CICLO
A Casa


Esta segunda parte de A CASA mostra o que acontece quando os cineastas voltam a câmara “para dentro”; não para o mundo em redor, mas para o interior, para a sua própria casa. Por acaso, será mesmo um filme português o exemplo maior e mais absoluto deste movimento para o interior: VISITA OU MEMÓRIAS E CONFISSÕES, o filme “póstumo” de Manoel de Oliveira, construído como um olhar sobre a casa em que viveu durante décadas no momento em que teve que a vender. Outros cineastas filmaram os seus redutos domésticos, muitas de forma indissociável de um registo ou de uma investigação sobre a família – casos de Sacha Guitry, de Martin Scorsese, de Marco Bellocchio, de Chantal Akerman – mas de uma forma que é sempre “única”, movida por preocupações precisas, e precisa portanto de ser “inventada” a cada momento (e é por isso que todos estes vários filmes, partindo de um princípio mais ou menos comum entre eles, resultam em objetos completamente distintos uns dos outros). Quase sempre, em termos de “género”, estes filmes se aproximam do “documentário”, porque afinal de contas o espaço doméstico é uma realidade tão poderosa que repele qualquer ideia de falsificação. Mas o que acontece quando a ficção se instala “em casa”? Isso é o que se vê, caso quase único na história do cinema, nos derradeiros filmes de Jean-Claude Brisseau (mostramos o último, QUE LE DIABLE NOUS EMPORTE, que o diabo nos carregue), em que a sua casa se transformou num estúdio e a mais delirante e sobrenatural ficção veio habitar a sua sala de estar, o seu escritório, jogar-se com os seus objectos quotidianos, as suas estantes de livros, as suas prateleiras de DVDs. Em maio, teremos uma terceira (e última) parte deste ciclo.
 
06/04/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Casa

VISITA OU MEMÓRIAS E CONFISSÕES
de Manoel de Oliveira
Portugal, 1982 - 68 min
 
07/04/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Casa

F FOR FAKE
de Orson Welles
França, Irão, 1974 - 88 min
08/04/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Casa

CEUX DE CHEZ NOUS + ITALIANAMERICAN
09/04/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Casa

SOFT AND HARD (A SOFT CONVERSATION BETWEEN TWO FRIENDS ON A HARD SUBJECT) + JLG/JLG
SOFT AND HARD (A SOFT CONVERSATION BETWEEN TWO FRIENDS ON A HARD SUBJECT) + JLG por JLG
09/04/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo A Casa

QUE LE DIABLE NOUS EMPORTE
Que o Diabo nos Carregue
de Jean-Claude Brisseau
França, 2018 - 97 min
06/04/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
A Casa
VISITA OU MEMÓRIAS E CONFISSÕES
de Manoel de Oliveira
com Manoel de Oliveira, Maria Isabel Oliveira, Urbano Tavares Rodrigues, Teresa Madruga, Diogo Dória
Portugal, 1982 - 68 min
M/12
Realizado no início dos anos 1980 para ser visto como filme póstumo, VISITA OU MEMÓRIAS E CONFISSÕES levou Manoel de Oliveira a filmar a casa da Rua Vilarinha, no Porto, projetada pelo arquiteto José Porto, que fez construir e foi a sua casa de família desde que se casou, em 1940, e durante cerca de quatro décadas mas foi forçado a vender (a “casa da Vilarinha” viria a ser classificada imóvel de interesse público, também pela sua histórica ligação ao modernismo português e pela singularidade como obra arquitetónica, a que estiveram ligados, além de José Porto, Viana de Lima e Cassiano Branco). Entre os momentos associados à vida nessa casa está a reconstituição da detenção de Oliveira pela PIDE, em 1963, altura em que conheceu o escritor Urbano Tavares Rodrigues. Na obra de Oliveira, é o filme seguinte a FRANCISCA, a partir de um argumento próprio com texto de Agustina Bessa-Luís, fotografia de Elso Roque, som de Joaquim Pinto e montagem coassinada com Ana Luísa Guimarães. VISITA OU MEMÓRIAS E CONFISSÕES é um filme autobiográfico, de “memórias e confissões”, facto que esteve na origem da vontade do realizador em mantê-lo inédito durante o seu tempo de vida. “Uma casa é uma relação íntima, pessoal, onde se encontram as raízes”, “a meu pedido, a Agustina fez um texto, muito bonito, a que chamou Visita. E eu acrescentei-lhe algumas reflexões sobre a casa e sobre a minha vida” (Manoel de Oliveira). 

consulte a FOLHA da CINEMATECA aqui
07/04/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
A Casa
F FOR FAKE
de Orson Welles
com Orson Welles, Oja Kodar, Elmyr de Hory, Clifford Irving, Joseph Cotten
França, Irão, 1974 - 88 min
legendado em espanhol e eletronicamente em português | M/12
F FOR FAKE é um dos mais insólitos filmes de Orson Welles, fabulosa incursão no mundo da ilusão, da fraude e da mentira. Welles prestidigitador, mestre de magia, traz até nós a presença de falsificadores célebres, na pintura (Elmyr de Hory) e na escrita (Clifford Irving, autor de uma falsa autobiografia de Howard Hughes) e mostra como o cinema é a arte suprema dessas ilusões. Particularmente o seu. É um filme parcialmente feito “em casa”.

consulte a FOLHA da CINEMATECA aqui
08/04/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
A Casa
CEUX DE CHEZ NOUS + ITALIANAMERICAN
CEUX DE CHEZ NOUS
de Sacha Guitry
França, 1915/1952 - 44 min

ITALIANAMERICAN
de Martin Scorsese
com Catherine, Charles e Martin Scorsese
Estados Unidos, 1974 – 45 min

Duração total da projeção: 89 min / legendados eletronicamente em português | M/12

Filho de Lucien Guitry, Sacha cresceu no ambiente da aristocracia cultural francesa. CEUX DE CHEZ NOUS (“Os Lá de Casa”), o seu primeiro contacto com o cinema (que ele desprezou durante décadas, e a que só se dedicou a partir dos anos 30), nasceu da vontade do jovem Guitry de registar as visitas famosas da casa paterna: Sarah Bernhardt, Edgar Degas, Octave Mirbeau, Auguste Renoir, Auguste Rodin, e etc…, num mostruário da elite artístico-cultural francesa do princípio do século XX (e para vários desses vultos, são as únicas imagens filmadas de que há registo). Filmado nos anos 1910, só se tornou mais acessível a partir de 1952, quando Guitry o remontou e lhe acrescentou um comentário em “off” (é esta versão, a “definitiva”, a que vamos ver). Também é “a casa dos pais” que se vê em ITALIANAMERICAN, filme de família ancorado num almoço de Martin com o pai e a mãe Scorsese. Entre outras coisas, é um retrato vivo da imigração italiana em Nova Iorque, e da vida em Little Italy. A receita das almôndegas que Catherine Scorsese prepara para a refeição tornou-se objeto de culto, um belo cruzamento gastronómico-cinéfilo.

A sessão repete no dia 13 às 21h30, na sala M. Félix Ribeiro.

consulte a FOLHA de CEUX DE CHEZ NOUS aqui

consulte a FOLHA de ITALIANAMERICAN aqui

 
09/04/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
A Casa
SOFT AND HARD (A SOFT CONVERSATION BETWEEN TWO FRIENDS ON A HARD SUBJECT) + JLG/JLG
SOFT AND HARD (A SOFT CONVERSATION BETWEEN TWO FRIENDS ON A HARD SUBJECT) + JLG por JLG
SOFT AND HARD (A SOFT CONVERSATION BETWEEN TWO FRIENDS ON A HARD SUBJECT)
de Jean-Luc Godard, Anne-Marie Miéville
Grã-Bretanha, 1986 - 48 min / legendado eletronicamente em português

JLG/JLG
JLG por JLG
de Jean-Luc Godard
com Jean-Luc Godard, Geneviève Pasquier, Denis Jadot
França, Suíça, 1994 – 55 min/ legendado eletronicamente em português

Duração total da projeção: 103 min | M/12

SOFT AND HARD é também um diálogo – entre Godard e a sua companheira Anne-Marie Miéville – onde aos temas do cinema e da televisão se acrescentam os da criação artística e das relações amorosas. Em JLG/JLG, “Auto-retrato em Dezembro”, Godard encena a sua própria solidão, a partir do local escolhido para o seu exílio voluntário: a sua casa na Suíça, nas margens do lago Leman. Trata-se de um trabalho de uma beleza assombrosa, feito de uma tristeza pontualmente cortada por assomos luminosos e marcada por uma inquietante lucidez.

A sessão repete no dia 27 às 21h30, na sala M. Félix Ribeiro.

consulte a FOLHA de SOFT AND HARD aqui

consulte a FOLHA de JLG/JLG aqui
 
09/04/2026, 19h30 | Sala Luís de Pina
A Casa
QUE LE DIABLE NOUS EMPORTE
Que o Diabo nos Carregue
de Jean-Claude Brisseau
com Fabienne Babe, Isabelle Prim, Anna Sigalevitch
França, 2018 - 97 min
legendado em português | M/16
O filme final de Brisseau, talvez em plena consciência disso. Outra vez rodado, com um mínimo de meios, em casa do próprio autor, é um filme que retoma os temas (e o imaginário) do cinema de Brisseau (de CHOSES SECRÈTES em diante mas também o anterior, por exemplo o de CÉLINE) para o enformar duma gravidade desconcertante, com remissões a Bresson e a Pushkin, que vive paredes meias com a sua própria irrisão. Um bom resumo para a sua obra, afinal: inclassificável, sofisticada, habitante duma críptica ambiguidade.

A sessão repete no dia 15 às 21h30, na sala M. Félix Ribeiro.

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