavers apresentam uma estrutura complexa, construída mediante um trabalho artesanal de montagem, que salienta a beleza sensual das suas imagens, sempre registadas com a câmara Bolex de 16mm. Trata-se de um cinema materialista que, centrando-se sobre os detalhes de uma paisagem, de uma pintura, ou de um corpo, nos revela espaços e relações assombrados por memórias que são interpretadas pelo cineasta com uma sensibilidade invulgar. A presença frequente das mãos do cineasta nas imagens, motivo recorrente em toda a sua obra, evoca a qualidade artesanal, quase escultórica do seu cinema.
Para Beavers, o cinema deve ser sempre uma fonte de pensamento e de descoberta, tanto para o realizador como para o espectador, e é indissociável da vida e do corpo de quem filma. Como escreveu; “Filmar é um acto que começa nos olhos do cineasta e é moldado pelos seus gestos em relação à câmara (…) Desenvolve-se uma continuidade para o cineasta entre a estrutura física do meio e cada ação envolvida na filmagem, seja ela simples ou complexa, e esta perceção corporal prolonga-se de outras formas durante a montagem.” (La Terra Nuova).
Se se trata de uma obra autorreflexiva, que nos primeiros anos é particularmente atenta ao processo artístico e às condições materiais da produção cinematográfica, revelando-nos a câmara ou os gestos do cineasta a filmar, os filtros que usa, o modo como monta as imagens e sons através de uma aproximação táctil e sensível, mas também as suas anotações (FROM THE NOTEBOOK OF… é um caso exemplar), Beavers afasta-se progressivamente desta autorreferencialidade para se concentrar nas relações entre os objetos, as pessoas, as paisagens ou os espaços que filma, que conquistam novas qualidade poéticas quando postas em relação. Jonas Mekas definiu muito claramente o seu cinema: “A linguagem cinematográfica de Robert Beavers aproxima-se curiosamente das qualidades cristalinas das pedras e dos minerais – nas formas, tons, sentimentos e qualidade. É uma fusão única da realidade concreta e viva com as realidades abstratas e geométricas, e com a luz.”
Nesta que é uma extensa mostra do trabalho de Robert Beavers, exibimos vinte e um dos seus filmes em cópias exclusivamente em película, distribuídas por seis sessões, que começam com os seus últimos filmes, para logo regressar aos primeiros. O cineasta estará presente nas primeiras sessões e participará numa conversa em que se discutirá mais a fundo a sua obra.
 
23/03/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Robert Beavers, O Cinema como Revelação

ROBERT BEAVERS: PROGRAMA 1
 
24/03/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Robert Beavers, O Cinema como Revelação

ROBERT BEAVERS: PROGRAMA 2
25/03/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Robert Beavers, O Cinema como Revelação

ROBERT BEAVERS: PROGRAMA 3
26/03/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Robert Beavers, O Cinema como Revelação

ROBERT BEAVERS: PROGRAMA 4
27/03/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Robert Beavers, O Cinema como Revelação

ROBERT BEAVERS: PROGRAMA 5
23/03/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Robert Beavers, O Cinema como Revelação
ROBERT BEAVERS: PROGRAMA 1
com a presença de Robert Beavers
DEDICATION: BERNICE HODGES
Estados Unidos, 2024 – 4 min / som

PITCHER OF COLORED LIGHT
Estados Unidos, Alemanha, 2000-2007 – 23 min / som

THE SUPPLIANT
Estados Unidos, 2010 – 5 min / som

LISTENING TO THE SPACE IN MY ROOM
2013 – 19 min / som

AMONG THE EUCALYPTUSES
Grécia, 2017 – 4 min / mudo

“DER KLANG, DIE WELT…”
Suíça, 2018 – 5 min / som

THE SPARROW DREAM
Alemanha, Estados Unidos, 2022 – 29 min / som

de Robert Beavers
duração total da projeção: 89 min | M/14
Uma sessão que reúne os mais recentes filmes de Robert Beavers, que traduzem a evolução no modo como retrata lugares, objetos e relações íntimas, num cinema reflexivo, poético e artesanal, sempre realizado em película. Em DEDICATION: BERNICE HODGES o cineasta regressa a algumas das primeiras imagens que filmou ainda em 1966, que evocam a amiga que em criança o ensinou a esculpir madeira e que lhe revelou o que podia ser um artista. Sobre PITCHER OF COLORED LIGHT, em que visita a casa de sua mãe, Beavers escreveu: “cada sombra é um equilíbrio subtil entre quietude e movimento, revelando a instabilidade vital do espaço. A sua qualidade especial abre uma passagem para o subjetivo”. Em THE SUPPLIANT, “sem uma única imagem do ocupante do apartamento, imagens e sons compõem o retrato de uma vida solitária confortada pela arte.” (Tony Pipolo). Em LISTENING TO THE SPACE IN MY ROOM, Beavers filma o quarto em que viveu em Zurique e o que o rodeia, numa exploração original da relação entre som e imagem, que se traduz numa celebração da vida. Aqui, como em “DER KLANG, DIE WELT…”, evoca ainda Dieter e Cécile Staehelinum, os seus vizinhos e amigos. AMONG THE EUCALYPTUSES regista impressões da Grécia em transformação e THE SPARROW DREAM é um regresso a casa e à sua cidade natal, nos Estados Unidos, mas também a uma visão da Grécia Antiga, despertada na infância, elementos que se fundem com o seu presente berlinense. Primeiras apresentações na Cinemateca, a exibir em cópias 16mm.
24/03/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Robert Beavers, O Cinema como Revelação
ROBERT BEAVERS: PROGRAMA 2
com a presença de Robert Beavers
EARLY MONTHLY SEGMENTS
Grécia, Alemanha, Suíça, 1968-70/2002 – 33 min / mudo

DIMINISHED FRAME
Alemanha, 1970/2001 – 24 min / som

STILL LIGHT
Grécia, Reino Unido, 1970/2001 – 25 min / som

de Robert Beavers
duração total da projeção: 82 min | M/14
EARLY MONTHLY SEGMENTS começou a ser filmado em 1968 quando Beavers tinha apenas dezoito anos, abrindo um ciclo a que deu o nome de “My Hand Outstretched to the Winged Distance and Sightless Measure”, que envolve versões remontadas de dezoito dos seus primeiros filmes. É um autorretrato e um diário que regista aspetos da vida de Beavers com o seu companheiro, o cineasta Gregory Markopoulos, e a mudança para a Europa do casal, com uma atenção aos detalhes, em que estão presentes a intimidade e o homoerotismo. Fundindo preto e branco e cor, DIMINISHED FRAME remete-nos para uma mistura de tempos: imagens registadas em Berlim Ocidental apontam para vestígios de uma guerra passada que ecoa em imagens quotidianas de Beavers a cores. Em STILL LIGHT o cineasta filma na ilha grega de Hydra recorrendo a uma variedade de máscaras e filtros, cujas nuances da luz e da cor nos revelam um rosto de um jovem face a uma paisagem em transformação. Sobre STILL LIGHT Markopoulos escreveu: “Um cineasta em absoluto domínio… STILL LIGHT abre caminho, passo a passo, para uma linguagem a que gostaria de chamar a linguagem dos diamantes.” Primeiras apresentações na Cinemateca, a exibir em cópias 16mm.
25/03/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Robert Beavers, O Cinema como Revelação
ROBERT BEAVERS: PROGRAMA 3
projeção seguida de conversa com Robert Beavers, moderada por Joana Ascensão, programadora do Ciclo, em que se abordarão vários aspetos da obra do cineasta. em inglês, sem tradução simultânea.
FROM THE NOTEBOOK OF …
Itália, 1971/1998 – 48 min / som

THE PAINTING
Suíça, Estados Unidos, 1972/1999 – 13 min / som

de Robert Beavers
duração total da projeção: 61 min | M/14
FROM THE NOTEBOOK OF…  foi filmado em Florença e parte dos cadernos de Leonardo da Vinci e do ensaio de Paul Valéry sobre o seu processo criativo, revelando-se como uma obra autorreflexiva que examina o próprio trabalho de Robert Beavers. As séries de panorâmicas rápidas ao logo das fachadas, intercaladas com vislumbres do rosto do artista e com as suas anotações sobre a estrutura do filme, enfatizam a presença do cineasta e sugerem um olhar investigativo que aponta para uma transformação. THE PAINTING é outro dos filmes que revela o fascínio de Beavers pela pintura e pela cultura clássica, intercalando planos de Gregory Markopoulos e cenas de trânsito nas ruas, com detalhes de uma pintura do século XV, O Martírio de Santo Hipólito. Como FROM THE NOTEBOOK OF… explicita a presença da câmara e é continuamente atravessado por sistema de máscaras e filtros que reenquadram e matizam as imagens. Primeiras apresentações na Cinemateca, a exibir em cópias 16mm.
26/03/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Robert Beavers, O Cinema como Revelação
ROBERT BEAVERS: PROGRAMA 4
com a presença de Robert Beavers
WORK DONE
Itália, Suíça,1972/1999 – 22 min / som

RUSKIN
Reino Unido, Itália, Suíça, 1975/1997 – 45 min / som

AMOR
Itália, Áustria, 1980 – 15 min / som

de Robert Beavers
duração total da projeção: 82 min | M/14
Robert Beavers afasta-se progressivamente de uma investigação sobre o dispositivo cinematográfico para se centrar nas relações entre os objetos e os assuntos que filma. WORK DONE convoca uma fusão de espaços e tempos diferentes. “Como muitos dos filmes de Beavers, baseia-se numa série de equivalências transformadoras texturais: a oficina e o campo, o livro e a floresta, o monte de pedras e uma montanha distante.” (J. Hoberman). RUSKIN explora os locais da obra de John Ruskin: Londres, os Alpes e, sobretudo, Veneza, guiada pelo seu texto melancólico As Pedras de Veneza. O filme desperta camadas de história e revela o fascínio profundo de Beavers pela arquitetura, pela paisagem e pela literatura. “AMOR é uma obra lírica primorosa, filmada em Roma e no teatro natural de Salzburgo. Os sons recorrentes de cortes de tecido, palmas, marteladas e batidas sublinham as associações da montagem de breves movimentos de câmara, que unem a confeção de um fato, o restauro de um edifício e detalhes de uma figura, presumivelmente o próprio Beavers.”(P. Adams Sitney). Primeiras apresentações na Cinemateca, a exibir em cópias 35mm.
27/03/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Robert Beavers, O Cinema como Revelação
ROBERT BEAVERS: PROGRAMA 5
SOTIROS
Grécia, Áustria, Suíça,1976-78/1996 – 25 min / som
EFPSYCHI
Grécia, 1983/1996 – 20 min / som
WINGSEED
Grécia, 1985 – 15 min / som
de Robert Beavers
duração total da projeção: 60 min | M/14
Como afirmou Robert Beavers “Em SOTIROS, existe um diálogo não dito e um diálogo visto.” SOTIROS incorpora uma complexa relação entre texto e imagens num diálogo metafórico entre dois amantes, revelado em grande parte pela representação luminosa de objetos do quotidiano no seu mundo partilhado. Robert Beavers escreveu sobre EFPSYCHI: “Os detalhes do rosto do jovem ator – os seus olhos, sobrancelhas, lóbulo da orelha, queixo, etc. – são colocados em frente aos edifícios antigos do bairro comercial de Atenas, onde cada rua tem o nome de um dramaturgo grego clássico. Neste cenário de intensa quietude, por vezes interrompido por sons e movimentos repentinos nas ruas, ele pronuncia uma única palavra, ‘teleftea’, que significa o último (um) (…) sugerindo a estranha proximidade entre o erotismo, o sagrado e o acaso.” Em WINGSEED Beavers estabelece um paralelismo entre a beleza bucólica de uma colina grega e a da forma masculina. Primeiras apresentações na Cinemateca, com exceção de EFPSYCHI. A exibir em cópias 35mm e em 16mm.