Em outubro, com a chegada do outono, os dias começam a diminuir e a temperatura a descer. Na Cinemateca, a programação faz-se entre o silêncio da grande estrela masculina europeia dos anos 1960 (Alain Delon) e a companhia de um dos nomes mais injustamente esquecidos no panorama do cinema documental moderno (William Greaves). Além destes dois grandes ciclos, prosseguem a viagem ao fim do mudo e o programa Malamor / Tainted Love com os realizadores convidados João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, comemora-se o Dia Mundial do Património Audiovisual e homenageia-se Luís Lucas, ator inesquecível do cinema português, recentemente desaparecido.
Um ano após a sua morte, Alain Delon é alvo de uma retrospetiva com a qual a Cinemateca pretende mostrar o trabalho de um verdadeiro símbolo do cinema francês (e não só, pois a sua extraordinária presença também se fez notar em grandes produções italianas) que soube como poucos gerir uma carreira de encontros com grandes cineastas – Clément, Melville, Visconti, Antonioni, Zurlini, Losey e Godard entre os mais decisivos. Ao mesmo tempo, foi capaz de assumir o papel de ator-produtor que lhe permitiu escolher cúmplices e apostar em projetos mais pessoais e menos óbvios para uma grande vedeta. O Ciclo “Alain Delon, a Virtude do Silêncio”, organizado em colaboração com a Festa do Cinema Francês, propõe dar a ver as várias facetas de um percurso com mais de seis décadas, que inclui grandes obras-primas e filmes do imaginário popular do cinema do século XX.
O cinema de William Greaves é o mote para nova retrospetiva conjunta entre a Cinemateca e o Doclisboa. Realizador inédito nas salas da Cinemateca (com exceção de IN THE COMPANY OF MEN, apresentado na sessão de antevisão desta retrospetiva no passado mês de julho), Greaves inicia a sua carreira na representação, tendo sido um dos primeiros membros do Actors Studio onde aprendeu o “Method acting”. É contudo no Canadá, a partir dos anos 1950, que aprende a montar e realizar num sistema de produção fundado por John Grierson e começa a colaborar com os principais nomes do cinema direto daquele país. No final da década autonomiza-se, com a realização a solo de EMERGENCY WARD, e a partir daí nunca mais deixaria de criar um cinema de estilo documental que nunca deixou de experimentar criticamente com o artifício da encenação e do role play. A retrospetiva “Na Companhia de William Greaves” servirá de amostra exaustiva de uma obra extensa, mas pouco vista, dando conta da complexidade e variedade de propostas contidas no cinema de alguém que encarava a realização como uma missão de vida e o cinema como modo de questionamento da sociedade.
Ainda em outubro, chega ao final o programa Malamor / Tainted Love, criado em diálogo com João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata. Além da exibição dos filmes assinados pela dupla e de uma seleção de títulos por ela escolhidos, haverá o lançamento de um Caderno da Cinemateca dedicado ao trabalho dos realizadores convidados de setembro e outubro e a apresentação da versão de trabalho do próximo filme de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata (13 ALFINETES), uma história de amor, vingança e sangue em torno do santo António de Lisboa (e de Pádua).
Destaque também para duas sessões de homenagem a Luís Lucas, presença assídua e inesquecível nos palcos e no grande ecrã, tendo colaborado de perto com nomes como Luis Miguel Cintra e Jorge Silva Melo, entre muitos outros, e para novo trio de filmes da viagem ao fim do mudo que irá decorrer até 2027 na Cinemateca: TAKOVÝ JE ZIVOT / Assim é a Vida, de Carl Junghans, SEVENTH HEAVEN, de Frank Borzage, e THE KID, de Charles Chaplin, com acompanhamento ao piano por Daniel Schvetz, João Paulo Esteves da Silva e Filipe Raposo, respetivamente.
Por fim, e como tem sido habitual nos últimos anos, a Cinemateca volta a celebrar o Dia Mundial do Património Audiovisual, comemorado pelos membros da FIAF – Federação Internacional dos Arquivos de Filmes – a 27 de outubro. Este ano a data é assinalada com dois filmes imperdíveis: SANSHO DAYU / O Intendente Sansho, de Kenji Mizoguchi, apresentado numa nova cópia 35mm produzida pelo laboratório da Cinemateca, e THE SCARLET DROP, o filme de John Ford com Harry Carey, uma das primeiras estrelas do western e da família fordiana, que permaneceu perdido durante mais de um século até ser descoberto, no ano passado, num armazém em Santiago do Chile, a exibir na versão restaurada digitalmente pela Cineteca Nacional do Chile.