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Assunto: Programação
Data: 29/08/2025
Era uma vez… o Western sem Cowboy e o Cowboy sem Western
Era uma vez… o Western sem Cowboy e o Cowboy sem Western
Durante todo o mês de setembro, tem lugar na Cinemateca a terceira e última parte do Ciclo dedicado ao grande género do western, que principiou em janeiro deste ano e teve a sua segunda parte dividida entre os meses de junho e julho. As marcas do género tornam-se elusivas ou não-evidentes e o cowboy moderniza-se, o que também quer dizer que se desglamouriza, tornando-se, por vezes, numa figura “demasiado real”, errante e alienada.

As marcas do faroeste são agora envergadas como vestígios de um tempo passado que não volta mais, pelo menos, nos termos antigos ou clássicos. Tudo isto pesem embora a resistência ativa de “últimos clássicos” tais como Kevin Costner e Clint Eastwood (passam DANCES WITH WOLVES do primeiro, UNFORGIVEN e BRONCO BILLY do segundo) e dos mais idiossincráticos John Sayles (LONE STAR) e Quentin Tarantino (DJANGO UNCHAINED e HATEFUL EIGHT). De qualquer modo, e apesar de um certo ressurgimento recente, as especializações no género escasseiam no cinema contemporâneo, sendo as visitas ao género por norma algo oblíquas, mas quase sempre surpreendentes.

Ao mesmo tempo, abre-se espaço “para elas”, realizadoras tais como Barbara Loden (FRONTIER EXPERIENCE), Kelly Reichardt (MEEK’S CUTOFF), Chloé Zhao (THE RIDER) e inclusive Valeska Grisebach (WESTERN), para se repensar o género num novo prisma e, acima de tudo, não necessariamente masculino. A possibilidade de um western queer foi convertida num intenso e belo melodrama pela mão do taiwanês Ang Lee em BROKEBACK MOUNTAIN, em primeira passagem na Cinemateca Portuguesa, tal como, aliás, muitos destes pós-westerns ou westerns contemporâneos.
 
O presente Ciclo colige várias aproximações ao género, indo do sci-fi de aventuras (STAR WARS) ao sci-fi de horror (JOHN CARPENTER’S GHOSTS OF MARS); da perspectiva do gado sobre a travessia pelo território americano num documentário como SWEETGRASS ao inesperado olhar do índio sobre o clássico intemporal do género assinado por John Ford, THE SEARCHERS: MALIGLUTIT / “PERSEGUIDORES”, do primeiro realizador inuíte, Zacharias Kunuk. Abre-se o Ciclo com TOY STORY, coprotagonizado por um “cowboy sem western” de nome Woody (voz de Tom Hanks), passa-se por ELECTRIC HORSEMAN e DON’T COME KNOCKING, centrados na viagem de cowboys urbanos, respetivamente Robert Redford e Sam Shepard, em fuga do showbiz (o último reduto simbólico do westerner) e fecha-se com o atrás referido WESTERN, uma espécie de “western sem (verdadeiro) cowboy” sobre as tensões vivenciadas no seio de um grupo de trabalhadores alemães da construção civil estacionado no interior da Bulgária.

O western viaja, modifica-se e adapta-se àquilo que cada paisagem e código cultural pede e exige dele. Está por todo o lado e em lado nenhum. Requer atenção, sentido crítico e conhecimento da História para se dar conta dele, mas ele está aí, operando sobre a linguagem do cinema dos nossos dias.

Consulte o programa completo aqui.