CICLO
Double Bill


Interrompida desde março de 2020 com a interrupção forçada da atividade de programação da Cinemateca ditada pela pandemia e mantida em suspenso até ao final de 2021, a rubrica Double Bill é reposta a partir de janeiro no seu habitual formato mensal e mantendo os seus pressupostos essenciais: as tardes de sábado na Cinemateca são “Double Bill”, com dois filmes apresentados numa única sessão, e bilhete único, com um intervalo de 30 minutos entre cada um dos dois.
Criada em 2015, esta rubrica regular retomava uma “tradição” vinda dos anos trinta americanos da Grande Depressão, trazendo para dentro deste “modelo”, a lógica última da programação de cinema, estabelecer pontes entre filmes, pô-los em diálogo, propor rimas, uma montagem, mais ou menos declarados. Nos quatro “double bills” de janeiro propõem-se cruzamentos com razões distintas. No primeiro programa, que traz filmes de dois cineastas americanos marginais ao eixo hollywoodiano - THE BEDFORD INCIDENT, de James B. Harris e TWO-LANE BLACKTOP, de Monte Hellman -, encontramos a utilização, com propósitos dramáticos e poéticos, de um estratagema não muito utilizado fora do chamado cinema experimental: a transformação do suporte (a película) em elemento visível, através da simulação de fotogramas queimados. No segundo programa, que cruza um filme do final do franquismo (FURTIVOS) com o mítico THE MOST DANGEROUS GAME, a caça surge como figura central para um discurso sobre totalitarismos, reais ou anedóticos. No terceiro aproximamos a feérie fantasmagórica de CARNIVAL OF SOULS da feérie operática de DER TOD DER MARIA MALIBRAN. Finalmente, lembramos dois filmes quase contemporâneos que elaboram sobre a “diferença” física, entre a doçura do Bogdanovich de MASK e a brutalidade do RATBOY de Sondra Locke.
 
 
08/01/2022, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

The Bedford Incident | Two-Lane Blacktop
duração total da projeção: 203 min | M/12
 
15/01/2022, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

Furtivos | The Most Dangerous Game
duração total da projeção: 146 min | M/12
22/01/2022, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

Carnival of Souls | Der Tod der Maria Malibran
duração total da projeção: 191 min | M/16
29/01/2022, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

Ratboy | Mask
duração total da projeção: 224 min | M/12
08/01/2022, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
The Bedford Incident | Two-Lane Blacktop
duração total da projeção: 203 min | M/12
entre a projeção dos dois filmes há um intervalo de 30 minutos
THE BEDFORD INCIDENT
Desafiando o Perigo
de James B. Harris
com Sidney Poiter, Richard Widmark, James Macarthur, Martin Balsam
Estados Unidos, Reino Unido, 1965 – 101 min
legendado eletronicamente em português

TWO-LANE BLACKTOP
A Estrada Não Tem Fim
de Monte Hellman
com James Taylor, Dennis Wilson, Warren Oates
Estados Unidos, 1971 – 102 min / legendado em português

O primeiro filme realizado por James B. Harris é uma espécie de contraponto “sério” ao DR STRANGELOVE de Kubrick, estreado no ano anterior. Como ele, é um produto do temor de um conflito nuclear, para que o mundo despertara plenamente um par de anos antes, com a crise dos mísseis de Cuba. A narrativa mostra um navio de guerra americano em perseguição de um submarino soviético até águas territoriais da URSS, rumo a um desfecho catastrófico causado por uma sucessão de equívocos. Richard Widmark, num papel inspirado no Achab de Moby Dick, compõe um retrato brilhante da mentalidade militarista dum “falcão”. Monte Hellman, que se destacara em 1967 com um western, THE SHOOTING, com Jack Nicholson, vira-se aqui para o “road movie” – e para muitos este é o “road movie” por excelência. Viagem de descoberta e estranheza, um pouco como EASY RIDER, TWO-LANE BLACKTOP é interpretado pelo célebre singer/songwriter James Taylor e por Dennis Wilson, o baterista dos Beach Boys. A juventude de 70, depois do rock, do Woodstock, do “peace & love”: será TWO-LANE BLACKTOP o filme que faz a ponte entre os heróis clássicos de Nicholas Ray e os protagonistas, muito “reais”, de WE CAN’T GO HOME AGAIN?. Se “a estrada não tem fim”, então é certo que “não se pode voltar para casa”… e no fim, a película arde. THE BEDFORD INCIDENT tem a sua primeira apresentação na Cinemateca e será exibido em cópia digital.

consulte a FOLHA DA CINEMATECA de THE BEDFORD INCIDENT aqui

consulte a FOLHA DA CINEMATECA de TWO-LANE BLACKTOP aqui
15/01/2022, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
Furtivos | The Most Dangerous Game
duração total da projeção: 146 min | M/12
entre a projeção dos dois filmes há um intervalo de 30 minutos
FURTIVOS
de José Luis Borau
com Lola Gaos, Ovidi Montillor, José Luis Borau
Espanha, 1975 – 83 min / legendado eletronicamente em português

THE MOST DANGEROUS GAME
O Malvado Zaroff
de Irving Pichel, Ernest B. Schoedsack
com Joel McCrea, Fay Wray, Leslie Banks
Estados Unidos, 1932 – 63 min / legendado em português

No estertor do franquismo (FURTIVOS estreou dois meses antes da morte de Franscisco Franco), José Luis Borau realizava uma das mais elípticas e impiedosas análises do regime e da mentalidade que ele impôs. A caça – furtiva – serve de metáfora política, e para além da política, a um ambiente estagnado e em entropia profunda, de que o “edipianismo” do protagonista (um caçador da região de Segovia) é outra e severa manifestação. Um dos filmes cruciais do cinema espanhol dos anos 1970. THE MOST DANGEROUS GAME é a primeira e mais famosa das inúmeras adaptações da novela de Richard Cornell, sobre um perverso aristocrata russo, senhor de uma ilha nos mares do Sul onde se entrega ao “mais perigoso jogo”: a caça ao homem (náufragos que primeiro recolhe, antes de os lançar aos pântanos). “Depois da caçada, a orgia” é o lema do sádico conde.

consulte a FOLHA DA CINEMATECA de FURTIVOS aqui

consulte a FOLHA DA CINEMATECA de THE MOST DANGEROUS GAME aqui
 
22/01/2022, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
Carnival of Souls | Der Tod der Maria Malibran
duração total da projeção: 191 min | M/16
entre a projeção dos dois filmes há um intervalo de 30 minutos
CARNIVAL OF SOULS
de Herk Harvey
com Candace Hilligoss, Frances Feist, Sidney Berger
Estados Unidos, 1962 – 82 min
legendado eletronicamente em português | M/14

DER TOD DER MARIA MALIBRAN
“A Morte de Maria Malibran”
de Werner Schroeter
com Magdalena Montezuma, Christine Kaufmann, Ingrid Caven
República Federal da Alemanha, 1971 – 109 min
legendado eletronicamente em português | M/16

Herk Harvey é uma figura singular, que teve uma longa carreira como realizador de filmes educativos. Em 1962, talvez inspirado pelo trabalho de Roger Corman, lançou-se em CARNIVAL OF SOULS, um filme de baixíssimo orçamento, feito longe de Hollywood, no Kansas e no Utah, do qual George Romero se tornaria o primeiro dos defensores apaixonados (NIGHT OF THE LIVING DEAD colhe a inspiração neste filme). Um notável e raro pequeno filme de terror, que parte da morte por afogamento de um grupo de raparigas, num acidente de viação, e da posterior aparição de uma delas como organista de igreja. Também autor do argumento, Herk Harvey imaginou-o a partir da visão de “pessoas mortas a dançar num salão de baile em Great Salt Lake”. O filme teve uma única passagem na Cinemateca. Werner Schroeter (1945-2010) impôs-se desde as suas primeiras obras como um dos maiores nomes do cinema alemão ao apresentar um universo único, que conjuga domínios como a ópera, o teatro, a literatura e a pintura. Sétima longa-metragem do realizador, DER TOD DER MARIA MALIBRAN é um dos filmes mais célebres e mais belos realizados por Werner Schroeter num período particularmente fecundo do seu trabalho. Inspirando-se no mito de uma célebre cantora de inícios do século XIX, é um filme sobre os mitos da ópera, feito por um apaixonado pelo género, um filme sobre “a voz como extensão da vida, como veículo de libertação e de morte” (José Manuel Costa). Uma das grandes obras de um poeta do cinema, um dos raros cineastas verdadeiramente independentes que aqui teve presenças memoráveis e cujos filmes deixaram uma marca fortíssima, desde o mítico “Ciclo de Cinema Alemão” realizado logo em 1981 (no ano seguinte à abertura da sala na Barata Salgueiro), que cruzava títulos do cinema mudo com o Novo Cinema Alemão, a uma importante retrospetiva, realizada em 2014, já depois da morte de Schroeter. Ambos os filmes serão exibidos em cópias digitais.
 
29/01/2022, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
Ratboy | Mask
duração total da projeção: 224 min | M/12
entre a projeção dos dois filmes há um intervalo de 30 minutos
RATBOY
Ratboy – Perdido na Multidão
de Sondra Locke
com Sondra Locke, Robert Townsend, Christopher Hewett
Estados Unidos, 1986 – 104 min
legendado eletronicamente em português

MASK
A Máscara
de Peter Bogdanovich
com Cher, Eric Stoltz, Sam Elliott, Estelle Getty, Laura Dern, Harry Carey Jr.
Estados Unidos, 1985 – 120 min
legendado eletronicamente em português

Para Bogdanovich, MASK foi o filme do sucesso comercial e de desentendimentos vários (com o produtor pelo “final cut” e pelas intromissões na banda sonora, onde há canções de Bob Seager em vez de Bruce Springsteen, o desejo do realizador; com a atriz protagonista durante a rodagem, se bem que Cher tenha conquistado o prémio de melhor atriz no Festival de Cannes de 1985). A história é baseada na vida prematuramente interrompida de Roy L. “Rocky” Dennis, um rapaz que sofria de uma doença rara. Mesmo neste período de “recuperação” intensiva do cinema de mulheres cineastas ainda ninguém se lembrou de resgatar Sondra Locke (1944-2018) ao esquecimento. Avançamos nós, então. Muito mais conhecida como atriz, e especialmente pelas suas colaborações com Clint Eastwood (com quem partilhou a vida pessoal entre meados dos anos setenta e o final dos anos oitenta), Sondra Locke assinou em RATBOY a sua primeira experiência (de um total de quatro) como realizadora, produzida pela Malpaso de Clint e rodeada de colaboradores do seu marido na altura (Bruce Surtees na fotografia, Joel Cox na montagem, Lennie Niehaus na música). Pessimamente recebido, é um filme notável, um dos mais estranhos e indefiníveis filmes americanos da década de oitenta, uma fábula sobre a “diferença” e a “discriminação” (o “rapaz-rato”, cuja origem o filme nunca explica, é um “contentor” metafórico que pode ser preenchido com a forma concreta que o espectador quiser), tanto como sobre o “espectáculo” e sobre a inevitabilidade da violência na relação entre a “norma” e a “anomalia”. Um “lado B”, muito negro, para o MASK de Bogdanovich.