Vira a página ao ano em que se obtiveram os melhores resultados em termos de número de espectadores na Cinemateca desde 2011. A programação do novo ano percorre temas, períodos e cinematografias variadas, permitindo um diálogo intenso entre diferentes estilos e modos de expressão, tal como entre o passado e o presente. Destacam-se alguns nomes de ponta do cinema português e de cinematografias a descobrir ou a redescobrir, nomeadamente “born in the U.S.A.”, sem esquecer os grandes clássicos do mudo (o Ciclo “Viagem ao Fim do Mudo” continua, com três sessões por mês, todas musicadas ao vivo), as homenagens a nomes de vulto do cinema europeu e internacional, e muitas preciosidades do cinema experimental.
Dedica-se o mês de janeiro a celebrar o trabalho dos nossos e de todos os outros projecionistas espalhados pelo país e pelo mundo, com um programa “flamejante” repleto de projeções e atividades envolvendo diferentes tipos de suportes cinematográficos. Um programa que nos ajuda a lançar o mote da celebração dos 30 anos do Arquivo Nacional das Imagens em Movimento, de janeiro a dezembro, que fará do trabalho de preservação e restauro uma das suas bandeiras.
No campo do ensaio, Harun Farocki é o nome em foco na rubrica “Histórias do Cinema”. A obra do cineasta e teórico dos media será alvo de cinco sessões com apresentação por parte da professora e investigadora Christa Blümlinger, que estabeleceu um diálogo ativo com Farocki em torno da “forma ensaio”, resultando dessa interação a publicação de um livro intitulado The ABCs of The Essay Film. Ainda no mês de janeiro, está prevista uma retrospetiva dedicada à cineasta, coreógrafa e dançarina americana de origem ucraniana Maya Deren.
Até agosto vários são os motivos para uma visita à Cinemateca Portuguesa. Propõe-se, por exemplo, um Ciclo dedicado ao pouco lembrado realizador norte-americano Stuart Heisler, indo bem para lá dos seus títulos mais sonantes, como o incontornável noir com Alan Ladd e Veronika Lake, THE GLASS KEY. Lisboa é o centro da intriga internacional num Ciclo temático marcado para o primeiro semestre de 2026, uma forma de se revisitar a cidade de Lisboa transformada em décor para filmes de espionagem e de ação.
A escocesa Margaret Tait vem estreitar a relação entre cinema e poesia no princípio do ano, com um Ciclo, o mais completo à data, dividido em duas partes e feito de amizades e cumplicidades. Esta mostra, que será a mais completa até hoje, apresentará não só os filmes que Tait fez entre os anos 50 e os anos 90 do século passado mas também filmes feitos sobre ela/para ela por cineastas contemporâneos como Peter Tod, Luke Fowler e Ute Aurand. Na primeira metade de 2026, o cineasta experimental radicado em Nova Iorque, Robert Beavers, será o mote de um Ciclo que celebrará os seus delicados e rigorosos poemas visuais.
Por entre as parcerias habituais com festivais de cinema (entre elas, com o IndieLisboa, o Doclisboa, o QueerLisboa, a Festa do Cinema Francês), emerge o Ciclo realizado com a Festa do Cinema Italiano dedicado à grande musa do cinema europeu, recentemente desaparecida, Claudia Cardinale. Continuamos sob o signo do cinema europeu enquanto se exibe a obra de Fernando Férnan Gomez, prolífico ator ao serviço de realizadores tais como Pedro Almodóvar e Victor Erice mas também um importante cineasta espanhol que merecerá, agora, o seu primeiro Ciclo em nome próprio.
Um grande Ciclo temático, divido entre dois meses, terá como tema “a casa”, no que se traduzirá nomeadamente numa série de visitas e rememorações protagonizadas por cineastas nos seus aposentos.
Billy Wilder é o segundo realizador do ano consagrado na rubrica “Histórias do Cinema”. Parte da obra do realizador de algumas das mais delirantes comédias do período clássico, mas também de importantíssimos noirs, entre outras notáveis incursões nos géneros clássicos, será escalpelizada pelo crítico australiano Adrian Martin, que em 2016 participou na mesma rubrica apresentando cinco filmes com a assinatura de Fritz Lang.
Em ano de comemoração dos 80 anos sobre a estreia de TRÊS DIAS SEM DEUS de Bárbara Virgínia, a primeira longa-metragem de ficção realizada por uma mulher em Portugal, convoca-se a memória das cineastas pioneiras do cinema português, do cinema mudo (com o caso de Virgínia de Castro e Almeida) aos primórdios da RTP (com as séries de Maria Luísa Bívar no início dos anos 1960).
Um programa dedicado ao grande nome do cinema japonês Hiroshi Shimizu, realizador de O SOM DO NEVOEIRO e IMAGEM DE UMA MÃE (obras recentemente exibidas no circuito comercial), permeia o primeiro semestre de 2026, produzindo uma ligação direta entre o período clássico e o período moderno do cinema japonês.
O cinema de Noémia Delgado regressa aos ecrãs da Cinemateca numa retrospetiva realizada na sequência de uma exposição centrada no arquivo da realizadora, entregue à Cinemateca após a sua morte, que esteve patente nas salas de exposições temporárias em 2024. Em diálogo com o mundo das artes visuais, regressa em 2026 o Ciclo dedicado a obras pouco vistas de artistas portugueses, numa tentativa de desenhar novas trajetórias no “Cinema Experimental Português”.
Ainda antes do mês de agosto celebra-se a música e a dança com o lançamento do Ciclo dedicado ao grande género clássico do musical, que tem em Fred Astaire, Gene Kelly, Judy Garland e companhia alguns dos seus mais magistrais intérpretes e em produtores e coreógrafos como Arthur Freed, Busky Berkeley e Jerome Robbins alguns dos seus principais visionários, e com um Ciclo que celebra Bruce Springsteen. Da rebeldia do “Boss” passamos para a rebeldia representada no grande ecrã, num mês de agosto bem quente na companhia de “rebeldes sem causa” – é o tema do Ciclo realizado entre a sala M. Félix Ribeiro e a Esplanada.
Após ir a banhos quentes e febris, marcados pela rebeldia, a programação presta-se à homenagem a dois nomes grandes da história do cinema.
No regresso de agosto, tem início um vastíssimo Ciclo retrospetivo dedicado a Paulo Branco, um dos mais prolíficos produtores do cinema português e internacional. Serão dez filmes em cada mês, para lá do ano de 2026, no que é um dos mais ambiciosos Ciclos retrospetivos levados a cabo pela Cinemateca Portuguesa, totalizando centenas de obras representativas dos principais caminhos do cinema de autor nacional e internacional percorridos ao longo de mais de 40 anos de carreira.
Para a rentrée, revisita-se ainda a filmografia de Martin Scorsese, no seu segundo grande Ciclo organizado na Cinemateca Portuguesa (o primeiro aconteceu no já longínquo ano de 1991, intitulado “Scorsese por Scorsese”). O argentino Hugo Fregonese, realizador que desenvolveu uma parte importante da sua filmografia nos Estados Unidos, especializando-se no género do western, estará no centro de um olhar retrospetivo lançado no final de 2026. A realizadora convidada na reta final do ano é a cineasta Rita Azevedo Gomes, num Ciclo acompanhado de Carta Branca programada pela realizadora de A VINGANÇA DE UMA MULHER.
Sinaliza-se a importância do cinema underground norte-americano no ano de 2026 nomeadamente através do cinema “estrutural” de Hollis Frampton, cineasta muito próximo do canadiano Michael Snow, homenageado pela Cinemateca em 2019.
A Cinemateca Portuguesa vai ainda a tempo, nos últimos meses de 2026, de programar um há muito aguardado Ciclo em torno de Frank Borzage, nome maior do período do cinema mudo (o seu 7TH HEAVEN passou em 2025 no âmbito do Ciclo “Viagem ao Fim do Mudo”) e com uma obra relevante realizada já no período sonoro que atravessa géneros e que permanece ao dia de hoje por descobrir ou reavaliar.