junho de 2020
dstqqss
31123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
2829301234
567891011
PROGRAMA
Ciclos
Pesquisa
CICLO
A Cinemateca com o Indielisboa: Jacques Rozier | Director’s Cut / Director’s Cut em Contexto (I)


A colaboração entre a Cinemateca e o IndieLisboa, em 2018 na sua 15ª edição, resulta na programação e organização de uma retrospetiva da obra de Jacques Rozier e retoma a apresentação, na Cinemateca, da secção do festival “Director’s Cut”, em rima com sessões “em contexto”, refletindo a História do cinema, a sua memória e o seu património. A Cinemateca acolhe ainda uma sessão da secção “Silvestre” do festival para dar a ver um filme recente de James Benning, a cuja obra dedicou uma retrospetiva em 2016, então na presença do realizador. O programa acompanha as datas do festival, que decorre em Lisboa entre 26 de abril e 6 de maio, estendendo-se portanto ao próximo mês.
 
Jacques Rozier
Jacques Rozier é um dos grandes autores do cinema contemporâneo, mas também um dos mais secretos. Em cerca de três dezenas de filmes de curta e longa-metragem, filmou um punhado de longas-metragens de ficção fulcrais numa obra que marca a História do cinema a partir de finais dos anos cinquenta (RENTRÉE DES CLASSES, 1955, e BLUE JEANS, 1958, de que o então jovem crítico Jean-Luc Godard foi um dos acérrimos defensores), mas cuja raridade intrínseca permanece paradoxalmente rara. Reconhecida pela sua importância, esplendorosamente afirmada em ADIEU PHLIPPINE (1962), que se tornou um dos títulos icónicos da Nouvelle Vague e certamente o mais divulgado dos seus filmes, é ainda uma obra desconhecida. É também uma obra mais prolífera e variada do que a ideia feita que circunscreve o cineasta francês às suas longas-metragens, como a importante retrospetiva organizada em 2001 no Centro Pompidou tornou claro, fazendo prova da sua amplitude.
A aventura das suas produções e trajetórias complicadas de difusão contribuíram para a intermitência da visibilidade da obra de Jacques Rozier. Em Portugal, nenhum dos seus filmes estreou, e mesmo em França nem todos chegaram à distribuição, casos de LES NAUFRAGÉS DE L’ÎLE DE LA TORTUE (1976) e FIFI MARTINGALE (2001). Entre ADIEU PHLIPPINE e a segunda longa-metragem de ficção, DU CÔTÉ D’OROUËT (1969) passam seis anos; entre este e LES NAUFRAGÉS, sete; MAINE OCÉAN é de 1985, acentuando-se o intervalo de tempo no salto de doze anos que decorre até FIFI MARTINGALE, depois do qual Rozier filmou trabalhos que permanecem inéditos, de que é exemplo L’OPÉRA DU ROI. Estas datas estão, no entanto, longe de circunscrever a obra, aberta à pluralidade das suas inspirações e à diversidade dos seus registos cinematográficos.
A energia e singularidade criativas de Jacques Rozier produziram uma série de outros títulos ao longo de todo este período, assinalando-se, entre os trabalhos realizados para televisão ou no contexto de emissões históricas da televisão francesa, JEAN VIGO (1964, filme da série “Cinéastes de Notre Temps” de Janine Bazin e André S. Labarthe) ou JEANNE MOREAU (1972, da série “Vive le Cinéma”, da mesma dupla); dois números de 1965 da emissão “Ni Figue ni Raisin” em que se aproxima da “comédia musical”, com Anna Karina (nº 5) ou Dalida (nº 8); LETTRE DE LA SIERRA MORENA (1983, inicialmente concebido para a série “Cinéma Cinémas – Lettres de Cinéastes”) ou COMMENT DEVENIR CINÉASTE SANS SE PRENDRE LA TÊTE (1995, resultante de uma encomenda da Arte), em que, avesso à biografia, Rozier responde às avessas, e pela ficção, à proposta de uma incursão biográfica pela sua formação cinematográfica no IDHEC, onde estudou nos anos quarenta.
Obstinadamente livre, Jacques Rozier é um realizador de filmes de matriz livre que respiram a liberdade do seu entendimento do cinema, umbilicalmente ligado à mise-en-scène e a um andamento musical, feito de um apurado sentido da combinação de imagens e sons, diálogos, canções, atores, personagens, paisagens, os exteriores, o estúdio, a ligeireza e a gravidade narrativa, uma lógica de duração intrínseca aos planos e sequências. Exprimindo-os, o movimento das personagens segue recorrentemente em direcção a situações e lugares que, em férias ou em viagem, as retiram do quotidiano sem que a brutalidade da realidade se eclipse no horizonte, como, no caso de ADIEU PHILIPPINE (rodado no verão de 1960), a guerra da Argélia. A evasão e as digressões narrativas são inauguradas no percurso do pequeno protagonista de RENTRÉE DES CLASSES. A presença do mar e da água atravessa boa parte dos seus filmes, por outro lado atentos aos bastidores dos holofotes (veja-se o díptico PAPARAZZI / LE PARTI DES CHOSES: BARDOT / GODARD, de 1963, filmado durante a rodagem de LE MÉPRIS de Godard), mas também dos palcos (como em FIFI MARTINGALE). Cineasta visceralmente independente, Jacques Rozier faz da inteligência, da sensibilidade, do sentido de humor, a matéria que os seus filmes trabalham com rigor e fulgurância.
À data de hoje, a situação patrimonial da obra de Jacques Rozier, cuja preservação e restauro está em curso, não permite apresentar a totalidade dos filmes programados nas condições de excelência que todos eles merecem e respeitando os seus formatos originais. A retrospetiva que as notas seguintes apresentam e se estende a maio corresponde, no entanto, ao desejo veemente de dar visibilidade aqui e agora a esta obra a vários títulos extraordinária.
 
Jacques Rozier virá a Lisboa em datas a anunciar | a retrospetiva conta com a apresentação de um importante lote de filmes inéditos em Portugal e de raras exibições públicas absolutas
 
 
26/04/2018, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o Indielisboa: Jacques Rozier | Director’s Cut / Director’s Cut em Contexto (I)

Voyage en Terre – Philippine | Adieu Philippine
duração total da sessão: 118 min | M/12
 
26/04/2018, 18h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo A Cinemateca com o Indielisboa: Jacques Rozier | Director’s Cut / Director’s Cut em Contexto (I)

de Johann Lurf
Áustria, 2017 - 99 min
26/04/2018, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o Indielisboa: Jacques Rozier | Director’s Cut / Director’s Cut em Contexto (I)

Readers
de James Benning
Estados Unidos, 2017 - 108 min
26/04/2018, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o Indielisboa: Jacques Rozier | Director’s Cut / Director’s Cut em Contexto (I)

So Leben Wir – Botschaften an die Familie / How We Live – Messages to the Family
de Gustav Deutsch
Áustria, 2018 - 107 min
27/04/2018, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o Indielisboa: Jacques Rozier | Director’s Cut / Director’s Cut em Contexto (I)

Jean Vigo
de Jacques Rozier
França, 1964 - 94 min
26/04/2018, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o Indielisboa: Jacques Rozier | Director’s Cut / Director’s Cut em Contexto (I)

Em colaboração com o Indielisboa – Associação Cultural
Voyage en Terre – Philippine | Adieu Philippine
duração total da sessão: 118 min | M/12
Jacques Rozier
VOYAGE EN TERRE – PHILIPPINE
de Jacques Rozier
França, 2008 – 12 min / legendado eletronicamente em português
ADIEU PHILIPPINE
de Jacques Rozier
com Jean-Claude Aimini, Yveline Cery, Stefania Sabatini
França, 1962 – 106 min / legendado eletronicamente em português

O mais amado dos filmes desconhecidos (a sua carreira foi atribulada, em Portugal nunca estreou) do mais raro dos cineastas da Nouvelle-Vague, Jacques Rozier, cujo percurso fulgurante nunca mais terá tido sossego, filmando desde então os mais livres dos filmes. Nunca ninguém filmou tão perto a errância da gente nova, a hesitação, os dias inseguros, os adeuses, os acasos, o peso da guerra – aqui, a da Argélia. Tudo é fresco e novo neste documento único em que a Graça visita os corpos 24 vezes por segundo. “Incompreendido no momento da sua estreia, ADIEU PHILIPPINE é o mais belo retrato da França do início dos anos sessenta” (Louis Skorecki, 1998). Antecede-o VOYAGE EN TERRE – PHILIPPINE (primeira exibição na Cinemateca), em que Jacques Rozier evoca a história da sua primeira longa-metragem, filmada em tempo de guerra e censura, a cuja banda musical  reserva uma atenção particular.
 
26/04/2018, 18h30 | Sala Luís de Pina
A Cinemateca com o Indielisboa: Jacques Rozier | Director’s Cut / Director’s Cut em Contexto (I)

Em colaboração com o Indielisboa – Associação Cultural
de Johann Lurf
Áustria, 2017 - 99 min
sem legendas | M/12
Director’s Cut
O filme de Johann Lurf é um ambicioso projeto de compilação de imagens de “estrelas de cinema” no sentido astronómico e literal da expressão. ★ é uma montagem cintilante de céus estrelados vindos de centenas de filmes, dos primórdios do cinema (Méliès) aos dias de hoje. É também um projeto em curso, que se propõe aberto a expansões anuais, à imagem do infinito do universo. A aventura espacial do filme reflete ainda sobre as representações da noite e as possibilidades pictóricas dos céus de cinema. Por vontade expressa do realizador o filme é apresentado sem legendas.
 
26/04/2018, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o Indielisboa: Jacques Rozier | Director’s Cut / Director’s Cut em Contexto (I)

Em colaboração com o Indielisboa – Associação Cultural
Readers
de James Benning
com Clara McHale-Ribot, Rachel Kushner, Richard Hebdige, Simone Forti
Estados Unidos, 2017 - 108 min
sem diálogos | M/12
Sessão Silvestre Especial na Cinemateca
Composto por quatro planos frontais de 27 minutos em que quatro leitores (três mulheres e um homem) leem sossegadamente para si mesmos, READERS propõe quatro retratos de leitura e a observação da atividade solitária de imersão numa obra literária. No início e no fim de cada segmento surge o título e uma citação do respetivo livro. James Benning, a quem a Cinemateca dedicou uma retrospetiva em 2016, tem filmado a paisagem americana para refletir sobre a sua realidade passada e presente a partir de uma filosofia que entende “a paisagem como uma função do tempo”. Neste filme, prossegue o trabalho de atenção à expressão humana de TWENTY CIGARETTES ou FACES (2011), mantendo a sua preocupação com o tempo e a duração.
 
26/04/2018, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o Indielisboa: Jacques Rozier | Director’s Cut / Director’s Cut em Contexto (I)

Em colaboração com o Indielisboa – Associação Cultural
So Leben Wir – Botschaften an die Familie / How We Live – Messages to the Family
de Gustav Deutsch
Áustria, 2018 - 107 min
legendado em inglês e eletronicamente em português | M/12
Director’s Cut
“Imaginem que estamos sentados em casa, com o ecrã montado, o projetor a postos, e que começamos a ver filmes juntos” – são as palavras ditas por Gustav Deutsch no início de SO LEBEN WIR, uma viagem pelo cinema amador dos filmes de família assente em material recolhido em arquivos austríacos, italianos, holandeses e britânicos. “O filme emprega um dispositivo media-arqueológico em forma de missiva: dos primeiros filmes amadores em película a cores ao vídeo e às imagens digitais tiradas com telemóvel e via skype” (Alejandro Bachmann).
 
27/04/2018, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o Indielisboa: Jacques Rozier | Director’s Cut / Director’s Cut em Contexto (I)

Em colaboração com o Indielisboa – Associação Cultural
Jean Vigo
de Jacques Rozier
com Michel Simon, Albert Riera, Dita Parlo, Jean Painlevé, André Négis, Pierre Merle, Jean Dasté, Gilles Margarittis, Jean Lods, René Lefèvre, Paul Grimault
França, 1964 - 94 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Jacques Rozier
O segundo filme da célebre e fundamental série televisiva de Janine Bazin e André S. Labarthe “Cinéastes de Notre Temps” (inaugurada sob o signo de Luis Buñuel) foi dedicado a Jean Vigo e filmado por Jacques Rozier, para quem Vigo era um dos grandes mestres. Labarthe defendeu que Rozier usa aqui da mesma liberdade com que realizara ADIEU PHILIPPINE. “Fiz o filme seguindo o mesmo método de CITIZEN KANE: ‘Quem era verdadeiramente o cidadão Jean Vigo?’ Os seus colaboradores, os seus amigos, falam dele trinta anos depois da sua morte. Descobrimos então um Vigo completamente anarquista, muito farsante, o oposto da sua imagem nas histórias do cinema, do lado ‘Rimbaud do cinema’ que se lhe colou à pele” (Jacques Rozier).