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CICLO
Double Bill


Organizamos o Double Bill de março à volta do ciclo das quatro estações do ano e das suas respetivas idiossincracias meteorológicas e simbólicas, uma temática que o cinema tantas vezes trabalhou de forma metafórica mas também como matéria primeira da narrativa. Entre tantos filmes e realizadores, Éric Rohmer foi um dos que mais reflectiu sobre a questão, tendo dedicado às quatro estações do ano uma das suas famosas séries para além de outros filmes que, menos explicitamente, traduzem uma particular sensibilidade à complexidade da relação entre o tempo, as personagens e as histórias. Neste março primaveril de 2020 (ano de centenário redondo do realizador), lançamos rimas entre os contos das quatro estações de Rohmer com outros quatro filmes de outros tantos realizadores que aproveitam a “personalidade” de cada estação do ano para vincar uma particular tonalidade da narrativa. Assim, as promessas da primavera são aludidas tanto em CONTE DE PRINTEMPS de Rohmer como no filme de BANSHU de Ozu (cineasta em que também a cadência do ciclo das estações do ano tantas vezes prolonga o estado de espírito das personagens e situações), mas com evidente disparidade de expectativas. A languidez e o calor do verão ao pé do mar encontra tanto em CONTE D’ÉTÉ como em UNA DOMENICA D’AGOSTO, de Luciano Emmer, uma expressão ligada aos corpos, amores e desejos juvenis. CONTE D'AUTOMNE e HANNAH AND HER SISTERS, de Woody Allen, dão a ver a chegada de uma maturidade outonal a um conjunto de personagens femininas marcadas pelas suas ligações sentimentais. CONTE D’HIVER e ALL THAT HEAVEN ALLOWS, de Douglas Sirk, têm na neve e no frio do inverno, o pano de fundo de amores perdidos e reencontrados.
 
 
07/03/2020, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

Conte de Printemps | Banshun
Duração total da projeção: 214 minutos
 
14/03/2020, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

Conte d’Été | Una Domenica d’Agosto
Duração total da projeção: 202 minutos
21/03/2020, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

Conte d’Automne | Hannah and Her Sisters
Duração total da projeção: 217 minutos
28/03/2020, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

Conte d’Hiver | All That Heaven Allows
Duração total da projeção: 199 minutos
07/03/2020, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
Conte de Printemps | Banshun
Duração total da projeção: 214 minutos
Entre os dois filmes há um intervalo de 20 minutos
CONTE DE PRINTEMPS
Conto de Primavera
de Eric Rohmer
com Anne Teyssèdre, Hugues Quester, Florence Darel
França, 1993 – 107 min / legendado em português | M/12
BANSHUN
Primavera Tardia
de Yasujiro Ozu
com Chishu Ryu, Setsuko Hara, Haruko Sugimura
Japão, 1949 – 107 min / legendado em português | M/12

Apreciador dos filmes realizados em série, era natural que Rohmer adotasse o tema genérico das quatro estações, que permite a elaboração de uma série coerente, com diversas possibilidades de variações nas situações dramáticas e nos temas visuais. Nasceram assim os seus “Contos das Quatro Estações”. Em CONTE DE PRINTEMPS, como no CONTE D’ÉTÉ, temos um homem às voltas com três mulheres, mas trata-se de um adulto e não de um adolescente e a situação não é passageira, de férias. Tudo se passa com a perfeição e o rigor que são a marca do cinema de Rohmer, profundamente enraizado nas tradições do teatro clássico francês. O filme é “como uma partitura musical, cujos movimentos se sucedem com a mesma precisão geométrica com que as personagens são dispostas no argumento” (Giancarlo Zappoli). BANSHUN é o filme que inaugura o período final da obra de Ozu, as obras de grande maturidade que o fizeram conhecer tardiamente no estrangeiro. É a partir daqui que no seu cinema a trama narrativa se torna rarefeita e o estilo visual se depura ao máximo: raríssimos movimentos de câmara, ausência total de panorâmicas, sequências ligadas unicamente por cortes e a celebérrima posição da câmara (a “câmara Ozu”), quase sempre a mesma, à altura de uma pessoa sentada no chão, à japonesa. E como sempre, neste período final, Ozu conta histórias de separação e resignação, histórias de mudanças e da passagem do tempo. A apresentar em cópia digital.
14/03/2020, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
Conte d’Été | Una Domenica d’Agosto
Duração total da projeção: 202 minutos
Entre os dois filmes há um intervalo de 20 minutos
CONTE D’ÉTÉ
Conto de Verão
de Eric Rohmer
com Melvil Poupaud, Amanda Langlet, Aurélia Nolin
França, 1996 – 114 min / legendado em português | M/12
UNA DOMENICA D’AGOSTO
Domingo de Agosto
de Luciano Emmer
com Anna Baldini, Vera Carmi, Emilio Cigoli, Marcello Mastroianni, Massimo Serato
Itália, 1950 – 88 min / legendado eletronicamente em português | M/12

Nos dez anos que vão de O RAIO VERDE a CONTO DE VERÃO, Rohmer interessou-se por personagens cada vez mais jovens e, por conseguinte, indefinidas. O contexto narrativo de CONTE D’ÉTÉ, um dos “Contos das Quatro Estações”, é próximo do de PAULINE À LA PLAGE: as personagens não recapitulam o que se passou, como nos “Contos Morais”, nem têm teorias literárias sobre a vida, como nas “Comédias e Provérbios”. Não dominam os acontecimentos, deixam-se levar. Neste caso, trata-se de um rapaz em férias, em permanente hesitação entre três raparigas, com quem marca encontros simultâneos. Filme do calor e da juventude, CONTO DE VERÃO guarda a ligeireza da estação e o rasto da comédia burlesca. Obrigatório em qualquer ciclo de filmes sobre o verão, UNA DOMENICA D’AGOSTO é porventura um dos mais extraordinários filmes de Luciano Emmer, que assinava aqui apenas a sua primeira longa metragem. Tudo se passa num único dia e praticamente só num local, um domingo de agosto na praia de Ostia, onde parecem acorrer todos os habitantes de Roma - velhos e novos, ricos, pobres e assim assim -,  num panorama social diversificado que é uma reveladora miniatura da sociedade italiana do pós-guerra e dos seus sonhos. Uma comédia de costumes de uma enorme inventividade e agilidade (desde o notável trabalho de câmara a um conjunto muito alargado de atores, incluindo estreantes, tocados pela graça ) com cenas da luta de classes à beira-mar em tom mais terno do que o neo-realismo nos habituou (Cesare Zavattini é um dos autores do argumento). Primeira exibição na Cinemateca.
21/03/2020, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
Conte d’Automne | Hannah and Her Sisters
Duração total da projeção: 217 minutos
Entre os dois filmes há um intervalo de 20 minutos
CONTE D’AUTOMNE
Conto de Outono
de Eric Rohmer
com Marie Rivière, Béatrice Romand
França, 1998 - 110 min / legendado em português| M/12
HANNAH AND HER SISTERS
Ana e as Suas Irmãs
de Woody Allen
com Woody Allen, Michael Caine, Mia Farrow, Barbara Hershey, Maureen O’Sullivan
Estados Unidos, 1986 – 107 min / legendado em português| M/12

Para muitos, o mais conseguido dos ”Contos das Quatro Estações”, no qual Rohmer abandona as personagens muito jovens e pouco “sábias” do CONTO DE VERÃO e mostra duas protagonistas quadragenárias, na Provença. As atrizes foram protagonistas de outros filmes seus, O RAIO VERDE e O BOM CASAMENTO, e podemos considerar que Rohmer retoma as mesmas personagens, com quinze anos de intervalo. O que era dúvida, pura atitude, contradição entre sistemas e realidades, resolve-se neste filme da harmonia, da reconciliação, que sem nada ter de fúnebre, pode ser visto como um filme-testamento de um cineasta quase octogenário, um balanço harmonioso da sua obra. HANNAH AND HER SISTERS, um dos filmes mais complexos de Woody Allen, cuja ação decorre ao longo de várias celebrações do dia de Ação de Graças acompanhando a evolução das relações entre três irmãs, os seus maridos ou ex. Relações marcadas por separações e enganos, decepções e neuroses várias. O mundo neurótico de Woody Allen no seu melhor. A cidade Nova Iorque, cenário inevitável dos filmes de Allen até há poucos anos, surge magistralmente pintada em tons outonais pela fotografia de Carlo Di Palma.
28/03/2020, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
Conte d’Hiver | All That Heaven Allows
Duração total da projeção: 199 minutos
Entre os dois filmes há um intervalo de 20 minutos
CONTE D’HIVER
Conto de Inverno
de Eric Rohmer
com Charlotte Véry, Frédéric Van Den Driessche, Hervé Furic
França, 1991 – 110 min / legendado em espanhol | M/12
ALL THAT HEAVEN ALLOWS
O Que O Céu Permite
de Douglas Sirk
com Jane Wyman, Rock Hudson, Agnes Moorehead, Conrad Nagel
Estados Unidos, 1955 – 89 min / legendado eletronicamente em português | M/12

Neste fecho do ciclo das estações por Rohmer, que é na realidade o segundo “episódio” da série, as personagens não pertencem ao meio social habitual do cinema do realizador e os atores são amadores. Há porém no filme a visão da vida como extensão da literatura, típica das personagens rohmerianas: uma representação do Conto de Inverno, de Shakespeare, dá à protagonista a certeza de poder reencontrar o homem que amara e que perdera de vista. Um dos grandes filmes de Douglas Sirk dos anos 50, ALL THAT HEAVEN ALLOWS é um objeto do mais extremo artifício, mas é-o de modo consciente e assumido. Jane Wyman é uma viúva, ainda jovem, numa pequena cidade da Nova Inglaterra e Rock Hudson, um jardineiro cerca de 15 anos mais novo, torna-se seu amante. Apesar da oposição dos filhos da viúva e dos habitantes da cidade, o amor acaba por triunfar, num irónico “happy end”. Ironia que se estende a uma das mais celebradas cenas do filme, a mais gélida noite de Natal que o cinema já filmou.