CICLO
Avisos de Tempestade | Os Filmes de Stuart Heisler


“Stuart Heisler, um daqueles valentes que não sabem falhar um filme”, escrevia Robert Lachenay nos Cahiers du cinéma, nos anos 1950. Estava, muito provavelmente, coberto de razão, mas Stuart Heisler (1894-1979) é daqueles cineastas da época clássica do cinema americano que ainda permanecem por conhecer e estudar com a amplitude que merecem. Raras vezes a sua obra foi vista de modo abrangente, e tende a ser lembrado por um punhado de títulos – os filmes que encontraram mais eco na sua época, como THE GLASS KEY ou THE STAR – que deixam a obra restante na obscuridade. Que esconde ela para além desses pontos altos? Aparentemente, descobre-se o que basta para a rever e em alta: na versão revista e aumentada de 50 Ans de Cinéma Américain, o célebre livro de Bertrand Tavernier e Jean-Pierre Coursodon, a entrada referente a Heisler foi a única que, em vez de ser apenas “revista”, foi reescrita de raiz – porque, como disse Tavernier, “entretanto descobrimos centenas de coisas sobre Heisler”.
Neste ciclo, que mostra sensivelmente metade da obra de Heisler como realizador, vamos também descobrir, por certo, algumas dessas coisas. Que costumam estar escondidas em cineastas desta estirpe, com carreiras vividas no modo de “realizador por contrato” e intrinsecamente muito variadas (Heisler é outro dos que andaram por quase todos os géneros), tornando difícil o exercício de “unir” toda esta diversidade. O percurso de Heisler é singular: ele esteve na Hollywood pioneira, desde os anos 1910, essencialmente como montador, mas também desempenhando outras tarefas (foi, por exemplo, gagman para Mack Sennett e para os Keystone Kops). Só no final dos anos 30 foi graduado à posição de realizador, com a prova de fogo como realizador de segunda equipa no THE HURRICANE de John Ford, responsável por algumas das sequências mais espetaculares desse filme. Depois foi o percurso por uma multitude de géneros, deixando em quase todos uma marca (AMONG THE LIVING no fantástico, THE GLASS KEY no film noir, SMASH UP no melodrama social, THE STAR no “women’s picture”, etc.) – tocando até o documentário, no singularíssimo THE NEGRO SOLDIER, uma reflexão sobre a presença dos soldados afroamericanos no exército americano, feito no contexto da II Guerra. Os temas históricos e políticos estão por trás de outros filmes notáveis, como STORM WARNING, que à entrada dos anos 50, em pleno maccarthysmo, assinalava a presença subterrânea de forças tão ameaçadoramente violentas como o Ku Klux Klan, e sobretudo HITLER, o seu último filme, um bizarro, mas profundamente “sério”, olhar biográfico sobre o condutor do III Reich. São alguns dos “avisos de tempestade” que esta obra contém, e que convidamos os espectadores a descobrir – quanto mais não seja, para tirar a limpo a validade da asserção de Lachenay.
 
03/02/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Avisos de Tempestade | Os Filmes de Stuart Heisler

Storm Warning
Tragédia na Cidade
de Stuart Heisler
Estados Unidos, 1950 - 93 min
 
04/02/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Avisos de Tempestade | Os Filmes de Stuart Heisler

Among The Living
Ódio que Vive
de Stuart Heisler
Estados Unidos, 1941 - 69 min
04/02/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Avisos de Tempestade | Os Filmes de Stuart Heisler

The Glass Key
Sou Eu o Criminoso
de Stuart Heisler
Estados Unidos, 1942 - 85 min
05/02/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Avisos de Tempestade | Os Filmes de Stuart Heisler

The Negro Soldier
de Stuart Heisler
Estados Unidos, 1944 - 43 min
06/02/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Avisos de Tempestade | Os Filmes de Stuart Heisler

Along Came Jones
Aí Vem Ele!
de Stuart Heisler
Estados Unidos, 1945 - 90 min
03/02/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Avisos de Tempestade | Os Filmes de Stuart Heisler
Storm Warning
Tragédia na Cidade
de Stuart Heisler
com Ginger Rogers, Ronald Reagan, Doris Day
Estados Unidos, 1950 - 93 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Embora hoje se tenda (mal) a desvalorizar STORM WARNING pela superficialidade no retrato do Ku Klux Klan, a verdade é que ele vai tão longe na caracterização dessa associação quanto se podia esperar de um filme feito para um grande estúdio americano (a Warner) em 1950, em plena época da “caça às bruxas” do “maccarthyismo”. O paralelo mais próximo é com a alusão contida em STARS IN MY CROWN, de Jacques Tourneur, praticamente contemporâneo – o facto de o Klan ser desmascarado como uma associação de homens mesquinhos, sem grande fundamento político, até fortalece o seu carácter vergonhoso. O mérito de ser um “aviso da tempestade” escondida nas profundezas rurais da América ninguém lho tira, e o filme, em modos de thriller que não escamoteia a violência, é dirigido com mão de mestre. Ginger Rogers é impecável numa personagem que acidentalmente se torna testemunha da violência do Klan, e Ronald Reagan, nem mais nem menos, é o procurador que acredita na denúncia dela e vai dar caça ao grupo de criminosos. Primeira exibição na Cinemateca, a exibir em cópia digital.

A sessão repete no dia 09 às 16h30, na sala M. Félix Ribeiro.

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04/02/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Avisos de Tempestade | Os Filmes de Stuart Heisler
Among The Living
Ódio que Vive
de Stuart Heisler
com Albert Dekker, Susan Hayward, Harry Carey
Estados Unidos, 1941 - 69 min
legendado eletronicamente em português | M/12
O real e os seus fantasmas, numa história de desdobramentos: um homem que retorna à sua cidade natal para descobrir que o seu irmão gémeo, mentalmente instável e mantido em isolamento durante anos, fugiu e anda a semear o caos pela região. Uma pequena obra-prima, aparentada com o estilo Val Lewton na RKO, que liga a reverberação do fantástico (dentro daquela linha que vai de FRANKENSTEIN a EL ESPIRITU DE LA COLMENA) ao ambiente, extremamente sugestivo e envenenado, do southern gothic, o “gótico sulista”. Elenco notável: o estranho Albert Dekker no duplo papel dos gémeos, o fordiano Harry Carey e, sobretudo, Susan Hayward, na primeira das três colaborações com Heisler. A exibir em 35mm.

A sessão repete no dia 07 às 19h30, na sala Luís de Pina.

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04/02/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Avisos de Tempestade | Os Filmes de Stuart Heisler
The Glass Key
Sou Eu o Criminoso
de Stuart Heisler
com Brian Donlevy, Veronica Lake, Alan Ladd
Estados Unidos, 1942 - 85 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Remake do filme homónimo de 1935 de Frank Tuttle baseado num romance de Dashiell Hammett (1931), é um dos filmes da dupla noir formada por Veronica Lake e Alan Ladd, reunidos por Tuttle no mesmo ano em THIS GUN FOR HIRE (que com este filme partilha outras afinidades) ou mais tarde em THE BLUE DAHLIA (George Marshall, 1946). Paradigmático do noir, desde logo nas motivações obscuras das personagens e na tonalidade do ambiente estimulado pela fotografia de Theodor Sparkuhl, THE GLASS KEY destila uma forte carga sexual e uma assinalável ambiguidade. A produção da Paramount é um título incontornável da filmografia noir, em que se encontram elementos retomados por Howard Hawks quando, na Warner, juntou Bogart e Bacall em THE BIG SLEEP (1946). A exibir em cópia digital.

A sessão repete no dia 10 às 21h30, na sala M. Félix Ribeiro.

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05/02/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Avisos de Tempestade | Os Filmes de Stuart Heisler
The Negro Soldier
de Stuart Heisler
Estados Unidos, 1944 - 43 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Produzido por Frank Capra sob encomenda governamental, ficou como uma espécie de adenda à série WHY WE FIGHT. Quando o projeto foi lançado, em 1942 (logo a seguir à entrada dos EUA na II Guerra), tratava-se de atrair para a causa da guerra a população afroamericana, sobretudo a que vivia sob segregação nos estados do Sul e que se sentia, por boas razões, desvinculada das causas nacionais de um país que lhe negava a cidadania plena. Nesse aspeto, o filme (escrito por Carlton Moss, que vinha do teatro negro do Harlem e depois se tornou um documentarista da cultura afro-americana) tem coisas de importância histórica extraordinária, como a admissão formal, em jeito de pedido de desculpas, dos maus-tratos a que a nação norte-americana submeteu a sua população negra. Quando ficou pronto, em 1944, na reta final da II Guerra, já não teria muito uso como “propaganda de alistamento”, e inicialmente foi apenas mostrado em contexto militar, e aos soldados afroamericanos. Foi a receção entusiástica deles que levou a uma divulgação mais vasta, primeiro para todo o exército americano e depois, com a estreia no circuito comercial, para o público em geral. Um filme muito singular, que é um marco cinematográfico e político na abordagem das questões raciais nos EUA. A exibir em cópia digital.

A sessão repete no dia 24 às 15h30, na sala M. Félix Ribeiro.

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06/02/2026, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Avisos de Tempestade | Os Filmes de Stuart Heisler
Along Came Jones
Aí Vem Ele!
de Stuart Heisler
com Gary Cooper, Loretta Young, Dan Duryea
Estados Unidos, 1945 - 90 min
legendado em português | M/12
O primeiro e último filme de Gary Cooper como ator-produtor também é um dos primeiros “meta-westerns”, totalmente assente na decomposição do que em 1945 já era tomado como o leque de estereótipos narrativos e figurativos do género. Portanto, é também um Gary Cooper em auto-ironia, com uma personagem que acumula traços caricaturais de todas as personagens de cowboy que à época já tinha interpretado. Até esse velho estereótipo do “cowboy cantor” é adotado: os leitores de banda desenhada notarão que é daqui que vem – “‘I’m a Poor Lonesome Cowboy” – a canção com que Lucky Luke se despedia no final de cada álbum, cavalgando em direção ao horizonte. A criação de Morris e Goscinny é, em parte, “filha” deste filme, o que diz alguma coisa sobre o seu “impacto cultural”. A exibir em cópia 16mm.

A sessão repete no dia 10 às 19h30, na sala Luís de Pina.

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