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CICLO
Double Bill


Como sempre nestes duplos programas de sábado, os pares de filmes reunidos dialogam, de maneira direta ou por analogia. Quatro destes filmes são apresentados pela primeira vez na Cinemateca e três deles (MARTIN ROUMAGNAC, LA FEMME AU COUTEAU e THEY MADE ME A FUGITIVE) são bastante raros. No primeiro programa, organizado à volta de Marlene Dietrich, a seguir a um documentário que é um (auto)retrato da diva, poderemos ver um dos filmes mais subestimados da sua filmografia e da de Jean Gabin, o único em que estes dois monstros sagrados contracenam, no qual a dimensão erótica da relação entre os personagens é muito intensa. O segundo programa reúne duas primeiras obras, realizadas a mais de quarenta anos de distância, uma na Costa do Marfim e a outra no Brasil, que são aqui aproximadas porque nelas a matéria cinematográfica é tratada com leveza e a narrativa é oblíqua, longe de qualquer prosaísmo, num clima de ameaça latente. No terceiro, reunimos dois cineastas que têm muito em comum, John Waters e Pedro Almodóvar: ambos pertencem à mesma geração, começaram a trabalhar num sistema realmente marginal e compartilham o gosto pelo humor camp. Neste programa cruzam-se um dos primeiros filmes em que Waters começa a sair das “margens” e um dos últimos realizados por Almodóvar antes de atingir a celebridade internacional e começar a ser condicionado pelo mercado. No último programa, dois filmes que giram à volta da ideia do Mal, o primeiro no contexto de um filme criminal, o segundo no âmbito da relação entre a arte e o poder político, quando a primeira se põe ao serviço do segundo. Com a exceção de LA FEMME AU COUTEAU, todos os filmes são apresentados no suporte original em película 35 mm (O SOM AO REDOR foi filmado em película e distribuído em suporte digital).
 
 
04/01/2020, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

Marlene | Martin Roumagnac
Duração total da projeção: 199 minutos.
 
11/01/2020, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

La Femme au Couteau | O Som ao Redor
duração total da projeção: 208 minutos
18/01/2020, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

Hairspray | Laberinto de Pasiones
Duração total da projeção: 192 minutos.
25/01/2020, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

They Made Me a Fugitive | Mephisto
Duração total da projeção: 244 minutos
04/01/2020, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
Marlene | Martin Roumagnac
Duração total da projeção: 199 minutos.
entre os dois filmes há um intervalo de 20 minutos
MARLENE
de Maximilian Schell
com a voz de Marlene Dietrich
República Federal da Alemanha, 1983 - 94 min / legendado em português | M/12
MARTIN ROUMAGNAC
Desespero
de Georges Lacombe
com Marlene Dietrich, Jean Gabin, Daniel Gélin, Margo Lion
França, 1946 - 105 min / legendado eletronicamente em português | M/12

Maximilian Schell levou alguns anos a convencer Marlene Dietrich a aparecer num documentário sobre a sua pessoa. Já quase octogenária, a vedeta impôs como condição estar ausente de campo. Por conseguinte, limitamo-nos a ouvir a sua voz, num tom frequentemente cortante, a que se justapõem fotografias, excertos de filmes e de atualidades, de modo a elaborar o retrato de uma mulher que tornou-se um mito antes dos 30 anos (na Alemanha, o filme é subtitulado precisamente “Retrato de um Mito”). Foi em MARTIN ROUMAGNAC que Marlene Dietrich e Jean Gabin, que viviam então uma relação sentimental, se reuniram no ecrã pela única vez, mas trata-se de um filme “maldito”, que fracassou à época e nunca foi recuperado pela crítica ou pela cinefilia. Gabin e Marlene (que fala perfeitamente francês) vivem personagens que correspondem à imagem cinematográfica que tinham à época: ela é uma estrangeira “com um passado” que vive numa cidade de província e é amante de um diplomata sobranceiro, ele é um empreiteiro da construção civil. Ambos vivem uma intensa relação ilícita e, como de costume, a personagem de Gabin não aceita compromissos. Os filmes não são apresentados na Cinemateca, respetivamente, desde 2014 e 2004.
11/01/2020, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
La Femme au Couteau | O Som ao Redor
duração total da projeção: 208 minutos
entre os dois filmes há um intervalo de 20 minutos
LA FEMME AU COUTEAU
A Mulher com a Faca”
de Timité Bassori
com Timité Bassori, Marie Vieyra, Danielle Alloh
Costa do Marfim, 1969 - 77 min / legendado eletronicamente em português | M/12
O SOM AO REDOR
de Kleber Mendonça Filho
com Ana Rita Gurgel, Caio Almeida, Maeve Jenkins
Brasil, 2012 - 131 min | M/12

LA FEMME AU COUTEAU, única longa-metragem de ficção de Timité Bassori insere-se na vertente do cinema africano do primeiro decénio posterior às independências cujos filmes se situam em ambientes urbanos e não em regiões recuadas, tratando por conseguinte dos dilemas da África moderna, como os filmes de Désiré Ecaré, Med Hondo e parte da obra de Ousmane Sembène. Trata-se da história de um jovem “ocidentalizado”, que tem pesadelos recorrentes, em que uma mulher o ameaça com uma faca. O homem tenta aplacar as suas fobias misturando métodos africanos tradicionais e a psicanálise. Numa intriga secundária, vemos um africano de smoking, a vaguear por Abidjan. A realização é sóbria, precisa e perfeitamente dominada. O filme foi recentemente restaurado pela Cinemateca de Bolonha e a Film Foundation’s World Cinema Project, no âmbito do African Film Heritage Project. Nos últimos anos, devido a um trabalho de fundo, a cidade do Recife tornou-se o pólo do cinema de maior ambição artística e melhor qualidade do Brasil, graças em parte à ação como programador de Kleber Mendonça Filho, o realizador de AQUARIUS e BACURAU. O SOM AO REDOR é a sua primeira longa-metragem. Situado num bairro abastado e realizado em scope, o filme mostra as suas personagens (os habitantes novos-ricos e os homens que fazem a segurança do bairro) num denso panorama mural, com diversas histórias simultâneas e pequenos incidentes. No desenlace, uma surpresa narrativa dá uma nova camada de sentido ao filme. Segundo o realizador, “o tema do filme é a inquietação”. Para “tornar palpável o sentimento de violência sem mostrar o ato de violência”, Kleber Mendonça Filho fez um extraordinário trabalho sobre o som off, a partir de mais de sessenta horas de som gravado: o espaço do filme é compartimentado, mas o som invade cada uma destas divisões, num filme em que “a banda sonora não apenas constrói o ambiente do filme como age sobre a sua dinâmica” (Joachim Lepastier). Primeiras apresentações na Cinemateca.
18/01/2020, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
Hairspray | Laberinto de Pasiones
Duração total da projeção: 192 minutos.
entre os dois filmes há um intervalo de 20 minutos
HAIRSPRAY
Laca
de John Waters
com Sonny Bono, Divine, Ruth Brown, Mink Stole
Estados Unidos, 1988 - 92 min / legendado em português| M/12
LABERINTO DE PASIONES
de Pedro Almodóvar
com Cecilia Roth, Imanol Arias, Helga Liné
Espanha, 1982 - 100 min / legendado em inglês e eletronicamente em português| M/12

Depois de POLYESTER, este foi o segundo filme de John Waters a ter uma distribuição “normal”. HAIRSPRAY ilustra o humor delirante do “mestre de Baltimore”, onde se passa a ação, em 1962, quando a cidade se autodenominava “a capital mundial do penteado”. Waters declarou numa entrevista que “a aposta de todos os meus filmes é fazer uma comédia sobre um tema que, em si, nada tem de divertido”. Aqui, um grupo de adolescentes decide atingir a celebridade através de um concurso de televisão e, para tal, estão dispostos a tudo. Este foi o último filme em que atuou Divine, a obesa musa de Waters, que morreria pouco depois. O crítico Richard Corliss comentou: “Vejam HAIRSPRAY, é leve e aéreo, mas gruda: é o primeiro filme em aerossol”. Segunda longa-metragem “oficial” de Pedro Almodóvar, LABERINTO DE PASIONES ilustra o período camp (que já é evidente nos títulos dos filmes) do cineasta espanhol, com um pronunciado gosto pelo humor grotesco. A trama narrativa, parcialmente inspirada de cartas de leitoras da imprensa “cor-de-rosa”, faz jus ao título e todos os personagens procuram desesperadamente ir para a cama uns com os outros. O realizador define LABERINTO DE PASIONES como “uma comédia delirante, um género de que gosto muito e do qual sempre me senti próximo. Quando escrevi o argumento, quis demonstrar que Madrid era a cidade para onde todos vinham e onde tudo podia acontecer”. O filme de John Waters não é apresentado na Cinemateca desde 2014 e o de Almodóvar é mostrado nas nossas salas pela primeira vez.
25/01/2020, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
They Made Me a Fugitive | Mephisto
Duração total da projeção: 244 minutos
entre os dois filmes há um intervalo de 20 minutos
THEY MADE ME A FUGITIVE
Sou um Fugitivo
de Alberto Cavalcanti
com Trevor Howard, Griffith Jones, Sally Gray
Grã-Bretanha, 1947 - 100 min / legendado eletronicamente em português| M/12
MEPHISTO
Mephisto
de István Szabo
com Klaus Maria Brandauer, Krystyna Janda, Ildikó Bánsági
Hungria/República Federal da Alemanha, Áustria 1981 - 144 min / legendado em português| M/12

Antepenúltimo filme do período britânico de Alberto Cavalcanti, THEY MADE ME A FUGITIVE conta a história de um soldado desmobilizado que, a seguir à guerra, aceita trabalhar para um criminoso que trabalha no mercado negro. Traído pelos seus “patrões”, o homem é preso por um crime que não cometeu. Ao ser libertado, busca vingança. O filme, de grande riqueza plástica, assume a forma de um périplo pelas ruas noturnas do Soho londrino, com semelhanças com o filme negro americano, então no auge. Em MEPHISTO, o percurso de um ator na Alemanha é posto em paralelo com a ascensão do Nacional-Socialismo. Gustav Gründgens foi o ator que serviu de base ao filme e ao romance de onde foi extraído, escrito por Klaus Mann, filho de Thomas Mann e irmão de Erika Mann, primeira mulher de Gründgens. Este foi considerado o melhor intérprete do papel de Mefisto no Fausto de Goethe da sua geração. Também fez o inesquecível papel do chefe dos gangsters em M, de Fritz Lang e atuou em LIEBELEI, de Ophuls. O filme de Istvan Szabo é uma obra complexa e magnífica, que segundo o realizador, “não é uma história sobre a ditadura nazi, mas uma meditação, válida em qualquer época, sobre a relação entre a arte e o poder.” O filme de Szabo não é apresentado na Cinemateca desde 2014, ao passo que o de Cavalcanti é aqui apresentado pela primeira vez.