A primavera é antecipada por um ciclo que perfaz um itinerário cinematográfico por Lisboa, Capital da Intriga Internacional. Este explora uma faceta particularmente entusiasmante da cidade: o seu papel no subgénero do thriller, dada a posição geográfica que favorecia a proliferação de espionagem, redes criminosas e intriga internacional. Percorrendo cerca de 20 filmes, a Cinemateca tece o seu próprio roteiro ao longo do qual tropeçamos em conspiradores, agentes secretos ou traficantes em espaços alfacinhas (e dos seus arredores), do Terreiro do Paço ao Castelo de São Jorge, passando pela marginal. Os títulos incluem várias primeiras apresentações na Cinemateca, numa mostra que exibe filmes como: LISBON (Ray Miland, 1956), a primeira produção americana inteiramente rodada em Portugal; ON HER MAJESTY’S SECRET SERVICE (Peter R. Hunt, 1969), a única vez em que George Lazenby enverga as roupagens de James Bond, no filme onde o espião se casa com o Estoril em pano de fundo; STORM OVER LISBON (George Sherman, 1944), um filme de série B protagonizado por Erich von Stroheim e com direção de fotografia de luxo de John Alton; já o conto de Roald Dahl Beware of the Dog é a base das 36 HOURS (George Seaton, 1964) vividas por James Garner, Eva Marie Saint e Rod Taylor; sendo que THE CONSPIRATORS (Jean Negulesco, 1944) traz dois atores de CASABLANCA (Paul Henreid e Peter Lorr) e Hedy Lamarr para um filme que explora esse êxito, transpondo a trama para a capital portuguesa. O ciclo inclui, ainda, duas obras portuguesas que evocam as aventuras de espiões feitas no estrangeiro, com OPERAÇÃO DINAMITE (Pedro Martins, 1967, filme que passa com "duplo chapéu", em homenagem a Glória de Matos) e SETE BALAS PARA SELMA (António de Macedo, 1967). A programação, que inclui ainda uma mesa-redonda e visitas guiadas , resulta de uma colaboração entre a Cinemateca e a NOVA FCSH (através do Instituto de História Contemporânea e do projeto ExPORT).
O equinócio traz também um dos mais importantes cineastas experimentais americanos a emergir no final dos anos 1960, Robert Beavers, que estará na Cinemateca a apresentar um ciclo que agrega trabalhos seus desde o pioneiro EARLY MONTHLY SEGMENTS (1968-70/2000); FROM THE NOTEBOOK OF… (1971/1998), RUSKIN (1975/1997), AMOR (1989) ou THE STOAS (1991–97) e ainda as suas obras mais recentes, como DEDICATION: BERNICE HODGES, de 2024, que abre o programa. O ciclo não é uma mostra integral, mas posiciona-se enquanto seleção muito significativa dos seus filmes (com poucos ausentes) e a maior dos últimos anos na Europa. De 23 a 28 de março, é possível acompanhar a evolução do realizador e o seu singular cinema como experiência sensível do espaço e do tempo, um cinema materialista e artesanal revelado em 21 filmes exibidos exclusivamente em película, em cópias 16mm e 35mm. Robert Beavers marca presença na Barata Salgueiro, onde apresenta várias sessões e participa numa conversa sobre a sua obra.
Março traz ainda alguns filmes clássicos incontornáveis – de Akerman, Barnet, Buñuel, Chaplin, Duras, Edwards, Erice, Godard, Hitchcock, Keaton, Kubrick, Kuleshov, Lang, Lewis, Lynch, Ray, Rivette, Rozier, Schmid ou Tati, entre outros – no âmbito de um ciclo que se debruça sobre A Casa. A primeira de três partes aborda o espaço do lar enquanto lugar físico-mas-simbólico e, sobretudo, enquanto lugar de sensações incertas ou paradoxais, tanto evocando conforto como cárcere. A mansão de REBECCA (ou o hotel de THE SHINING) é uma paisagem assombrada; em JOHNNY GUITAR é um símbolo da independência feminina; para MON ONCLE, é um local de sátira tecnológica; ao mesmo tempo, este espaço pode ainda ser uma armadilha, ratoeira e prisão, como em LOST HIGHWAY ou EL ÁNGEL EXTERMINADOR. Abrem-se as portas para uma exploração d’A Casa enquanto motor narrativo.
Como já é hábito mensal, voltamos às paragens da Viagem ao Fim do Mudo, com três filmes com ligações temáticas significativas. THE LAST COMMAND (1928), de Josef von Sternberg, BROKEN BLOSSOMS (1919), de D.W. Griffith, e NANA (1926), de Jean Renoir, alinham-se pela forma como lidam com temas como a obsessão, o desejo e a humilhação. Ao mesmo tempo, destacam-se pela expressividade da mise-en-scène que explora a paisagem emocional das personagens através da fotografia e do décor. Ainda a propósito de cinema mudo, os clássicos de Charles Chaplin, THE KID e CITY LIGHTS, serão exibidos no Teatro Camões com acompanhamento musical da Orquestra Sinfónica Portuguesa, dirigida por Timothy Brock, numa nova colaboração entre a Cinemateca Portuguesa e o Teatro Nacional São Carlos.
Por fim, é dado tempo e espaço também a momentos de homenagem a duas figuras recentemente falecidas do cinema português: Glória de Matos e João Canijo, de quem vamos passar TRÊS MENOS EU (1988), antecipando uma retrospetiva que a Cinemateca lhe dedicará no próximo ano.