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Manuel Pina: Memória do Cineclubismo


“O que me dói, hoje em dia, não é apenas não se falar de cineclubismo (…) mas também verificar que, quando, por milagre, se faz referência aos cineclubes, se mostra ou uma grande ignorância ou uma declarada indiferença, diminuindo a dimensão da obra que realizaram.” Estas palavras de Manuel Pina (extraídas de um livro que deixou pronto para publicação e que aqui reproduzimos com o devido acordo da família) exprimem bem o que foi o âmago da atividade de cinema do seu autor, e a que ponto no âmago desse âmago estava tanto a paixão como, até ao fim, a defesa de uma causa. Falecido no passado dia 17 de fevereiro, o que perdemos com a sua morte foi então, antes de mais, uma das grandes referências desse movimento que, persistindo nos nossos dias, desempenhou um papel crucial em toda a História do cinema em Portugal na segunda metade do século XX.
Nascido em Maputo (Lourenço Marques) em 1929, Manuel Pina veio para Lisboa aos 18 anos, e foi na universidade que integrou o núcleo fundador de um dos primeiros cineclubes de Lisboa (o Cineclube Universitário, cujo lançamento, a seguir ao do ABC, começou a ser preparado em 1951). Pouco depois iniciou a sua colaboração com a revista Imagem, e, na sequência disso, com o Cineclube Imagem (terceiro dos cineclubes que arrancaram em Lisboa nesse período de 1951/52) onde veio ser um dos principais dirigentes entre meados da década de cinquenta e finais da década de oitenta. Também nesta última década (em 1986), foi eleito Presidente da Assembleia Geral da Federação Portuguesa de Cineclubes, cargo que ocupou até 1994.
Se este foi o cerne, houve muita coisa à volta, no cinema e não só. Manuel Pina publicou regularmente crítica de cinema, em revistas e jornais (Vértice, Seara Nova, Diário de Lisboa, República, Jornal de Notícias…) entre os anos cinquenta e setenta, animou uma filmoteca empresarial de referência (a Filmoteca da Shell Portuguesa, que teve grande importância para a própria atividade dos cineclubes), exerceu longa atividade pedagógica de cinema junto de crianças e jovens dentro e fora do movimento cineclubista, colaborou num filme produzido pelo Cineclube do Porto (AUTO DA FLORIPES, 1959) e era, à data da sua morte, Presidente do Comité Português para a UNICEF. “Last but not the least”, foi ainda um homem desta casa, tendo sido um dos representantes do meio cinematográfico português convidados para integrar o grupo que assessorou o fundador da Cinemateca (então Cinemateca Nacional) Manuel Félix Ribeiro, nos anos 1974 e 75.
Nada aleatória, a sua escolha para esta última função teve a ver com outra das suas preocupações fundamentais, recorrente em textos publicados e em muitas intervenções cineclubísticas: a ideia de cinemateca, ou, mais rigorosamente, uma ideia de cinemateca, pensada a partir da prática cineclubista mas sempre considerada como um elo fundamental na cultura do país. Foi aliás exatamente por isso que, por ocasião dos 40 anos do 25 de Abril, no próprio dia 25 de abril de 2014, aqui esteve a proferir uma apresentação sobre o tema “O que é uma Cinemateca”, concretizando uma outra apresentação que, 40 anos antes, tinha sido anunciada para esse mesmo dia no Cineclube Imagem… e que naturalmente não chegou a ter lugar. Não fora então aquele legado histórico, não fora também o legado de uma crítica particularmente lúcida, e bastaria esse cuidado e esse pensamento relativamente ao património para que a Cinemateca lhe devesse prestar tributo.
Evocando Manuel Pina, exibiremos THE JUGGLER, que, além da sua própria relevância, surge aqui por dois outros motivos específicos: por um lado, este foi o objeto da primeira crítica publicada pelo homenageado (na revista Imagem, em maio de 1954); por outro, sendo um filme nunca antes exibido na Cinemateca, é a nossa forma de evocar a função de dar a ver, ou de fazer descobrir, que, sendo nossa, foi sempre também dos cineclubes, numa sessão que não pode afinal deixar de ser mais uma homenagem à histórica atividade deles.
 
 
11/04/2017, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Manuel Pina: Memória do Cineclubismo

The Juggler
O Malabarista
de Edward Dmytryk
Estados Unidos, 1953 - 84 min
 
11/04/2017, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Manuel Pina: Memória do Cineclubismo
The Juggler
O Malabarista
de Edward Dmytryk
com Kirk Douglas, Milly Vitale, Paul Stewart, Joseph Walsh
Estados Unidos, 1953 - 84 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Uma relativamente insólita (no seio da produção corrente da Hollywood do princípio dos anos cinquenta) abordagem das questões históricas e psicológicas suscitadas pela adaptação à “vida comum” dos sobreviventes dos campos nazis. Kirk Douglas é o protagonista, um malabarista que, em 1949, chega a Israel integrado num contingente de refugiados judeus vindos da Alemanha. Insólito, ainda, por se tratar de um dos primeiros retratos dos anos iniciais do recém-fundado Estado israelita. Primeira exibição na Cinemateca.