CICLO
Histórias do Cinema: Peter Bagrov / Fridrikh Ermler


Peter Bagrov Historiador e arquivista de cinema, Bagrov é, desde 2013, o Conservador Principal do Gosfilmofond (o Arquivo Nacional de Cinema da Rússia) onde é também diretor artístico do festival de filmes de arquivo ali anualmente organizado. Doutorou-se no Instituto de Estudos Cinematográficos em Moscovo e é pesquisador associado no Instituto Russo de História da Arte. É autor do livro “Cinderela: Residentes do Reino Mágico” (2011), sobre a realização de um filme clássico soviético de 1947 e sobre o destino da vanguarda na era do “cosmopolitismo”. Tem programado retrospetivas em diversos festivais, tais como o Il Cinema Ritrovato (Bolonha) e as Giornate del Cinema Muto (Pordenone), e tem trabalhado intensamente na arqueologia do cinema, descobrindo e identificando dezenas de obras até aí consideradas perdidas.
Fridrikh Ermler (1898-1967) pertence à primeira e brilhante geração de cineastas soviéticos, a mesma de Sergei Eisenstein, Dziga Vertov, Aleksandr Dovjenko ou Boris Barnet entre muitos outros. Na opinião de Peter Bagrov, “Ermler pertencia à mesma raça de loucos que Vsevolod Pudovkine, Ivan Pyriev e Mark Donskoi, personalidades desequilibradas, explosivas, excêntricas, tresloucadas, ingénuas e teimosas, muito à frente do seu tempo e que, simultaneamente, registavam este tempo da maneira mais precisa que se pode imaginar”. Mas Bagrov também assinala que “é extremamente difícil escrever sobre Ermler”, em parte devido “à ingenuidade e à convicção que o caracterizavam. Mas se pusermos de lado a ideologia (que, no seu caso, nada tinha de ambígua) resta-nos o seu talento artístico. E Ermler é inegavelmente um dos maiores mestres do cinema soviético e, digo-o sem hesitação, do cinema mundial”. No entanto, Ermler nunca foi considerado à mesma altura dos grandes mestres da sua geração na União Soviética, embora os críticos e historiadores do período clássico, como Jay Leyda, tenham dado a devida atenção ao seu trabalho. Em anos recentes, foi reavaliado, assim como outros cineastas soviéticos da sua geração.
Nascido na Letónia, numa família judia de poucos recursos, o futuro realizador apaixona-se pelo cinema aos 15 anos e decide ser ator. Mas só em 1923, no fim da guerra civil, entra para o Instituto da Arte Cinematográfica em Petrogrado, que abandona no ano seguinte, para fundar a Oficina Cinematográfica Experimental, KEM, sob a influência da FEKS (Fábrica do Ator Excêntrico), de Grigori Kozintsev e Leonid Trauberg, um dos muitos grupos experimentais do cinema soviético dos anos da festa revolucionária. Mas, segundo Jay Leyda, contrariamente à FEKS, Ermler favorecia o “conteúdo revolucionário” sobre a “forma revolucionária”. Nos anos vinte, período em que o cinema soviético foi particularmente rico, Ermler realiza duas das suas obras-primas, KATKA-BUMAJHNY RANET e OBLOMOK IMPERII, ambos incluídos nestas “Histórias do Cinema”. Bernard Eisenschitz nota que os filmes mudos de Ermler mostram “situações tiradas das mudanças do país, personagens que tentam refletir e que mudam, problemas de moral, e favorecem a rodagem em exteriores e a improvisação”. Nos gelos e degelos do cinema soviético dos anos trinta, Ermler realiza KRESTYANE, sobre o clássico tema da coletivização das terras e o vasto e complexo VELIJK GRAJDANIN (“O GRANDE CIDADÃO”), sobre a luta entre a “linha do Partido” e os “fracionários”. A “Grande Guerra Patriótica” foi tema de dois filmes seus, ONA ZASH CHISH CHAYET (“ELA DEFENDE A SUA PÁTRIA”) e VELIKIJ PARELOM (“A VIRAGEM DECISIVA”), que, na opinião de Eisenschitz, “ilustram a conceção mais elevada do filme de guerra nos seus dois momentos – guerra do povo e guerra dos generais”. O período posterior à guerra parece ter sido marcado por uma certa desilusão por parte de Ermler, que realizou poucos filmes e chegou a declarar em 1959 que “desde 1948, creio que já não gosto do cinema. No entanto, quando era jovem, tinha muito talento”. O seu último filme, PERED SUDOM ISTORII, é ao mesmo tempo um posfácio à sua obra e um testamento político, que alguns consideram como o seu filme mais radical. Fridrikh Ermler atravessou 40 anos do cinema soviético e as vicissitudes políticas deste longo período, ao longo do qual realizou uma obra de valor excecional, de que estas “Histórias do Cinema” permitirão aos espectadores da Cinemateca terem uma síntese. À exceção de OBLOMOK IMPERII e PERED SUDOM ISTORII, os filmes apresentados são inéditos na Cinemateca.

sessões-conferência | apresentadas e comentadas por Peter Bagrov em inglês


INFORMAÇÃO SOBRE AS SESSÕES E VENDA ANTECIPADA DE BILHETES

Para esta rubrica, a Cinemateca propõe um regime de venda de bilhetes específico, fazendo um preço especial e dando prioridade a quem deseje seguir o conjunto das sessões. Assim, quem deseje seguir todas as sessões (venda exclusiva para a totalidade das sessões, máximo de duas coleções por pessoa) poderá comprar antecipadamente a sua entrada pelo preço global de € 22 (Estudantes, Cartão Jovem, Maiores de 65 anos, Reformados: € 12; Amigos da Cinemateca, Estudantes Cinema, Desempregados: € 10) a partir de 1 de setembro, apenas na bilheteira local. Os lugares que não tenham sido vendidos são depois disponibilizados através do sistema de venda tanto na bilheteira local como na Internet (cinemateca.bol.pt) e rede de pontos de venda associados e de acordo com o preço específico destas sessões (Geral: € 5; Estudantes, Cartão Jovem, Maiores de 65 anos, Reformados: € 3; Amigos da Cinemateca, Estudantes Cinema, Desempregados: € 2,60).


 
 
04/09/2017, 18h00 | Sala Luís de Pina
Ciclo Histórias do Cinema: Peter Bagrov / Fridrikh Ermler

Katka-Bumajhny Ranet
“Katka, a Vendedora de Maçãs”
de Fridrikh Ermler, Eduard Loganson
URSS, 1926 - 73 min
 
05/09/2017, 18h00 | Sala Luís de Pina
Ciclo Histórias do Cinema: Peter Bagrov / Fridrikh Ermler

Oblomok Imperii
“Um Fragmento do Império”
de Fridrikh Ermler
URSS, 1929 - 96 min
06/09/2017, 18h00 | Sala Luís de Pina
Ciclo Histórias do Cinema: Peter Bagrov / Fridrikh Ermler

Krestyane
“Camponeses”
de Fridrikh Ermler
URSS, 1934 - 114 min
07/09/2017, 18h00 | Sala Luís de Pina
Ciclo Histórias do Cinema: Peter Bagrov / Fridrikh Ermler

Ona Zash Chish Chayet
“Ela Defende a sua Pátria”
de Fridrikh Ermler
URSS, 1943 - 74 min
08/09/2017, 18h00 | Sala Luís de Pina
Ciclo Histórias do Cinema: Peter Bagrov / Fridrikh Ermler

Pered Sudom Istorii
“Diante do Julgamento da História”
de Fridrikh Ermler
URSS, 1965 - 96 min
04/09/2017, 18h00 | Sala Luís de Pina
Histórias do Cinema: Peter Bagrov / Fridrikh Ermler

Em colaboração com o Gosfilmofond – Fundo Nacional de Cinema da Federação da Rússia
Katka-Bumajhny Ranet
“Katka, a Vendedora de Maçãs”
de Fridrikh Ermler, Eduard Loganson
com Veronika Bujanskaya, Fyodor Nitkin, Bella Chernova, Valery Solotsov
URSS, 1926 - 73 min
mudo, intertítulos em russo legendados eletronicamente em português | M/12
sessão-conferência | apresentada e comentada por Peter Bagrov em inglês
Geralmente considerado como o primeiro grande filme de Ermler, KATKA-BUMAHNY RANET (correalizado com Eduard Loganson) tem algo de manifesto realista. Situado nos primeiros tempos da NEP (Nova Política Económica), o filme mostra-nos as aventuras de uma jovem que vai para Petrogrado em busca de trabalho e tem de vender maçãs na rua para sobreviver. Ermler leva-nos ao mundo do crime na antiga capital imperial e a protagonista é explorada, seduzida e abandonada, antes de encontrar um homem que gosta dela e a protege, numa notável interpretação de Fyodor Nitkin. Um dos grandes clássicos pouco vistos do cinema mudo soviético.
 
05/09/2017, 18h00 | Sala Luís de Pina
Histórias do Cinema: Peter Bagrov / Fridrikh Ermler

Em colaboração com o Gosfilmofond – Fundo Nacional de Cinema da Federação da Rússia
Oblomok Imperii
“Um Fragmento do Império”
de Fridrikh Ermler
com Fyodor Nitkin, Sergei Guerassimov, Yakov Gudkin, Ludmilla Semenova
URSS, 1929 - 96 min
mudo, intertítulos em russo legendados eletronicamente em português | M/12
sessão-conferência | apresentada e comentada por Peter Bagrov em inglês
Geralmente considerado a obra-prima do período mudo de Ermler, OBLOMOK IMPERII conta a história de um homem que perdeu a memória durante a Guerra Civil e recupera-a ao cabo de 10 anos. Dirige-se então a Leninegrado, constata, com espanto, as profundas mudanças ocorridas na cidade e no país e também reencontra o seu antigo patrão e a sua antiga mulher, que o julgavam morto. Alguns críticos veem no filme, pontuado por monólogos interiores, ecos do interesse de Ermler pela psicanálise. Jay Leyda nota que OBLOMOK IMPERII aborda “os problemas mais sérios do período: os aspectos humanos da construção do socialismo, os problemas das novas relações de trabalho, da cultura de massa e da vida de família”. As imagens são de uma qualidade excecional.
 
06/09/2017, 18h00 | Sala Luís de Pina
Histórias do Cinema: Peter Bagrov / Fridrikh Ermler

Em colaboração com o Gosfilmofond – Fundo Nacional de Cinema da Federação da Rússia
Krestyane
“Camponeses”
de Fridrikh Ermler
com Aleksei Petrov, Elena Junger, Nicolai Bogolyubiov, Boris Poslavsky
URSS, 1934 - 114 min
legendado eletronicamente em português | M/12
sessão-conferência | apresentada e comentada por Peter Bagrov em inglês
Primeiro filme sonoro soviético a abordar o clássico tema da coletivização das terras. KRESTYANE Um antigo “kulak” (proprietário de terras), que esconde este passado, trabalha numa quinta coletiva, um “kolkhoze”. O homem sabota o “kolkhoze” e para não ser denunciado mata a própria mulher e leva o cunhado a assassinar um responsável do Partido. Do ponto de vista ideológico, o filme “apresenta toda a argumentação comunista por trás do impulso da coletivização e da liquidação dos ‘kulaks’ enquanto classe” (Leyda). Quando KRESTYANE foi mostrado, à época, em quintas coletivas, os camponeses declararam ao realizador. “Nunca tínhamos visto um filme como este sobre a nossa luta. Vimo-nos na tela”. É precisamente este realismo, por vezes cru, que afasta o filme do esquematismo de outras obras soviéticas sobre o mesmo tema. A título de curiosidade: Estaline surge em KREYSTANE como personagem de um filme de animação.
 
07/09/2017, 18h00 | Sala Luís de Pina
Histórias do Cinema: Peter Bagrov / Fridrikh Ermler

Em colaboração com o Gosfilmofond – Fundo Nacional de Cinema da Federação da Rússia
Ona Zash Chish Chayet
“Ela Defende a sua Pátria”
de Fridrikh Ermler
com Vera Maretskaya, Nicolay Bogolyubov, Lidiya Smirnova
URSS, 1943 - 74 min
legendado eletronicamente em português | M/12
sessão-conferência | apresentada e comentada por Peter Bagrov em inglês
Um dos muitos filmes soviéticos ambientados durante a Segunda Guerra Mundial. Uma camponesa, cujos marido e filho pequeno foram mortos pelas tropas nazis, organiza uma rede de resistência na sua aldeia e na região circunvizinha. O filme foi distribuído internacionalmente numa versão dobrada em inglês, com o título NO GREATEST LOVE. Ermler reata com a tradição das mulheres combatentes no cinema soviético, inaugurada com O 41º (1927), de Yakov Protazonov, de que seria feita uma nova versão em 1857, incluída no Ciclo “1917 no Ecrã”, que tem início este mês. Naum Kleiman, um dos grandes especialistas do cinema soviético, vê no facto da protagonista do filme ser uma mulher do povo um prolongamento da tendência que se delineava no cinema soviético dos anos trinta em mostrar personagens que não fossem super-heróis.
 
08/09/2017, 18h00 | Sala Luís de Pina
Histórias do Cinema: Peter Bagrov / Fridrikh Ermler

Em colaboração com o Gosfilmofond – Fundo Nacional de Cinema da Federação da Rússia
Pered Sudom Istorii
“Diante do Julgamento da História”
de Fridrikh Ermler
com Vassili Shulgin
URSS, 1965 - 96 min
legendado eletronicamente em português | M/12
sessão-conferência | apresentada e comentada por Peter Bagrov em inglês
O último filme de Ermler é um testamento. O cineasta reata com o debate político filmado, que está no cerne do seu monumental VELIJK GRAJDANIN (“O GRANDE CIDADÃO”). Mas em PERED SUDOM ISTORII não estamos numa ficção e sim numa discussão com uma personagem real, Vassili Shulgin, que fora um importante líder dos brancos, ou seja, dos anticomunistas, durante a guerra civil que se seguiu à Revolução de Outubro. Aos 84 anos, Shulgin tinha uma memória perfeita e o filme é essencialmente composto por monólogos, que são autênticos testemunhos históricos. O realizador comentou: “Triunfa a justiça das nossas ideias leninistas. Não podia ser de outro modo. O filme não teria existido se a verdade, a nossa verdade, não tivesse triunfado!”