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CICLO
Jorge Silva Melo – Viver Amanhã como Hoje


A escrita, o cinema, o teatro, têm sido as artes da vida de Jorge Silva Melo (nascido em 1948), homem que ocupa um lugar só dele na cultura em Portugal. Leitor, espectador, crítico, professor, autor, cronista, tradutor, ator, argumentista, realizador, dramaturgo, encenador, diretor artístico. A frase que acaba ali podia continuar substantiva. E chamar outra que referisse Lisboa, Londres, Paris, Berlim, Milão, Roma, pelo menos estas cidades, onde nasceu, estudou cinema, estagiou em teatro com Peter Stein e Giorgio Strehler, foi ator de Jean Jourdheuil, criou, trabalhou, conviveu, passeou. Em Lisboa, onde vive, integrou o Grupo de Teatro de Letras entre 1967 e 1970, fundou e dirigiu, com Luis Miguel Cintra, o Teatro da Cornucópia entre 1973 e 1979; fundou a companhia Artistas Unidos em 1995 que também ela teve várias vidas e continua. Com ele, diretor artístico e encenador frequente.
Escreveu o libreto para uma ópera – Le château des Carpathes (baseado em Júlio Verne), de Philippe Hersant (1992). E peças – Seis Rapazes, Três Raparigas (1993) e António, Um Rapaz de Lisboa (1995), as mais recuadas; O Grande Dia da Batalha (a partir de Albergue Nocturno, Máximo Gorki, 2018), a mais recente. Entre o muito que traduziu, contam-se obras de Carlo Goldoni, Luigi Pirandello, Oscar Wilde, Bertolt Brecht, Georg Büchner, Lovecraft, Michelangelo Antonioni, Pier Paolo Pasolini, Harold Pinter, Heiner Müller. Por exemplo, A Máquina Hamlet, levado à cena no Teatro da Politécnica este ano, a partir de uma tradução de Jorge com Maria Adélia Silva Melo, a irmã mais velha que o apresentou em criança a círculos de pensamento e ação cultural. São dados de referência obrigatória, os destes parágrafos, mesmo num texto não biográfico que sobretudo trata de cinema. Além de peças, publicou livros. Dois deles discorrem memórias, regressam a escritos, ziguezagueiam com o tempo – Século Passado (2007) e A Mesa Está Posta (2019), em que fala na primeira pessoa das décadas vividas a pensar e a fazer, numa insistência feliz e teimosa, diz ele. Gosta de citar versos de O Conto de Inverno, de Shakespeare, “But such a day to-morrow as to-day,/ And to be boy eternal.”
Espectador de cinema desde novinho, sobre cinema começou a escrever no suplemento juvenil do Diário de Lisboa pelos 15 anos, antes do princípio na crítica em O Tempo e o Modo. Sucedâneo da cinefilia e da crítica, o percurso de Jorge Silva Melo no cinema inicia-se na passagem das décadas de 1970 e 1980, a assistir João César Monteiro nos iniciais SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN e QUEM ESPERA POR SAPATOS DE DEFUNTO MORRE DESCALÇO (1969/70), mas também Paulo Rocha (POUSADA DAS CHAGAS, 1971), António-Pedro Vasconcelos (PERDIDO POR CEM, 1972) e Alberto Seixas Santos (BRANDOS COSTUMES, 1974); a colaborar com Solveig Nordlund (MÚSICA PARA SI, 1978). Mais tarde, havia de ser argumentista de Rocha e da mais nova geração de Manuel Mozos, João Guerra, Pedro Caldas; ator, nos anos de 1980 e 90, de João Botelho, João César Monteiro, Alberto Seixas Santos, Paulo Rocha, Manoel de Oliveira, Christine Laurent, Vítor Gonçalves, José Nascimento, José Álvaro Morais ou Joaquim Pinto.
Na ficção, a solo, realizou cinco longas e uma curta-metragem entre 1980 e 2007: PASSAGEM OU A MEIO CAMINHO, dedicado aos realizadores João César Monteiro, Paulo Rocha, António-Pedro Vasconcelos, Alberto Seixas Santos e ao professor João Bénard da Costa, um ano depois do “episódico-teatral” E NÃO SE PODE EXTERMINÁ-LO? (correalizado com Solveig Nordlund, 1979); NINGUÉM DUAS VEZES; AGOSTO; COITADO DO JORGE; ANTÓNIO, UM RAPAZ DE LISBOA; A FELICIDADE, a curta-metragem com Fernando Lopes no papel protagonista. Tem mantido um trabalho ímpar na série de retratos dedicados a artistas plásticos, principiado com PALOLO: VER O PENSAMENTO A CORRER (1995). Por ordem de entrada filmográfica até ao momento, os artistas de Jorge Silva Melo são Palolo, Joaquim Bravo, Álvaro Lapa, Nikias Skapinakis, Bartolomeu Cid dos Santos, António Sena, Ângelo de Sousa, Ana Vieira, José Guimarães, Sofia Areal, Fernando Lemos. No núcleo documental da sua obra, cabe ainda o filme sobre a Cooperativa de Gravadores Portugueses Gravura, um retrato de Glícinia Quartin, atriz e amiga com quem muito conversou, dois títulos recentes que registam peças dos Artistas Unidos, o autorretrato AINDA NÃO ACABÁMOS, COMO SE FOSSE UMA CARTA.
Esse filme composto como uma carta a um jovem ator, que esteve para se chamar “os que vieram antes”, verte uma característica definidora do modo de estar e trabalhar de Jorge Silva Melo, um interlocutor cúmplice de gerações mais velhas e mais novas, um passador vigoroso no sentido que Serge Daney deu ao termo. A memória e a transmissão são pontos justamente vitais das longas de ficção de Silva Melo, menos vistas e menos bem vistas do que seria de crer. No tempo de que foram contemporâneas, atravessaram dificuldades de ordem vária, também de receção, que em alguns casos as arredaram das salas ou da visibilidade. São filmes em que Jorge Silva Melo entende ter-se detido no “momento da escolha”, em que a vida se define, deixando de poder ser outra coisa. São filmes a que importa o tempo que passa e os momentos de passagem. São filmes secretos de palavras, paisagens, personagens, atores à flor da vida. São filmes a rever.
A sua obra foi alvo de uma retrospetiva em 2013 pelo Lisbon & Estoril Film Festival, altura da publicação O Cinema de Jorge Silva Melo e os Sortilégios do Tempo, com textos e uma extensa entrevista de Francisco Ferreira. Esta retrospetiva “Viver Amanhã como Hoje” é a mais completa apresentação da obra de Silva Melo a esta data, mostrada em simultâneo com as vinte escolhas da carta-branca de 2020 (a consultar na entrada respetiva). Dará origem a um catálogo, a publicar mais tarde. Mais informações sobre a biografia e a filmografia de Jorge Silva Melo na brochura digital disponível em www.cinemateca.pt.
 
 
21/03/2020, 18h30 | Sala Luís de Pina
Ciclo Jorge Silva Melo – Viver Amanhã como Hoje

A Gravura Esta Mútua Aprendizagem | Bartolomeu Cid dos Santos: Por Terras Devastadas
duração total da projeção: 148 min | M/12
 
24/03/2020, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Jorge Silva Melo – Viver Amanhã como Hoje

Ângelo de Sousa: Tudo o Que Sou Capaz | Fotografia | Infância | Cenário | Esferográfica
duração total da projeção: 83 min | M/12
27/03/2020, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Jorge Silva Melo – Viver Amanhã como Hoje

Fernando Lemos – Como, Não É Um Retrato?
de Jorge Silva Melo
Portugal, 2018 - 76 min | M/12
31/03/2020, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Jorge Silva Melo – Viver Amanhã como Hoje

A Felicidade | Conversas com Glicínia Quartin
duração total da projeção: 63 min | M/12
21/03/2020, 18h30 | Sala Luís de Pina
Jorge Silva Melo – Viver Amanhã como Hoje
A Gravura Esta Mútua Aprendizagem | Bartolomeu Cid dos Santos: Por Terras Devastadas
duração total da projeção: 148 min | M/12
sessão com intervalo de 10 minutos
A GRAVURA ESTA MÚTUA APRENDIZAGEM
de Jorge Silva Melo
Portugal, 2007 – 88 min
BARTOLOMEU CID DOS SANTOS: POR TERRAS DEVASTADAS
de Jorge Silva Melo
Portugal, 2009 – 60 min

No núcleo das obras sobre artistas, A GRAVURA (primeira exibição na Cinemateca) é o retrato de grupo de Jorge Silva Melo: fundada em 20 de julho de 1956 por um grupo de artistas e intelectuais, a Cooperativa de Gravadores Portugueses Gravura tem uma história que parte de “um momento único de camaradagem, aprendizagem, intercâmbio, um momento político na História das Formas”. É a história que o filme trata através de quase 30 depoimentos de conhecidos artistas plásticos portugueses: “a sua história, e as suas consequências, a sua origem nos movimentos de oposição à ditadura, numa improvisada garagem de Algés. E sobretudo, a necessidade que os artistas sentiram de aprender em conjunto, de se organizar, aprender e ensinar ao mesmo tempo.” Bartolomeu Cid dos Santos (1931-2008), um dos nomes da Gravura, foi um dos muitos artistas exilados do século XX português. Radicado em Londres, ensinou na Slade School of Fine Art. Retrato de um pintor e gravador, cuja obra de extrema vitalidade mantém uma ligação profunda com Portugal. Jorge Silva Melo titula o filme a partir do célebre poema de T.S. Eliot, A Terra Devastada (1922) citando-o sobre imagens de atualidades da Europa trucidada pela Segunda Guerra Mundial.
 
24/03/2020, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Jorge Silva Melo – Viver Amanhã como Hoje
Ângelo de Sousa: Tudo o Que Sou Capaz | Fotografia | Infância | Cenário | Esferográfica
duração total da projeção: 83 min | M/12
ÂNGELO DE SOUSA: TUDO O QUE SOU CAPAZ
de Jorge Silva Melo
Portugal, 2010 – 60 min
FOTOGRAFIA | INFÂNCIA | CENÁRIO | ESFEROGRÁFICA
de Jorge Silva Melo
Portugal, 2010 – 23 min (duração dos quatro “extras”)

Ângelo de Sousa (1938-2011), pintor, escultor, desenhador, professor que viveu e trabalhou no Porto desde os anos 1950 conversa com Jorge Silva Melo neste retrato de 2010, filmado em Coimbra, numa exposição de escultura, em casa, no atelier, em Lisboa. “O filme parte de encontros vários com o Artista, como se fossem curtas-metragens justapostas, em que ele comenta os seus trabalhos, os métodos, a repetição das formas, as alternâncias de suportes (papel, fotografia, vídeo, metal). Inquieto, Ângelo guia-me pela sua sempre declarada alegria, impermanente conquista diária das formas simples” (JSM). FOTOGRAFIA, INFÂNCIA, CENÁRIO, ESFEROGRÁFICA são títulos dos quatro pequenos “extras” incluídos na edição dvd a apresentar em projeção como quatro curtas-metragens suplementares a seguir ao filme. Primeira exibição na Cinemateca.
 
27/03/2020, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Jorge Silva Melo – Viver Amanhã como Hoje
Fernando Lemos – Como, Não É Um Retrato?
de Jorge Silva Melo
Portugal, 2018 - 76 min | M/12
Concluído em 2018, dez anos depois de ter sido começado, o retrato de Fernando Lemos (1926-2019) por Jorge Silva Melo constrói-se a partir de uma longa entrevista feita em 2008, por altura de uma passagem de Lemos por Lisboa, e de uma outra, de 2017, em São Paulo. É o mais recente filme-retrato de Silva Melo a esta data. O de um artista que quando deixou Lisboa em 1953 para se instalar em São Paulo, no Brasil, “deixou-nos a mais impressionante galeria de retratos eu diria que desde Columbano: os seus amigos, atores, escritores, pintores que fotografou incessantemente naqueles três últimos anos que viveu em Portugal. E é pintor, gráfico, poeta” (JSM). Primeira exibição na Cinemateca.
 
31/03/2020, 19h00 | Sala M. Félix Ribeiro
Jorge Silva Melo – Viver Amanhã como Hoje
A Felicidade | Conversas com Glicínia Quartin
duração total da projeção: 63 min | M/12
A FELICIDADE
de Jorge Silva Melo
com Fernando Lopes, Pedro Gil, Miguel Borges
Portugal, 2007 – 8 min
CONVERSAS COM GLICÍNIA QUARTIN
de Jorge Silva Melo
Portugal, 2004 – 55 min

A curta-metragem A FELICIDADE é o mais recente título de ficção de Jorge Silva Melo, que filma outro realizador no papel protagonista, Fernando Lopes. Silva Melo: “Um pai e um filho. O pai terá 70 anos, o filho pouco mais de 20. O filho leva o pai ao hospital. Na rádio, ouve-se música clássica: o Exultate, Jubilate de Mozart, cantado por Teresa Stich-Randall. Nem o pai sabia que o filho gostava de música clássica, nem o filho sabia que aquela seria a última conversa que teria com o pai. Mas Mozart pede que as almas se alegrem, que os homens rejubilem.” CONVERSAS COM GLICÍNIA QUARTIN foi preparado para os 80 anos de Glicínia Quartin, e a sua ante-estreia teve lugar no dia do aniversário da atriz. “Gosto tanto de a ouvir falar, à Glicínia. Mas não queria que ela falasse só comigo. Por isso fiz este filme, para partilhar as minhas conversas com Glicínia Quartin” (JSM). Testemunhando a presença de Glicínia e a sua amizade com Silva Melo, é o filme de Glicínia a conversar com todos nós.