CICLO
Double Bill


Que filmes andávamos a ver há 30 anos, entre o final dos anos oitenta e o princípio dos anos noventa? Estamos tão longe de 1989, em 2019, como em 1989 estávamos de 1959 – e pode-se então perguntar com que se parecem mais os filmes de 1989: com os filmes de 1959 ou com os de 2019? Perguntas para quem as quiser responder, mas o double bill de junho é, com ou sem respostas (sempre facultativas), dedicado aos filmes da dobra 1980/1990, período em que os últimos clássicos (Rohmer, McTiernan, etc) coexistiam com os últimos modernos (Lumet, Fellini, etc.), em que cineastas antiquíssimos (como Coppola) começavam a despedir-se, em que jovens (Bigelow, Van Sant) davam os primeiros andamentos a obras que o tempo viria a revelar marcantes. Pequena viagem a um tempo longínquo, espécie de pré-história da contemporaneidade.
 
 
01/06/2019, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

Running on Empty | Drugstore Cowboy
duração total da projeção: 217 min | M/18
 
08/06/2019, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

Sex, Lies and Videotapes | Die Venusfalle
duração total da projeção: 204 min | M/16
15/06/2019, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

Conte de Printemps | Peaux de Vaches
duração total da projeção: 197 min | M/12
22/06/2019, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

Die Hard | Blue Steel
duração total da projeção: 232 min | M/16
29/06/2019, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Ciclo Double Bill

Tucker: The Man and His Dream | La Voce della Luna
duração total da projeção: 230 min | M/12
01/06/2019, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
Running on Empty | Drugstore Cowboy
duração total da projeção: 217 min | M/18
entre os dois filmes há um intervalo de 20 minutos
RUNNING ON EMPTY
Fuga sem Fim
de Sidney Lumet
com River Phoenix, Martha Plimpton, Christine Lahti, Judd Hirsch, Jonas Arby
Estados Unidos, 1988 – 115 min / legendado em português
DRUGSTORE COWBOY
No Trilho da Droga
de Gus van Sant
com Matt Dillon, Kelly Lynch, James Remar, James LeGros, Heather Graham, William Burroughs
Estados Unidos, 1988 – 102 min / legendado eletronicamente em português

Em RUNNING ON EMPTY, Danny Pope / Michael Manfield (River Phoenix) viveu toda a sua vida com uma falsa identidade. É o filho mais velho de um casal que, no início dos anos setenta, fez explodir um laboratório em protesto contra a guerra do Vietname e que, desde então, foge ao FBI. Se os pais fizeram as escolhas deles, Danny quer fazer a sua, mas sair da clandestinidade implica uma opção: ou nunca mais vê a família, ou faz com que esta seja apanhada. Um dos mais aclamados filmes de Lumet, e um dos mais belos filmes americanos dos anos oitenta, particularmente comovente quando se apropria de uma fabulosa canção de James Taylor, Fire and Rain: um daqueles filmes a que só fica insensível quem já está morto por dentro. DRUGSTORE COWBOY vem do mesmo ano, mas dum cineasta num ponto da carreira oposto ao de Lumet – era apenas a segunda longa-metragem de Gus van Sant (depois de MALA NOCHE), e a primeira com atores da primeira linha hollywoodiana (inaugurando uma constante da carreira do autor, sempre com um pé no mainstream e outro fora dele). Baseado na autobiografia de James Fogle, traficante e toxicómano, é um olhar sobre a mais radical contracultura "jovem" da América dos anos setenta, construído numa espécie de negativo das figuras arquetípicas da rebeldia juvenil que o cinema americano foi dando desde a década de cinquenta. Um ponto alto é a aparição de uma lenda negra das artes e letras americanas do século XX, essa esfinge "junkie" que deu pelo nome de William S. Burroughs.
 
08/06/2019, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
Sex, Lies and Videotapes | Die Venusfalle
duração total da projeção: 204 min | M/16
entre os dois filmes há um intervalo de 20 minutos
SEX, LIES AND VIDEOTAPES
Sexo, Mentiras e Vídeo
de Steven Soderbergh
com James Spader, Andie MacDowell, Peter Gallagher, Laura San Giacomo
Estados Unidos, 1989 – 100 min / legendado em português
DIE VENUSFALLE
Armadilha de Vénus
de Robert Van Ackeren
com Myriam Roussel, Horst-Gunther Marx, Sonja Kirchberger
RFA, 1988 – 104 min / legendado em português

História de um homem que coleciona as confissões eróticas das namoradas, gravadas em vídeo, SEX, LIES AND VIDEOTAPE fez sensação no Festival de Cannes (Palma de Ouro, da imprensa internacional e prémio de melhor ator para James Spader), revelando um dos mais importantes realizadores da última década do século XX, Steven Soderbergh. Em DIE VENUSFALLE, Max é difícil de satisfazer no que respeita a mulheres. Embora já tenha noiva, inicia uma relação com uma jovem mulher e seduz várias outras. Robert van Ackeren, cineasta da mesma geração de Wenders ou Fassbinder, nunca atingiu a mesma cotação (nem a mesma produtividade) desses nomes, mas os seus filmes dos anos setenta e oitenta (como HARLIS, DIE FLAMBIERTE FRAU e este) representam uma interessantíssima tentativa de dar o zeitgeist da Alemanha Federal a partir de histórias de cariz marcadamente erótico. Está hoje bastante esquecido, o que é mais uma razão para reavivarmos memórias dele. De notar ainda, em DIE VENUSFALLE, a presença de Myriam Roussel, a protagonista do JE VOUS SALUE, MARIE de Jean-Luc Godard.
 
15/06/2019, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
Conte de Printemps | Peaux de Vaches
duração total da projeção: 197 min | M/12
entre os dois filmes há um intervalo de 20 minutos
CONTE DE PRINTEMPS
Conto de Primavera
de Eric Rohmer
com Anne Teyssèdre, Hugues Quester, Florence Darel
França, 1993 – 107 min / legendado em português
PEAUX DE VACHES
de Patricia Mazuy
com Sandrine Bonnaire, Jean-François Stévenin, Jacques Spiesser, Salomé Stévenin
França, 1989 – 90 min / legendado eletronicamente em português

Rohmer gosta de variantes subtis no interior de um padrão vagamente predeterminado e é precisamente por isso que fez filmes em série. Temos aqui, como no CONTO DE VERÃO, um homem às voltas com três mulheres, mas trata-se de um adulto e não de um adolescente e a situação não é passageira, de férias. Tudo se passa com a perfeição e o rigor que são a marca do cinema de Rohmer, profundamente enraizado nas tradições do teatro clássico francês. O filme é “como uma partitura musical, cujos movimentos se sucedem com a mesma precisão geométrica com a que as personagens são dispostas no argumento” (Giancarlo Zappoli). Talvez o mais belo dos “Contos das Quatro Estações”. PEAUX DE VACHES (primeira exibição na Cinemateca) foi a primeira longa-metragem de Patricia Mazuy, cineasta francesa cuja obra permanece bastante desconhecida em Portugal (o seu único filme por cá estreado foi SAINT CYR, do ano 2000). PEAUX DE VACHES, história de relacionamentos claustrofóbicos na França rural, atraiu sobre Mazuy as atenções da crítica (Jean-Michel Frodon referiu "a notável potência da mise-en-scène") mas os seus filmes, bastante espaçados, continuaram a ser um tanto "secretos". A descobrir ou redescobrir, portanto, esta primeira obra, alimentada pelas portentosas presenças de um par de atores de exceção, Sandrine Bonnaire e Jean-François Stévenin.
 
22/06/2019, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
Die Hard | Blue Steel
duração total da projeção: 232 min | M/16
entre os dois filmes há um intervalo de 20 minutos
DIE HARD
Assalto ao Arranha-Céus
de John McTiernan
com Bruce Willis, Alan Rickman, Bonnie Bedelia, Reginald VelJohnson
Estados Unidos, 1988 – 131 min / legendado em português
BLUE STEEL
Aço Azul
de Kathryn Bigelow
com Jamie Lee Curtis, Ron Silver, Clancy Brown, Elizabeth Peña
Estados Unidos, 1990 – 101 min / legendado eletronicamente em português

Ambientado em Los Angeles, protagonizado por Bruce Willis no papel de John McClane, detetive de Nova Iorque, o primeiro DIE HARD é reconhecidamente um dos grandes filmes de ação dos anos oitenta. O argumento baseia-se no romance de Roderick Thorp Nothing Lasts Forever. Reúnem-se como ingredientes de combinação improvável a época natalícia e o cenário de um imponente arranha-céus (em que a ação decorre), uma personagem que atravessa uma crise conjugal e o ataque terrorista em que se vê envolvido e resolve como um herói do cinema clássico (Willis/McClane). Ficou famosa a frase em que atira um “Yippee kai yay, motherfucker”. BLUE STEEL (primeira exibição na Cinemateca) marca um ponto inicial da carreira de uma cineasta que viria, duas décadas depois, a tornar-se bastante célebre (sobretudo quando conquistou o primeiro Óscar de melhor realização atribuído a uma mulher, por THE HURT LOCKER). Nesta sua terceira longa-metragem, e primeira realizada para um grande estúdio, Bigelow filma já algo que a voltou repetidamente: universos primordialmente masculinos (como, no caso, o de uma esquadra de polícia nova-iorquina), e a forma como as mulheres se tornam mais "masculinas" do que os homens como maneira de sobrevivência. Jamie Lee Curtis é fenomenal, num papel que suscitou comparações com o HALLOWEEN de John Carpenter (mas que tem também curiosos pontos de contacto com outro "clássico" do autor, ASSAULT ON PRECINCT 13).
 
29/06/2019, 15h30 | Sala M. Félix Ribeiro
Double Bill
Tucker: The Man and His Dream | La Voce della Luna
duração total da projeção: 230 min | M/12
entre os dois filmes há um intervalo de 20 minutos
TUCKER: THE MAN AND HIS DREAM
Tucker, o Homem e o Seu Sonho
de Francis Ford Coppola
com Jeff Bridges, Joan Allen, Martin Landau, Frederic Forrest, Lloyd Bridges, Dean Stockwell
Estado Unidos, 1988 – 110 min / legendado eletronicamente em português
LA VOCE DELLA LUNA
A Voz da Lua
de Federico Fellini
com Roberto Benigni, Paolo Villaggio, Nadia Ottaviani, Marisa Tomasi
Itália, 1989 – 120 min / legendado em português

Como se vende e se esmaga uma ideia nova. O filme de Coppola conta a história de Tucker, um construtor de automóveis revolucionário, e com uma visão nova para esse meio de transporte, independente e individualista, que enfrenta o poder dos grandes industriais de Detroit que procuram destruí-lo, os mesmos que, mais tarde, irão explorar as suas inovações. Através de Tucker é de si e do seu trabalho que Coppola fala, e o fracasso comercial deste filme é outra peça para a "comparação". LA VOCE DELLA LUNA (primeira exibição na Cinemateca) foi o ponto final da obra de Federico Fellini, e uma despedida bastante amarga – tão amarga que é, facilmente, um filme de que "todos" se esquecem, quase como se não existisse. Como outros filmes imediatamente anteriores de Fellini (GINGER & FRED, INTERVISTA) é um filme dum luto (não do cinema, mas duma sociedade que tinha o cinema no centro), e um filme que aponta claramente um inimigo: a televisão, que em Itália foi o meio diretamente responsável pela ascensão de Silvio Berlusconi (explicitamente mencionado no filme). Fellini morreu em 1993, mas este seu filme anunciava muito do que aconteceu e continua a acontecer, na Europa, depois da sua morte. Revê-lo agora será percebê-lo melhor, e fazer justiça à extrema lucidez de Federico Fellini.