CICLO
In Memoriam: Celeste Holm, Ernest Borgnine, Isuzu Yamada, Chris Marker, Gore Vidal


Uma vénia a cinco figuras desaparecidas nos últimos dois meses: um ator, duas atrizes, um realizador e um escritor.
O ator é Ernest Borgnine (1917-2012), um dos mais reconhecíveis rostos da idade clássica de Hollywood, normalmente como secundário, e muito frequentemente como "duro", fosse em westerns, em filmes de gangsters ou em filmes de guerra. Trabalhou com Nick Ray, com Aldrich, com Peckinpah, e nunca se reformou, morreu em plena atividade. Se era "duro", com um pequeno toque podia transformar-se em bom homem, suave e amável – e com esse toque ganhou um Oscar (de ator principal) em 1955, por MARTY (de Delbert Mann). Recordamo-lo com ESCAPE FROM NEW YORK, onde John Carpenter lhe deu papel que fazia a síntese entre essas duas facetas da persona de Borgnine.
As atrizes são Celeste Holm e Isuzu Yamada, ambas (como Borgnine) nascidas em 1917 e desaparecidas em 2012. A primeira, americana, viveu os seus melhores anos profissionais nos anos quarenta e cinquenta, quando trabalhou com Elia Kazan (um Oscar por GENTLEMAN'S AGREEMENT) e, sobretudo, com Joseph L. Mankiewicz, que a trouxe para dois dos seus mais geniais filmes, também emblemáticos da viragem de quarenta para cinquenta do cinema americano: ALL ABOUT EVE e muito especialmente A LETTER TO THREE WIVES, onde Holm foi a voz, a voz da carta a três mulheres. A segunda, japonesa, era um testemunho vivo da glória do cinema nipónico, onde começou a trabalhar nos anos trinta, ainda adolescente. Foi atriz dos maiores: Mizoguchi (que, se não a "descobriu", a impôs ou fez impor-se), Ozu, Naruse, Kurosawa, Kinugasa, numa carreira que atravessou pelo menos seis décadas (deixou de fazer cinema nos anos oitenta, mas continuou a fazer teatro e televisão). Vamos vê-la num dos seus papéis mais impressionantes, como uma das irmãs-gueixas de “AS IRMÃS DE GION”, tinha Isuzu Yamada 19 anos.
O realizador é Chris Marker (1921-2012), um vulto imenso, uma obra que corre muitos caminhos, toca muitos lugares, cruza muitos tempos, e é na verdade uma obra essencial para – entre outras coisas – pensar as relações do cinema com a História e com a Política, e as múltiplas transformações (também sociais, ideológicas e tecnológicas) que o mundo viveu entre o final da II Guerra e os dias de hoje. Recordamo-lo com dois filmes, centrados em dois temas do seu especial interesse: Castro e a revolução cubana (em LA BATAILLE DES DIX MILLIONS); e o cineasta russo Alexandre Medvedkine (em LE TRAIN EN MARCHE), a quem Marker ainda voltaria, nomeadamente em LE TOMBEAU D'ALEXANDRE, que aqui vimos há poucos meses na retrospetiva dedicada à série “Cinéastes de Notre Temps”.
Finalmente, o escritor, Gore Vidal (1925-2012). O seu trabalho para cinema foi ínfimo, por comparação com a importância da sua obra literária, e da sua intervenção como comentador da vida pública americana. Mas a ligação de Vidal ao cinema raramente foi inócua. Bom exemplo é o ano de 1959, quando trabalhou nos argumentos de dois dos filmes mais significativos (embora por razões diferentes) desse extraordinário ano: em BEN HUR (de Wyler) divertiu-se a insinuar uma relação homossexual entre o protagonista e o seu rival; e em SUDDENLY LAST SUMMER, pegando no texto de Tennessee Williams, ajudou a criar um dos filmes mais carregados de sexo (homo e hetero) de que a Hollywood clássica tem memória. Também mereceriam menção THE LEFT HANDED GUN, de Arthur Penn e com Paul Newman, baseado numa peça sua, e já nos anos oitenta uma colaboração, acidentada e não creditada, com Michael Cimino (em THE SICILIAN). Ou a sua ligação a dois filmes especialmente "infames": o histórico flop que foi MYRA BRECKINRIDGE, baseado em obra sua ("o segundo pior filme que vi na vida"), e o seu trabalho no argumento do CALIGULA de Tinto Brass. Mas é com o fabuloso SUDDENLY LAST SUMMER que o vamos evocar.
É só uma vénia, um aceno a todos. Continuarão vivos e a visitar-nos. É o poder do cinema, e o dever inerente de uma Cinemateca.
 

 
04-09-2012, 19h00 | Sala Dr. Félix Ribeiro
Ciclo In Memoriam: Celeste Holm, Ernest Borgnine, Isuzu Yamada, Chris Marker, Gore Vidal

Escape fron New York
Nova Iorque 1997
de John Carpenter
Estados Unidos, 1981 - 98 min
 
17-09-2012, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo In Memoriam: Celeste Holm, Ernest Borgnine, Isuzu Yamada, Chris Marker, Gore Vidal

Gion no Shimai
“As Irmãs do Gion”
de Kenji Mizoguchi
Japão, 1936 - 69 min
19-09-2012, 19h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo In Memoriam: Celeste Holm, Ernest Borgnine, Isuzu Yamada, Chris Marker, Gore Vidal

Gion no Shimai
“As Irmãs do Gion”
de Kenji Mizoguchi
Japão, 1936 - 69 min
20-09-2012, 19h00 | Sala Dr. Félix Ribeiro
Ciclo In Memoriam: Celeste Holm, Ernest Borgnine, Isuzu Yamada, Chris Marker, Gore Vidal

A Letter to Three Wives
Carta a Três Mulheres
de Joseph L. Mankiewicz
Estados Unidos, 1949 - 103 min
21-09-2012, 19h00 | Sala Dr. Félix Ribeiro
Ciclo In Memoriam: Celeste Holm, Ernest Borgnine, Isuzu Yamada, Chris Marker, Gore Vidal

Le Train en Marche (Portrait d’Alexandre Medvedkine) | La Bataille des Dix Millions
duração total da sessão: 92 min
04-09-2012, 19h00 | Sala Dr. Félix Ribeiro
In Memoriam: Celeste Holm, Ernest Borgnine, Isuzu Yamada, Chris Marker, Gore Vidal
Escape fron New York
Nova Iorque 1997
de John Carpenter
com Kurt Russell, Lee Van Cleef, Ernest Borgnine
Estados Unidos, 1981 - 98 min
legendado em português

Na visão apocalíptica do argumento, Manhattan é uma gigantesca prisão onde cai o avião presidencial, sendo o presidente usado como refém pelos prisioneiros. Um homem que nada tem a perder é enviado para tentar o impossível. Uma das mais ambiciosas produções de John Carpenter, que nos anos noventa teria uma (fabulosa) sequela em ESCAPE FROM L.A. A sessão evoca o ator de Ernest Borgnine.

17-09-2012, 19h30 | Sala Luís de Pina
In Memoriam: Celeste Holm, Ernest Borgnine, Isuzu Yamada, Chris Marker, Gore Vidal
Gion no Shimai
“As Irmãs do Gion”
de Kenji Mizoguchi
com Isuzu Yamada, Yoko Unemura, Benkei Shiganoya, Etaro Shindo
Japão, 1936 - 69 min
legendado eletronicamente em português

58º filme de Kenji Mizoguchi (!), o segundo com argumento de Yoshikata Yoda, fiel colaborador do cineasta japonês a partir de então, GION NO SHIMAI é unanimemente apontado como uma das suas primeiras obra-primas indiscutíveis. A história é a de duas irmãs gueixas, de temperamento e comportamento opostos, ambientada no Gion (o bairro de Quioto onde se localizavam as casas de geixas). Mizoguchi passa de dois retratos de mulheres de maturidade e experiência diversas para uma das suas mais violentas representações do feminino. Uma sequência final antológica. Na Cinemateca, passou uma única vez, em 2000. A sessão evoca a atriz Isuzu Yamada.

19-09-2012, 19h30 | Sala Luís de Pina
In Memoriam: Celeste Holm, Ernest Borgnine, Isuzu Yamada, Chris Marker, Gore Vidal
Gion no Shimai
“As Irmãs do Gion”
de Kenji Mizoguchi
com Isuzu Yamada, Yoko Unemura, Benkei Shiganoya, Etaro Shindo
Japão, 1936 - 69 min
legendado eletronicamente em português

58º filme de Kenji Mizoguchi (!), o segundo com argumento de Yoshikata Yoda, fiel colaborador do cineasta japonês a partir de então, GION NO SHIMAI é unanimemente apontado como uma das suas primeiras obra-primas indiscutíveis. A história é a de duas irmãs gueixas, de temperamento e comportamento opostos, ambientada no Gion (o bairro de Quioto onde se localizavam as casas de geixas). Mizoguchi passa de dois retratos de mulheres de maturidade e experiência diversas para uma das suas mais violentas representações do feminino. Uma sequência final antológica. Na Cinemateca, passou uma única vez, em 2000. A sessão evoca a atriz Isuzu Yamada.

20-09-2012, 19h00 | Sala Dr. Félix Ribeiro
In Memoriam: Celeste Holm, Ernest Borgnine, Isuzu Yamada, Chris Marker, Gore Vidal
A Letter to Three Wives
Carta a Três Mulheres
de Joseph L. Mankiewicz
com Linda Darnell, Kirk Douglas, Jeanne Crain, Ann Sothern, Paul Douglas, Celeste Holm
Estados Unidos, 1949 - 103 min
legendado em português

Sibilino e irresistível, A LETTER TO THREE WIVES é um dos filmes mais mordazes de Mankiewicz. Três mulheres numa cidade americana recebem, cada uma delas, uma carta de uma amiga íntima contando a sua aventura com um dos maridos delas. Em flashback, cada uma evoca a vida de casada para tentar saber quem foi o “fugitivo”. A sessão evoca a atriz Celeste Holm.

21-09-2012, 19h00 | Sala Dr. Félix Ribeiro
In Memoriam: Celeste Holm, Ernest Borgnine, Isuzu Yamada, Chris Marker, Gore Vidal
Le Train en Marche (Portrait d’Alexandre Medvedkine) | La Bataille des Dix Millions
duração total da sessão: 92 min

LE TRAIN EN MARCHE (PORTRAIT D’ALEXANDRE MEDVEDKINE)
de Chris Marker
França, 1971 – 33 min / legendado eletronicamente em português
LA BATAILLE DES DIX MILLIONS
de Chris Marker
França, 1970 – 59 min / legendado eletronicamente em português


LA BATAILLE DES DIX MILLIONS capta “a quente” um episódio da história do regime de Fidel Castro, que à época foi alardeado em todo o mundo. O “Líder Máximo” lançou um apelo à população cubana para que esta fizesse esforços sobre-humanos, de modo a dobrar a colheita de cana-de-açúcar. O próprio Castro foi fotografado de Machete em punho a cortar cana. Mas apesar da mobilização da população, o objetivo não foi atingido. O filme, que se tornou extremamente raro, capta o discurso de “autocrítica” de Castro sobre este episódio, precedido por uma análise do ano que acabara de decorrer. A abrir a sessão, LE TRAIN EM MARCHE: Medvedkine foi reconhecido em grande parte graças à intervenção de Chris Marker, que se entusiasmou com a sua obra ao descobri-la tardiamente e realizou LE TRAIN EN MARCHE como um “prefácio” a SCHASTYE, com o qual foi distribuído à época. A sessão evoca Chris Marker.