CICLO
A Cinemateca com o IndieLisboa - Isto não é um Documentário - Retrospetiva Mockumentary


O reino do “Mockumentary” (junção da palavra “mock” a “documentary”, portanto, de maneira literal, “documentário falso ou parodiado”) é o dos nossos dias, isto é, do logro, da imitação, da simulação e da pilhagem. Da reportagem televisiva, do reality show, do ChatGPT, das fake news, dos fake presidents, das fake wars e de uma fake humanity. Imprime-se, assim, a lenda, ou melhor, propagandeia-se o “f de falso” assumido, transformado, ao jeito de paródia, em verdade 24 vezes por segundo, mediante um conjunto de filmes que atravessa geografias e confunde gestos de realização ou desrealização do mundo. Abrem-se as hostilidades deste Ciclo, elaborado com o IndieLisboa, e prolongado no mês de maio (programa a anunciar no próximo jornal), com REAL LIFE, um dos mais engenhosos e premonitórios filmes sobre o fenómeno dos reality shows, da autoria de Albert Brooks (na sua estreia como realizador), e, num tom muito mais sério (perto de apocalíptico), com PUNISHMENT PARK, do recém desaparecido Peter Watkins. Trata-se este último de um olhar inclemente sobre uma América tomada por um regime persecutório e ditatorial que aprisiona quem “pensa diferente” num campo de detenção semelhante a vários que entretanto fazem as manchetes das notícias vindas hoje da América real (real, o que é isso?). Com a mentira, diz-se uma verdade. Com a verdade, diz-se uma mentira. As duas podem divertir muito. As duas podem magoar ainda mais.
 
30/04/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o IndieLisboa - Isto não é um Documentário - Retrospetiva Mockumentary

REAL LIFE
de Albert Brooks
Estados Unidos, 1979 - 99 min
 
30/04/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo A Cinemateca com o IndieLisboa - Isto não é um Documentário - Retrospetiva Mockumentary

PUNISHMENT PARK
de Peter Watkins
Estados Unidos, 1971 - 88 min
30/04/2026, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o IndieLisboa - Isto não é um Documentário - Retrospetiva Mockumentary
REAL LIFE
de Albert Brooks
com Albert Brooks, Charles Grodin, Harry Shearer
Estados Unidos, 1979 - 99 min
legendado eletronicamente em português | M/12
Nos minutos iniciais do filme, a personagem homónima de Albert Brooks anuncia o seu projeto: “Queremos o maior espetáculo de todos: a vida!” O mote está dado para REAL LIFE, primeira longa-metragem de Albert Brooks que parodia e antecipa o fenómeno popular dos reality shows.  Brooks tinha visto An American Family (1973), geralmente considerado o primeiro programa de televisão daquele tipo, e lera um texto de Margaret Mead em que a antropóloga referia que a série podia ser “tão importante para a nossa época como foram a invenção do teatro e do romance para as gerações anteriores: uma nova forma de ajudar as pessoas a compreenderem-se a si próprias”. Primeira apresentação na Cinemateca, a exibir em cópia digital.
30/04/2026, 21h30 | Sala M. Félix Ribeiro
A Cinemateca com o IndieLisboa - Isto não é um Documentário - Retrospetiva Mockumentary
PUNISHMENT PARK
de Peter Watkins
com Mark Keats, Kent Foreman, Carmen Argenziano
Estados Unidos, 1971 - 88 min
legendado eletronicamente em português | M/16
Um dos mais extremos exercícios de ficção política cavada na realidade que Peter Watkins alguma vez dirigiu, PUNISHMENT PARK parte da enorme tensão que as lutas sociais nos Estados Unidos – do movimento pelos direitos cívicos à contestação à guerra do Vietname – geraram dentro da sociedade americana, conduzindo a uma intensificação das formas de repressão. Watkins imagina os “campos de castigo”, alternativa às prisões já demasiado cheias, para onde os “ativistas” e outros contestatários são levados e submetidos a uma duríssima provação – se lhe sobrevivessem, poderiam ser deixados em liberdade. Com atores amadores recrutados entre verdadeiros ativistas e verdadeiros membros das forças policiais ou militares, Watkins trabalhou a rodagem quase como um pequeno reality show, em condições muito duras para todos os participantes, construindo com isso uma outra camada de realismo “comportamental”, e adensando a polarização de um país dividido em duas metades que mutuamente se detestam. Invisível durante muitos anos, a redescoberta relativamente recente de PUNISHMENT PARK deixou muita gente convencida de que se trata da obra-prima de Watkins.